sábado, 29 de setembro de 2018

Os movimentos do amor



Quando trouxer uma flor roubada,
não me devolvas uma coroa de espinhos, meu bem.
Mesmo rejeitado, eu tiro de letra,
porque intuo os movimentos do amor,
como disse Drummond:
João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.
Podes desdenhar, rir da minha cara,
contar pra todo mundo o quanto sou ridículo,
mas não esqueça que todos fingimos
que deciframos as vontades do amor.
Desejamos reter o amor e-ter-na-men-te.
Mas a vida segue. O tempo brinca
com nossos sentimentos,
ele executa as mesmas funções da diarista,
que varre e lava e limpa e passa...

(B. B. Palermo)

quinta-feira, 27 de setembro de 2018

Talvez o amor seja como um local de descanso


Experimente como se ganha um amor,
e como se perde um amor,
ouvindo boa música.
Você já experimentou a batida do berimbau?
Quando você se humilha e liga e liga e ela nem aí,
ouça de preferência um blues.
Amores perdidos e ganhos,
os que sequestraram nossas melhores energias,
devem ser lembrados ouvindo sinfonias
ou música erudita.
Não tem graça carregar um par de chifres
e suavizar a dor ouvindo som ruim.
Dor de corno requer bom gosto musical.
Não sofra demasiado se a paquera não deu certo,
ainda mais se a gata tem gosto de quinta.
É bom lembrar que você não é o cara,
ainda mais se não percebeu que teu gosto é ultrapassado.
Você precisa ter paciência
se quiser fisgar aquela garota incomum.
Pode ser chapada, bêbada ou mijada
mas, por favor, que tenha um bom gosto musical.
Você deve se livrar do tédio da unha bem feita,
do cabelo pintado,
de ser tão previsível como se vê por aí.
Evite os impulsos.
A moda passa,
vai e volta,
enquanto envelhecemos.
Fiquei melancólico quando soube que a gata esperta
não tem emprego nem carro,
mora num beco e cria o filho sozinha.
mas ela tem o que procuro numa mulher:                           
senso de justiça e bom ouvido musical.


(B. B. Palermo)

terça-feira, 25 de setembro de 2018

Rima com ão


Rima com ão:
ela é um bom partido
que consome toda libido
mas eu não passo de um chinelão.

(B. B. Palemo)

segunda-feira, 17 de setembro de 2018

Uma aquariana bipolar



Chegamos os três na boate, meus dois amigos pareciam os Três Porquinhos e eu estava pra Lobo Mau. Logo avistei, numa banquinho junto ao balcão, aquele cabelo e aquela pele morena. Várias gatinhas de minissaia, corpos na feira, e ela numa saia discreta. Nossas mãos se tocaram e um arrepio me percorreu, Meu Deus, encontrei minha alma gêmea. Alcancei-lhe dez reais e disse Escolha as músicas que você gosta e ela foi direto em Raul e Legião Urbana e começou a dançar e quando sentou abriu seu coração e eu escutei durante horas. Ergueu a saia e mostrou a tatuagem na coxa direita, uma Fênix que ia da virilha até perto do joelho e acho que isso foi a gota d’água. Cinco horas da manhã a conta disparou e o Beiço sabia que eu andava duro e então ele passou o cartão.
No carro, Dr. Biza anunciou que não podia voltar para casa, disse à sua companheira que havia viajado. Eles comentaram sobre o belo clima que experimentei com Lili e de imediato me disseram Seu frouxo, como você deixa escapar a oportunidade de fazer um sexo gostoso? Afinal, não é todo dia que o céu nos presenteia com tamanha química. Em vez de nos deixar em casa, Dr. Biza disse que iriamos atrás de uma garrafa d’água e de uns copos descartáveis. Nos dirigimos até um posto de combustíveis, um dos poucos que ainda estava aberto naquela hora. Diluiu dois sachês do Pó do amor nos três copos, brindamos a Eros e voltamos pra boate. Em minutos meu sexo acordou, depois de um tempo hibernando, e queria mostrar suas qualidades, mas já eram seis e pouco e ela precisava voltar pra casa e levar a filhinha ao colégio. O Pó do amor deixou meu voluntarioso endiabrado, ele latejava e protestava, queria libertar-se da cueca e então, horas depois, eu não parei de mandar mensagens apaixonadas e ela só rindo, rindo e curtindo.
No sábado ela veio à minha casa. Estava sóbrio e, por isso, temia me decepcionar, ela poderia não ser tudo aquilo. Assim que desceu do táxi, o cabelão e o salto alto me deixaram babando. Era tudo aquilo e muito mais. Yes, dessa vez não fui enganado pelo puto do Dioniso. Trazia na mão uma garrafa de vinho importado, dos bons, e falou o tempo todo com aquele vocabulário sofisticado e aqueles dentes e boca lindos e o seu cabelo me atraía feito imã. Meus olhos se iluminaram mais e mais. Pode ter sido pelo cabelo ou pelo timbre de sua voz ou aquela boca perfeita ou o lábio inferior generoso ou foi seu gosto musical ou seu vocabulário rico em expressões, quase sempre ausentes em garotas da noite.
Pediu que não a visse como prostituta, ela não era, ela estava, e eu disse Sim e então ela descreveu dúzias de traumas adolescentes e o custo que pagou por ser a negra mais linda entre primas e amigas e tias e outras garotas. Detalhes do estupro que sofreu de um tio, aos quinze anos, umedeceram meus olhos e me levaram a sugar várias latas de cerveja. Mamãe e titias, todas mulheres da noite, e eu pensei no destino e, que merda, parece que tudo se repete, e falou da personalidade explosiva e de tantos empregos que jogou fora. Cenas detalhadas de como chegava aos orgasmos e aí eu cada vez mais sacava que não ia rolar sexo naquela noite. Ela foi pela terceira vez no banheiro e disse que não iria trabalhar na boate porque estava meio alta, fez questão de mostrar todo o seu repertório, mesmo com vinte e poucos anos. Montada naquele corpão, veio com tudo e enroscou a língua úmida e quente na minha e pressionou seu sexo no meu e eu sussurrei Vou te lamber todinha, excitadíssima ela implorou Vamos, vamos pro quarto... Lambi e lambi e ela ergueu a voz Me beija, Cadelão escroto, me beija, daí veio por cima e quis me escravizar, rápido assumi o controle e passei a fazer uns movimentos vigorosos naquela posição que me torna o dono do mundo e murmurei Quem é o pai? Quem é o pai? Logo seus gemidos aumentaram e eu saquei que ela gostou das técnicas que aprendi ao colocar em prática manuais da vida longa que tive. Tudo rolou, rolou e foi bom. Cadelão estava fora de forma, mas é como andar de bicicleta, Cadelão não desaprendeu.
Dias depois emprestei-lhe uma grana pra fazer mercado e farmácia e na quinta-feira baixou um temporal que inundou seu barraco, sua cama estava sem os pés e ficou inutilizada e então consultei uns amigos pra ver quem poderia fazer uma doação.
De novo aquele medo de me apaixonar e assumir uma garota jovem, mãe de uma criança. É que ela é uma aquariana muito louca, uma bipolar, que intercala bom humor com gestos e sentimentos expansivos e ausência no mundo, como quem passa da bebedeira pra sobriedade ou do torpor do pó cheirado e curtido pra realidade deprimente do horas depois que aquilo passa. O pior é que ela quis me enquadrar. Sim, o maior motivo pra me afastar ocorreu depois que ela insistiu pra que eu frequentasse com ela, todos os domingos, a Igreja Evangélica Abominação À Vida Torta.

(B. B. Palermo)

sábado, 15 de setembro de 2018

Bárbara, meu amor



Bárbara, meu amor, eu não me importo que você goste de música sertaneja, nem me importo que você devore, num apetite absurdo, os lanches de mamãe.
Quando você vem do trabalho, quando você desce do carro, quando você atravessa a rua e vem pra mim, dispara meu coração. Mas você não vem pra mim, você vai pro fundo do bar e dá Oi, Benção mamãe, benção papai.
Eu peço outra cerveja, caneta e papel humilhados, apenas meus olhos se alegram.
Bárbara, você dá Oi, tudo bem?, como se quisesse me respeitar, mas sei que você vive me zoando.
Você anda distraída pelo bar. O canto do teu olho me observa... Não, não, não, isso é fruto da minha imaginação.
Você é sereia demais na praia que curto. Teu abraço é aeroporto pra Jumbo, e eu não passo de um vacilão.
Bárbara, posso te ensinar de tudo. Esportes, estética, filosofia e economia, mas não inflaciones meu coração.
Meu amor, eu não me importo que você não me queira. Eu só preciso te ver pra saber que você está bem.

(B. B. Palermo)

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

Saco de pancadas



Preso a labirintos surreais, estou embriagado de ilusões.
Uma parte de mim é estatística, outra parte é mitologia.
Não me conformo, pois sinto nos ossos que a estatística, raio-x, atravessa meus órgãos feito ultrassom.
Algo resiste, não quantificável, um sensível bebedor.
As pesquisas conhecem uma fatia de mim, o rosto da vitrine, outdoors nas esquinas.
Os números me chamam pra dançar, mas os ritmos estonteiam. Dá vontade de vomitar.
No embalo da dança, socos bem direcionados me embretam, jabs de esquerda e de direita entram direto, golpes na linha da cintura e supercílios e rins mutilados.
Lutador vencido, aqui estou, saco de pancadas, jogado aos leões.

(B. B. Palermo)

terça-feira, 11 de setembro de 2018

Animalzinho assustado



Arredio, lembro que olhava para todos os lados, mas não sabia pra onde ir. Um animalzinho cercado por predadores. De sua aldeia distante, meu corpo berrava, enviava sinais, cãibras nas pernas, dedos trêmulos, suores noturnos, dores de barriga inexplicáveis, coração disparado.
Com o passar do tempo domei medos e deveres. Me afastei do mundo para sobreviver.
Também fui ovelha seguindo ordens, mas aos poucos recusei convites para ser um líder. 
Nas urnas periódicas simpatizo cada vez mais com teclas de brancos e nulos.
Quando crescer saberei o que fazer.

(B. B. Palermo)

domingo, 9 de setembro de 2018

Meus lugares comuns



“Sinto muito, anjo, a perda do teu pet. Mas a vida é feita de perdas e ganhos”. Escrevi-lhe esta mensagem porque sei que ela se diverte com meus lugares comuns.


(Teco, o poeta sonhador)

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

Vai com tudo, James Bond

Não tenhas medo da paixão. Enfrente essas garotas, James Bond.

Tua Sharon Stone te aguarda, num silêncio carinhoso, pra te libertar das fantasias impublicáveis.
Como podes ter medo, se fazes repetidos planos, da vigília da noite ao frescor da manhã?
Pise fundo nas façanhas sentimentais, lubrifica teu coração.
Dizem que o amor vive da falta e da procura, mas sossega quando faz o bem.
Inspira-te nos santos, já que acreditas que devemos mudar o mundo.
Amigo, queres ter muito dinheiro, pagar pelos amores, pra descartá-los depois.
Tens medo do quê?
Pergunte à mamãe, pergunte ao Édipo, pergunte à terapeuta – aquela ninfeta!
Eu sei que ela sempre vai responder:
- É um mistério, é um mistério...

(Teco, o poeta sonhador)

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

Olhar assustado


(Poema Abertura, de Arnaldo Antunes)

Leio poemas de Cacaso. Um susto: batem à porta. Uma criança pede algo para comer. A geladeira, quase vazia, guarda uma maça. Entrego-lhe assustado, protegido atrás da porta entreaberta.
- Só isso? 
Espio Cacaso sobre a mesa. Ele me devolve um olhar assombrado. Também de violência e miséria vive nosso país.
(Poema de Cacaso)

(Teco, o poeta sonhador)

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

Capitu


Um olhar de gata lambida apontou-me a trilha,
mas não me deu pilhas e lanterna, 
apenas quilômetros de subida.
- Tudo você pode, basta me seguir.
Olhei-a no fundo dos olhos, como quem espreme uma laranja,
seu olhar dissimulado me piscou, e o que me veio na hora, foi:
- Grande mentirosa.
Com ar de promessa, ela sussurrou:
- Você é o Superman, eu sou a Jane.
Algo ela disse que sempre evapora,
como dinheiro no bolso e paixões explosivas.
Seja você mesmo – ela disse.
Não se pareça com moleques samocos,
que têm na cabeça um coco sem água.
Não carregue mágoas – ela disse.
Olhou-me, eu guardava remelas no nariz.
- Você é ator, eu sou a atriz.
Você é o cara – ela disse. Venha comigo, não seja cínico – ela disse.
Fitei-a com olhos de paixão voraz, e ela simplesmente desviou o olhar.
Não sou muleta. Não tenho colo. Não há promessas. Não sou mamãe – ela disse.
Ela não quer saber de fantasias.
Nu, pés descalços, retornarei ao lar.
O amor me chama noutro lugar.
O silêncio tudo me dirá.
Silêncio frio e molhando
judiando meu rosto
como esse inverno de agosto.

(Teco, o poeta sonhador)

sábado, 1 de setembro de 2018

Nuvem passageira - Hermes Aquino


Nuvem passageira



Quem sou eu?
Sangue
átomo
matéria
espírito
assovio
roubado pelo vento.
Uma cabeça confusa
com seu olhar embaçado
pelas cores e formas
do lixo que me sufoca.
Sou amigo dos bichos. 
Me espanto com pássaros acasalando, 
com  a música de grilos metálicos.
Acredito em todos os meus sentidos, 
e sinto a presença de Deus nesses jardins abandonados, 
na carcaça da cigarra presa no tronco, no olhar do cão abandonado.
Um dia vou morrer. Por isso quero sentir tudo, aqui e agora.
Sem pensar na recompensa. Se vai ser o fim de tudo, ou um novo recomeço.
Vai, nuvem passageira. Não pense demais. Deixar para amanhã pode ser tarde.

(Teco, o poeta sonhador)

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

A selfie perfeita


Desejo a selfie perfeita, a imagem divina que vai agitar o seu mundo.
Não sei em que lugar gatas exibem seus aparelhos, se estão na balada ou no jardim da praça.
Quero ser capturado por aqueles dedos e sentimentos ágeis.
Quero ter para mim seu tempo sagrado.
Quero amansar sua obsessão pelas fofocas das redes sociais.
Minha performance nesse palco precisa abrir as cortinas de suas varandas.
Mas, confortavelmente sentadas, elas passeiam por outras nuvens virtuais.
Perco meu tempo. Desperdiço minha energia com a imagem que quero mostrar para os outros. Outros fazem o mesmo. Todos fazem o mesmo cálculo, todos decoram a mesma canção.
Admitamos. Vivemos um desfile de egos. E ninguém liga para ninguém. Pelo menos até aqueles dias de insônia que amanhecem sombrios.

(Teco, o poeta sonhador)

sábado, 25 de agosto de 2018

Tudo sempre igual

Abro o jornal, fico sem graça com a coluna policial. Tudo sempre igual. Muita informação, tragédias, dilemas, nenhuma crônica ou poema.

Jornal não educa para a sensibilidade. Para vender, exagera no que ocorre de pior.
Jornal visa ao leitor indiferente, frio, que apenas repete fatos parecidos uns com os outros.
Papagaios atualizam para outros papagaios as desgraças do dia.
Sensibilidade nasce com a gente ou se educa? Sensacionalistas, nossos jornais querem vender. Educar exige tempo e esforço, e não dá lucro.
Papagaios alimentam papagaios. Uns, livres para narrar. Outros, engaiolados a escutar.
A coluna policial do jornal vira poema quando eu espremo e verte sangue. 

(Teco, o poeta sonhador)

sexta-feira, 24 de agosto de 2018

No olho da paixão


Quando você aparece entro em curto.
luzes acendem e apagam, como se estivesse
cercado por viaturas policiais,
ou por um festival de vaga-lumes.

Palavras fogem, fogem os gestos,
basta experimentar o teu perfume.

Não encontro motivos pra resistir
ao teu sorriso. E isso me enlouquece,
e sofrer assim não compartilho.

Estou ansioso e indeciso.
Eu sei que há tanta coisa no mundo.
Mas é em você, só em você,
que ando preso.

Eis a pergunta que me faço toda manhã:
será que um dia me libertarei do olho da paixão?

(Tiradas do Teco, o poeta sonhador)

quarta-feira, 1 de agosto de 2018

Dança


As bailarinas do box do banheiro
dançam quando passo por lá.
Vivo a dança de amores 
- um toma lá dá cá.
E sempre danço.
(Teco, o poeta sonhador)

sábado, 28 de julho de 2018

Sinto tua falta

Quem vive fazendo arte, vive do excesso e da falta.
Muita chuva e pouco sol acabam em melancolia e nenhuma poesia.
Neste espelho, escutando teu silêncio, perdi o verbo, a paciência e o humor.
Alegres, garrafas e adegas e amigos aguardam para brincar com suas verdades.
Roupas no varal que não secam, folhas em branco que aguardam meus versos.
Quis fotografar e compartilhar com anônimos o eclipse lunar, mas o personagem principal, o sol, não apareceu.
“Pense grande. “Tudo está em tuas mãos. “Você é o centro do mundo”, dizem os gurus. Distribuem uma luz em múltiplas parcelas. Ingênuos, esquecem que a lâmpada precisa acender no interior de cada um.
Quero ser do tamanho do amor que me falta.
Por favor, alguém lembre o sol de te avisar que estou implorando pra você voltar.

(B. B. Palermo)

quarta-feira, 18 de julho de 2018

Várias vidas



Perspectivas (otimistas) de mulheres e homens



“As mulheres são ingênuas, acreditam que o seu homem vai correr atrás delas a vida toda (...). As mulheres cultivam a fantasia de que o verdadeiro amor é capaz de transformar os homens. Quando isso não acontece, e isso nunca acontece, elas perdem o orgulho e viram esses farrapos que a gente vê por aí” (Fernanda Torres. Fim).

“Abano o rabo, lambo a mão, e ela me acusa, dedo em riste. Está sempre pronta pra dar o bote, o conselho, a ameaça mil vezes repetida. Românticas e verdadeiras, até parece, depois de te fisgarem, correm atrás de uns pilantras. Ninguém sabe o que uma mulher quer. Tenho um amigo que sempre repete: ‘Me diz quem tu tá pegando e te direi o que sobrou de ti’. O ingênuo se juntou a uma psiquiatra. Reclama que não consegue respirar, mas não salta fora. Me garante que o poder feminino é ancestral, já está escrito nas narrativas mitológicas. De sua experiência própria, chegou à seguinte conclusão: o objetivo de uma mulher é destruir um homem (B. B. Palermo. Palermices).

quarta-feira, 11 de julho de 2018

A moral da deusa



A deusa de gesso daquele jardim, vestida de um jeitinho indecente, sexualmente impossível, diverte-se do meu (desa)broxar. Não tenho raiva. Tenho pena. Enquanto sou livre para escolher e tentar de novo, ela passará a vida imóvel, exposta à chuva, ao frio e ao sol.  
                                                     
(B. B. Palermo)

terça-feira, 26 de junho de 2018

On the road - Pé na estrada - Jack Kerouac


Pessoas mesmo são os que estão loucos para viver, loucos para falar, loucos para serem salvos, que querem tudo ao mesmo tempo, aqueles que nunca bocejam e jamais dizem coisas comuns...
***
No bar eu disse: " Porra, cara, sei muito bem que você não me procurou só porque tá a fim de virar escritor e, afinal de contas, o que é que eu posso te dizer sobre isso a não ser que você tem que mergulhar nessa história com a mesma energia com que um viciado se droga?" E ele disse: "Sim, é claro, entendo exatamente o que você quer dizer e também já tinha pensado nesses problemas, mas o caso é que eu realmente tô a fim de concretizar todos meus anseios, só que, como qualquer outra realização íntima, eles parecem depender, de alguma forma, da dicotomia de Schopenhauer que, por sua vez..." e assim por diante, dessa maneira tão ininteligível para mim quanto para ele.


quarta-feira, 13 de junho de 2018

Sonhos são...


Sonhos são enchentes ou incêndios, compromissos em que chego atrasado, são meus desejos não correspondidos por aqueles pequenos NÃOS cotidianos. Imagens simples, talvez gravadas no inconsciente, desde a infância, como não me deixarem pegar a isca e colocar no anzol, me afastarem dos caniços e outras ferramentas que me dariam imensa satisfação, ainda mais quando grandes peixes e águas turvas e agitadas desfilam diante dos meus olhos e riem da minha impotência.
O final, o despertar, é de espanto, quando não de uma certa tristeza.
Durante o dia eu sei que devo anotar o que sonho e me esforçar para encontrar neles uma lógica, um roteiro, um início e meio e fim.
Ao sonhar corro atrás do que me falta, e a grande quantidade de cenas me envolvem como um indefeso fantoche, jogado pra cá e pra lá em meio ao fluxo do mundo.
Isso tudo tem um lado divertido. Corro até o Google e consulto sites de interpretação dos sonhos. Das cenas que me lembro, ontem sonhei com fogo, água e peixes. É reconfortante rifar algumas explicações que são dadas aos sonhos. Por exemplo, peixe: “Se o peixe estiver vivo, você terá boas notícias, no tocante a melhorias financeiras e à mudança de residência”. Fogo: “Ver: sorte no jogo, tanto maior quanto intenso for o fogo”. (Como o incêndio do meu sonho foi mais ou menos, hoje vou jogar um valor mais ou menos no Bicho, na cabeça e na centena e no milhar). Água: “Limpeza, purificação, corpo e espírito sendo descarregados. Água corrente: todo o mal está sendo levado para longe”.
Bem que tudo isso poderia funcionar, literalmente, em nossa vida, sim, mesmo para um palerma que passa o dia sentado dando milho aos pombos.
E tem um outro lado, agora um pouco mais trágico. Ao tentar ordenar essas imagens todas é importante rir de si mesmo, sentir-se parente de Dom Quixote, um sujeito meio mentecapto, senil e a dois passos do hospício.

(B. B. Palermo)

terça-feira, 12 de junho de 2018

Boate azul


Uma coisa legal das casas noturnas é que, se você tem grana, você pode escolher música boa para ouvir. Pagando, as garotas até se esforçam para entender e curtir aquele som que não é lugar comum. Hoje, um dos lugares comuns é o sertanejo universitário.
Uma música que marcou minhas primeiras incursões em casas noturnas foi “Boate azul”. Caramba, os caras que a compuseram captaram muito bem o sentimento desses solitários amantes se arrastando de madrugada em busca de afeto.
Nas primeiras dores de corno eu literalmente desejava cortar os pulsos. Com o tempo aprendi que a bebida, especialmente a cerveja, me alegra e então os pulsos permanecem preservados. Aprendemos com a idade a ter cautela e paciência e até uma certa resignação, e então a operação de “cortar os pulsos” – aquele impulso de querer partir dessa – não passa de uma metáfora. Mas que isso dói, ah se dói.

(B. B. Palermo)

terça-feira, 5 de junho de 2018

Você é foda, hem?


Encontrei nos fundos de uma estante de casa um livro de poemas da família Galhos. Havia uma dedicatória na primeira página de dona Mire ao meu amigo Hilmo. Ela é filha de uma tradicional família de poetas, em São Luiz Gonzaga, no RS. Essa cidade fica na região das Missões, e tem muita história pra contar, muitos poetas conhecidos no sul do Brasil, sendo um deles o grande poeta e repentista Jayme Caetano Braun.
Depois de ficar viúva, dona Mire foi realizar os sonhos de menina, sair pelo mundo, conhecer lugares e pessoas. Mulher muito sociável, sempre disposta a ajudar os outros, mantém uma casa com várias garotas de programa aqui na minha cidade. Escolhidas e instruídas por dona Mire, elas são inteligentes, bonitas e hiperafetivas com os clientes.
O livro deve ter ficado comigo porque, mais do que meu amigo, gosto de poesia. É composto de poemas de avós, filhos e netos e, no geral, são bons poemas, sendo que a maioria dos componentes já está morta.
Recebi a visita de um desses poetas mortos, dias atrás. Não compreendi o que dizia, falava rápido, temendo que a qualquer momento saísse do ar. Misturava línguas e sotaques, português e francês e espanhol e portunhol. Deu uma aflição, sou um palerma que nunca ligou para outros idiomas. A sensação que tive foi de que me censurava pelo fato de não me envergonhar da vida escrota que levo, um desmemoriado que bebe e solta pum e arrota, que não consegue criar obras culturais que sobrevoem o tempo e o espaço das novas gerações, obras que sirvam de modelo e inspiração.
Creio que ele estabeleceu contato porque compartilhamos o gosto pela arte. Como não me deixava falar, eu admirava aquele terno e bigode e pensava Você é fodão, hem? Foi então que ele apontou pro relógio, gesticulou, acho que entendi aquelas palavras aceleradas, pareciam dizer Você pensa que é foda, hem, meu neguinho? Olha a hora, olha a hora, já é quase meia noite e você ainda não desenvolveu nem um terço de tua obra.
Assim sem mais, deixou-me falando sozinho. Fui até a geladeira, abri outra cerveja e constatei que tem morrido muita gente, inclusive gente conhecida. Bateu uma inveja da família Galhos, família de poetas. Li todo o livro e também a biografia de cada um, imaginei cenas e rostos e bravatas e batalhas.
E quanto à minha família? Minha memória não localizou nenhum poeta ou artista que fosse. Parece que se deram por satisfeitos em deixar para as novas gerações algo mais material, como casas ou terrenos ou apartamentos ou chácaras. Nada de artistas ou anarquistas ou revolucionários. Deve ser por isso que meus bisavós e avós e outros parentes mortos estão calados. Nenhum deles, ainda, veio me visitar.

(B. B. Palermo)

domingo, 3 de junho de 2018

A vida é muito triste



Vejo por aí loucos mansos que às vezes ficam injuriados. Alucinados, tomam o caminho mais torto para distorcer a realidade.
Voltei a rezar porque sei que não há hospícios pra todo mundo.
Voltei a blasfemar porque sei que a vida não está fácil, pão e circo andam em círculos.
Os esgotos não dão conta. Como disse o velho Braga, “essenciais são os esgotos da alma. Nossa pobre alma inesgotável”. Mas, coletivamente, ela está em frangalhos. Crianças gigantes clamam por um pai, mas esse está distante, ocupado com missões intergalácticas.
A vida é muito triste. É o que sempre dizem a cozinheira e o lavador de pratos e o açougueiro e a confeiteira e outros tantos. Há muito tempo fazem o que mandam os senhores. Nunca tiveram uma iluminação, como por exemplo matar e incendiar quem os oprime.
A vida é muito triste. Papai, por que não vens pra nos salvar?

(B. B. Palermo)

sábado, 2 de junho de 2018

Erro, ilusão e delírio - Cláudia Laitano


Diante do que não podemos controlar, uma das respostas mais comuns é a fantasia infantil de que alguém mais forte vai aparecer para nos salvar.

Freud distingue três formas de autoengano. A primeira é a que ele chama de “erro”. Uma pessoa mal-informada, convencida de que a Terra é plana ou de que as vacinas fazem mal para a saúde, está cometendo um erro. Esse tipo de equívoco tem cura, mas exige transfusão imediata de fontes de informação e alguma capacidade de autocrítica.
Já a “ilusão” não é necessariamente um erro, mas implica o forte desejo de acreditar em alguma coisa – mesmo contra todas as evidências em contrário. A donzela que espera encontrar um príncipe (ou vice-versa) com quem será feliz para sempre em doce e alegre harmonia cultiva uma das mais antigas e populares ilusões do mundo. Até pode acontecer, claro, mas amores de contos de fadas não são exatamente a regra na vida real. Também nos iludimos quando imaginamos que alguém (mais forte, mais sábio, mais poderoso) será capaz de resolver nossos problemas por nós. Acontece de vez em quando, é verdade, mas geralmente quando ainda somos crianças e nossos problemas estão ao alcance dos superpoderes de uma boa mãe.
Freud chama de “delírio” aquilo que apresenta uma contradição tão grande com a realidade que se aproxima da alucinação psiquiátrica.
Freud escreveu O Futuro de uma Ilusão, em 1927, movido pelo desejo de demonstrar como o nosso irremediável desamparo, como espécie, pode nos levar a trocar a razão pelo alívio fácil do pensamento mágico. A razão nos diz que: 1) desastres acontecem e 2) a morte é incontornável. Não controlamos o destino e, mesmo que tenhamos a sorte de levar uma vida tranquila e sem grandes atropelos, nunca sabemos como essa história vai terminar. Diante dessa sensação de desamparo e fragilidade frente ao que não podemos controlar, uma das respostas humanas mais comuns é a de recorrer à fantasia infantil de que alguém mais forte vai aparecer para nos proteger e salvar. Para a alquebrada Alemanha da época de Sigmund Freud, a resposta veio logo em seguida, na figura de um ditador que se autoproclamava simplesmente “o líder”.
Tornar-se adulto, ensina Freud, significa aceitar que quase nada que nos aflige seriamente será resolvido de forma simples e sem o concurso do nosso próprio esforço e sacrifício. Nos últimos dias, surgiram muitas vozes sensatas tentando entender as origens políticas e sociais da delirante campanha pela volta do regime militar que ganhou fôlego durante a paralisação dos caminhoneiros. Mas o tempo todo eu só me lembrava de Freud: “O ser humano não pode permanecer eternamente criança, tem de finalmente sair ao encontro da ‘vida hostil’. Podemos chamar a isso de educação para a realidade”.
O Brasil precisa crescer, sim, mas não apenas naquilo que pode ser medido pelo PIB.
(Zero Hora, sábado e domingo de 2 e 3 de junho de 2018)

Original

Aniversário, dois dias reunindo amigos, churrasco, bebida, muitos planos com meu amor, debates sobre o que fazer para salvar a humanidade. ...