PROGRESSO


Piááuuíí não era assim.

o progresso chegou

e a pressa nos fez correr

na velocidade do trem.


Piáááuuíííí, piáááuuiííí...

Café com pão, café com pão...


Ninguém imaginou

que um dia

a cidade se entupiria

de carros e de gente...


Do trabalho para casa

de casa para o trabalho

ficava-se horas parado

porque tudo estava

engarrafado.


Aconteceu que alguém pensou assim:

- Por que não diminuir de tamanho

a coisa que me transporta?

E outro pensou:

- Por que não usar minhas pernas em vez de pneus?


E foi assim que alguns deixaram o automóvel em casa

e passaram a correr...

Outros deixaram os automóveis em casa

e passaram a andar de bicicleta...


OMINHOCO



Ominhoco

sarado

fotogênico

e bom de tela

é o garoto

propaganda

das massas

Isabela.

Se você

se amarrou

é porque

elas têm

miolo

furado

ovos

orgânicos

e tempero

extra

tudo

no ponto

certo

e não

demoram

demais

na panela.

Elegantes

massas

Isabela

sorriem

ainda mais

se Ominhoco

está por perto!


PINÓQUIO




Pinóquio desentortou sua vida

com hábeis “mentirinhas”

e entrou pra sua história.

Por todo canto se impõe:

na sua mochila, sobre a mesa

ou no tapete da sala...

e se expõe.


Abrir mão desse amor dói.


Pinóquio é como o velho e bom

Hobin Hood dos marmanjos:

é príncipe e herói!


O CARNEIRINHO - Ferreira Gullar


- E você, Carneirinho,
por que é tão branquinho,

tão engraçadinho
e tão lindo assim?

- É pra todos os meninos
e todas as meninas
gostarem de mim!

IRMÃOS GÊMEOS



Guilherme e Mateus

são irmãos gêmeos.


O primeiro é indeciso

e o outro sabe o que quer.


O primeiro é cauteloso

e o segundo é afobado.


Um é fofoqueiro

(adivinhem qual dos dois!)

o outro não abre a boca

pra não entrar mosca.


O primeiro se apaixona

pela primeira história que encontra.

Abraça o brinquedo mais próximo

e cuida dele como se fosse

seu melhor amigo.


O outro olha e olha

e não se interessa

pelas trapalhadas dos outros

- seu coração é de um monstro??

Como são diferentes esses gêmeos!

Cada qual explora o seu próprio caminho!


BIS



Na escola,

quando ouvimos histórias,

pedimos bis.

Porém, cheios de pressa e dever

adultos torcem o nariz

e trazem caixas de livros sérios

pra iludir nossa sede

crescer depressa e estampar

um diploma na parede.

As professoras reclamam

que perdemos tempo

com música teatro literatura

e dizem que já não é mais

tempo de brincar

(brincar e pedir bis)

mas é tempo do dever.

Agora é preto e branco

o que fora multicor.

A escola anda tão séria

que a gente esqueceu

de pedir bis.




Os tamancos

coloridos

de Ana Laura

são pernas de pau

que passeiam no circo,

ou são asas que querem

alcançar a torre do céu?


Volte aqui, menina

dos tamancos esquisitos!

Leve-me contigo

pra eu ver, lá do alto,

as peripécias do amor!




HISTÓRIA NATURAL


Dizem do elefante

que apesar de ser um gigante

tem modos refinados

e aguda sensibilidade.

Isso para não falar

da memória fenomenal.

Entretanto, a grande verdade

é que o elefante é, sem dúvida,

o perfil mais original

da história natural.




NOITE



A noite me diminui


(Manoel de Barros)


Quando a noite chega

e falta a luz

reviro gavetas

atrás de velas

lanternas e pilhas.


Sou anão

e não consigo viver

heróis e vilões

que ganham a noite.


A chama da vela

espanta os mistérios

- deixo pro sonho delirar

na hora de dormir.


Sei, não estou

crescido o suficiente

para brincar

a travessura da noite.





Não somos o cavalo do mocinho

nem príncipes e tantos outros

personagens de aventura.


Agora damos de cara

com tantas histórias

de contos de fadas

princesas encantadas

lobos e três porquinhos

vovós e chapeuzinhos

maçãs envenenadas

e anõezinhos...


Não vale mais a pena

lutar, dia após dia,

com o dragão que prendeu

a princesa na torre do castelo...


- Não é mesmo? -


Vou brincar com palavras

seja de noite, seja de dia,

e enganar minha fantasia!


DIÁLOGO - Mario Quintana


- Que fazia Deus antes da criação?

- Dormia.

- E depois?

- Continuou a dormir.


- Mas Ele não tem de cuidar do mundo?


- Ele está é sonhando o mundo: está sonhando até nós dois aqui conversando...

- Cruzes! Cala-te!

- Fala mais baixo...


Pra mostrar a todos

minha coragem

vou fazer uma tatuagem

em vez da sina

de ter um buraco de vacina

vou desnudar no braço

uma nova imagem.


Meu pai diz não

e me dá um brinquedo

Mamãe só rosna

e me bota medo

mudei de idéia

ao devorar um pote de geléia

e comer as unhas dos dedos!


MEU PAI

Meu pai tem que usar óculos para colocar a isca no anzol. Mas gosta cada vez mais de pescar.


Meu pai não lê as bulas de remédio, mas sabe de cor a maneira mais saudável de se alimentar.


Meu pai tem olhos perfeitos para enxergar longe, mas às vezes tropeça e se confunde com o que está debaixo do seu nariz.


Meu pai já teve mais paciência com seus amigos, mas continua a abrir as portas para eles.


Meu pai vive chamando a atenção sobre o certo e o errado, mas agora, acho que de tanto ler os jornais, silencia e aceita as coisas erradas dos governantes, que ele ajudou a escolher.


Fico orgulhoso do esforço de meu pai, embora muitas vezes ele se preocupa demais com o futuro, e esquece das coisas do presente.


Meu pai é meio distraído, ou finge não perceber tanta coisa que se passa comigo. Finge, sim! Porém, ator de tantas promessas e trapalhadas, meu pai é o melhor pai do mundo!


Ah, ia me esquecendo: mesmo distraído pra tantas coisas, meu pai nunca deixou de sonhar!


POETANDO - Flávia Menegaz



PAIXÃO

Não me lembro bem do dia em que me apaixonei pelo Aurélio.

Não sei se procurava pelo Antônimo, pelo Sinônimo, ou seria a Ortografia...
Ou será que, simplesmente, eu passava distraída?

Só sei que ele é mesmo estupendo! Ou melhor, esfuziante!
Às vezes é esdrúxulo, prolixo e até intrincado...
mas, quem é perfeito?

E mesmo sabendo que no arcóseo
há uma quantidade significante de feldspato,
eu não me importo.
Gostoso mesmo é esburgar as palavras!

MANDALIQUES - Tatiana Belinky



Limerick, em inglês, é o nome de um poema bem-humorado, feito de cinco versos. Os dois primeiros versos rimam com o último, enquanto o terceiro e quarto versos, mais curtos, rimam entre si. Um dos grandes expoentes nessa arte foi o inglês Edward Lear (1812-1888), mas quem fez com que o limerick se tornasse limerique mesmo, em português, foi Tatiana Belinky.


Uma das personalidades literárias mais conhecidas no Brasil, Tatiana Belinky nasceu em 1919, na Rússia, e chegou ao nosso país com dez anos de idade. Além de traduzir clássicos como Tolstoi e Tchekhov, criou e adaptou para a televisão inúmeras obras de literatura, dentre as quais se destaca a série O Sítio do Pica-pau Amarelo. É autora de mais de cem livros.


Sou um infeliz baderneiro.

Só quero fugir bem ligeiro:

Me mandam pra Marte

Ou pra qualquer parte

- Não sei para onde ir primeiro!



Comigo até a dona Marta

Brigou:- Eu de ti já estou farta!

Me deixa em paz

E suma, rapaz:

- Vai para o raio que o parta!


Eu acho o Janjão meio insano!

Com suas orelhas de abano

Em cima da hora

Mandou-me embora

Urrando: - Vai carregar piano!


As coisas comigo são chatas:

Até três simpáticas gatas

Mostraram-se bravas.

Mandaram-me às favas:

- Babaca! Vai plantar batatas!


Não sei se eu fico ou se chispo,

Não sei se me visto ou me dispo,

Quando o delegado,

Um tanto entediado,

Me diz: - Vai se queixar pro bispo!


Só espero um dia que chegue

Que eu possa montar no meu jegue

E todos aqueles

Mandões, todos eles,

Mandar: - Pro diabo que os carregue!


Clipe