O tamanho do sonho - Cíntia Moscovich



Num famosérrimo salão de beleza da Capital, eu observava um cabeleireiro que arrematava seu trabalho arrepiando com gel o que restara na cabeça de um guri duns nove anos. As laterais tinham sido sumariamente raspadas, apenas uma faixa de cabelo preenchia o espaço da nuca à testa: o corte moicano.


Achei a cena graciosa. Primeiro porque me lembrei da época em que, sem o recurso de gel, spray, musse ou cera, aquele mesmo penteado era moldado na base do sabonete. Lembrei também que o tal moicano tinha representado a mais legítima expressão de marginalidade, coisa de punks, metaleiros e outros undergrounds da vida – nada que combinasse com o salão em que estávamos.


Minha manicure, vendo que eu me interessava pelo corte do menino, esclareceu:


– É o corte Neymar. Todas as crianças querem.


Neymar, todo mundo sabe, é aquele jogador do Santos, meio desbocado e que usa correntão de ouro no pescoço. Encarnação do futebol-arte, muito jovem e, desculpem, muito brega.


Sei, no entanto, que as crianças não estão nem aí e imitam seus ídolos de futebol – até me lembro de uns pobrezinhos usando a infâmia do topete em meia-lua do Ronaldo Fenômeno. Também sei que cada época gera seus próprios ídolos e que eu tenho mais é que respeitar a escolha do tempo em que vivo.


Só uma pergunta: por que aquela criança, por cujo corte a mãe desembolsou uns R$ 50, idolatra um jogador de futebol? Por que, para sermos um pouquinho originais, nossa infância não escolhe outro tipo de paixão? Por que nossos pequenos nivelam seus sonhos aos pés de um moleque?


E se nossa juventude cobiçasse ser grande não só no esporte? Como seria se os pequenos passassem a venerar bons engenheiros, a adorar bons pintores, a se espelhar em bons filósofos, bons atores, bons dançarinos?


E se o ideal dessa gurizada fosse se tornar bom escritor, bom estilista, bom pesquisador, cineasta, músico, será que a gente não evitaria sermos a mixórdia que somos? E se, ao invés de show, déssemos à infância o silêncio da civilidade? E se, ao invés de berros, ensinássemos palavras?


Acompanhando aquele gurizinho do salão de beleza se transformar num punk de mentirinha, senti também uma espécie de desânimo e concluí que o mau gosto prevaleceu e que chegamos ao fim da picada.


Pior: me dei conta de que estamos nisso por nossa incompetência para sonhar, já que a gente é matéria e tamanho de nossos sonhos. Naquela hora, só me ocorreu pedir à manicure o esmalte mais roxo que fosse possível encontrar. Seria minha homenagem à contestação, à criatividade, à invenção e à arte.


Viva o sonho. E viva tudo o que não for ídolos com pés de absoluto e medíocre barro.

Zero Hora, 18 de janeiro de 2011.

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