Por que não? - Marcelo Rubens Paiva


Por que você não pega o ônibus que passa na sua rua? Você conhece o itinerário dele? Vá até o ponto final, para ver como é a cidade que ele atravessa diariamente. Volte até o ponto inicial.
Por que você não prepara uma viagem para conhecer a cidade em que seus avós nasceram? E, se der, por que você não os leva?
Por que você não aprende a língua deles, caso sejam imigrantes estrangeiros?
Por que você não vai conhecer aquele parente de quem ouviu muito falar, mas quem nunca viu pessoalmente?
Se você tem empregada, por que não dá um beijo nela, assim que levantar da cama? Por que não aceita aquele convite de conhecer a casa dela? Marque a visita para o próximo domingo. E leve o vinho mais caro que encontrar.
Por que você não abraça o seu porteiro e combina de beber uma cerveja  depois do expediente com ele?
Por que não vai conhecer a casa das máquinas do seu prédio com o zelador?
Por que não abre um champanhe no teto do prédio, com ele? Veem o sol se pôr.
Se você mora em casa, por que não pergunta para o vigia da sua rua onde ele nasceu, como foi a sua infância, se é casado e tem filhos? Por que não o convida para jantar antes do serviço? Cozinhe pra ele. Como se cozinhasse para o rei.
Por que você não liga agora para os seus pais e não diz o quanto os ama?
Por que não vai hoje à noite comer uma pizza com eles e folhear álbuns de infância, reler cartas, ouvir histórias?
Por que você não abre o armário do seu pai e olha roupa por roupa, gaveta por gaveta, como ele se veste atualmente?
Por que você não dorme na antiga caminha em que dormia?
Por que você não faz as pazes com os seus irmãos? Convide todos para irem ao circo. Pague pipoca para eles. Por que não vão todos depois aos bastidores conversar com os trapezistas?
Por que você não paga pipoca para todas as criança do berçário vizinho, que fazem uma algazarra incrível na hora do recreio? Por que você não aproveita e brinca com elas?
Por que você não pode ou não quer?
Por que você não visita a sua escola primária?
Ande pelos corredores e tente reconhecer alguns professores. Por que você não se senta no banco escolar de onde assistia as aulas? Por que você não procura na biblioteca o seu nome nas fichas de livros que leu no colegial?
Peça o mesmo sanduíche que comia na lanchonete da escola. Por que não aproveita e paga para todos os alunos presentes uma rodada de milk-shake?
Lembra o quanto você era duro e de como era caro tomar um?
Por que você não liga já para a sua primeira namorada ou namorado e marca um café? Marca para um sábado qualquer.
Por que você não liga para a segunda namorada ou namorado e relembra todas as besteiras que fizeram, os apelidinhos que se deram, os presentes que trocaram?
Por que você não escreve uma carta?
Por que você não compra selos e posta a carta numa caixa de correio que resiste ao tempo?
Você sabe onde tem uma caixa de correio perto?
Por que você não escreve uma carta para antigos namorados ou namoradas relembrando todas as coisas boas que vocês viveram?
Por que você não escreve uma carta para você mesmo, contando todas as besteiras que fez na vida, listando os arrependimentos?
Coloque num envelope selado, enfie na caixa de correio mais próxima.
Por que você não começa hoje a ler o livro que sempre teve vontade, mas que nunca teve tempo?
E por que não decora a letra daquela música que ama?
Por que não aproveita e decora o número do seu cartão de crédito novo?
Por que você não vai a uma praça rolar na grama?
O que o impede de subir na gangorra ou balanço?
E numa árvore?
Siga as formigas.
Escute abelhas.
Reparou que um adulto só volta a ser criança na velhice?
Por que é tão difícil quebrar os hábitos, fugir do padrão, deixar o óbvio de lado? Por que ignorar o incomum?
E, o pior de tudo, por que a rotina nos é fundamental?
Por que você não poda as árvores da sua quadra, por que não planta flores nos canteiros da sua calçada, por que não adota um gato?
Por que você não passa o dia na janela, observando o movimento e a rotina dos vizinhos?
Falta de tempo?
De interesse?
Por que uma criança sempre ri?
Por que não arrumar os livros em gênero, os discos em ordem alfabética, as roupas por estilo? Por que não doar agora aqueles livros, discos e roupas de que não gosta? Por que não passar o dia desenhando? Por que não desenhar na parede da sala? E que tal comer um tomate inteiro, como se fosse uma maçã? Ou sucrilhos, grão por grão? Lamba o prato. Enfie o dedo no bolo. Use a colher do açucareiro, para dispersar o açúcar no café.
Vá ao estádio de futebol e se senta na arquibancada com a torcida rival.
Torça, um dia apenas, para um time que nunca imaginou que existisse.
O improvável é tão impossível assim?
Durma olhando para as estrelas, coma sem usar os talheres, corra para ver os cavalos acordarem, converse com os moradores de rua do bairro, entre no metrô de costas, cante alto uma música no vagão, vá à varanda mais próxima e uive com os cachorros na madrugada.
Por que o diferente amedronta?
Vá ao aeroporto ver avião subir.
Conte quantas nuvens tem agora no céu. Tente desvendar qual animal elas lembram?
Abra os braços, respire fundo, feche os olhos, sinta no rosto a umidade da brisa, escute o vento, a cidade viva.
Diz: “Como é bom tudo isso…”
Agora repete.
Por que não ser piegas?
Do livro Crônicas para ler na escola.

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