O milho nosso de cada dia


Naquele bar, escondidinho, caneta e bloco de papel a postos, um garimpeiro sonhador acredita na possibilidade de encontrar uma joia preciosa.

Escrever embriagado é divertido. No momento que a coisa vem, você fica todo faceiro e até se pergunta: “Como não pensei nisso antes?”. O diabo é no dia seguinte. Dar-se conta de que as espigas de milho que você roubou daquela lavoura na beira da estrada ainda não tinham formado o grão.

(B. B. Palermo)

Olho mágico

Vou te dizer, meu amor, meu olho tem o tamanho, o glamour e a imponência do telescópio Hubble.
Muito distante ele vê, e lança luz sobre vales montanhas rochedos do teu corpo esfinge.
Não sou reto e objetivo como o Hubble, em sua precisão eletrônica. Meu olho é mágico, te garanto meu amor. Por isso você persegue, com fotos bem filtradas no facebook, este olho arregalado que te devora.
Meu olho vê correndo por fora, como se atravessasse qualquer obstáculo.
Ele vai no olho do furacão.
Fez um pós com as águias, para distinguir teu perfil a centenas de clicadas.
Não sou frio e calculista. Passo longe das meia dúzia de operações da calculadora.
Não me deixo domar pela eloquência dos programas de computador.
Sim, baby, sou romântico, desenhei tuas pegadas num livro, para que tua beleza, ora efêmera, não evapore por aí, ao contrário, quero que seja adorada e compartilhada por um santuário de fãs.


(B. B. Palermo)

Perigos da noite


Quando chego, tarde da noite, procuro minha gata, como se ela estivesse disponível. Esqueci que ela mora fora, vulnerável aos perigos desse mundo. Eu sei, eu sei, o problema sou eu, fe-li-na-men-te exposto aos convites da solidão.
(B. B. Palermo)

Eu sempre quis ser youtuber


Convenceram-me de que poderia ser youtuber. Isso, gravar minhas histórias e postar num canal, na internet, ter centenas de milhares de visualizações e, é claro, algum dindim na minha conta. Dei sorte de conhecer o Max, um fortão de trinta e poucos anos, totalmente maluco, mas com uma voz grave incrível.
A primeira gravação foi no meu celular, em minha casa. Adivinha quem apareceu nesse dia: a Dolly. E estava a mil por hora. Ela circulava, do banheiro pra sala, da sala pro quarto, do quarto pra garagem, da garagem pro pátio, impaciente. Queria duas coisas: que a ajudasse a vender um sofá que ganhara da mãe e que a “ajudasse” a fazer um trabalho sobre Machado de Assis, para o seu Pós.
Caralho, pensei, a crise tá pegando. Os classificados estão bombando, todo mundo vendendo um monte de tralha que acumulou nos últimos anos por causa do crédito fácil e da ilusão de que não se tinha limites para consumir. 
Quanto ao sofá, fiz uma piada e me arrependi imediatamente. Falei: Sim, mas o plantador de soja, Aquele, não liberou mais a mesada? Ela me encarou, aqueles olhos chispando, mas não disse nada.
À medida que não lhe dei atenção, ela foi se metamorfoseando, ainda mais depois que Max serviu-lhe um drink. Ficou alguns minutos no banheiro e saiu de lá exibindo um biquinizinho. Daí a pouco foi pro pátio, pegou uma mangueira na garagem e apoiou num galho do abacateiro e ficou debaixo daquele jato, cantarolando Pitty, num calor de uns quarenta graus.
Adoro essa sua cara de sono / E o timbre da sua voz / Que fica me dizendo coisas tão malucas / E que quase me mata de rir / Quando tenta me convencer / Que eu só fiquei aqui / Porque nós dois somos iguais.
Pensei: Onde a cretina quer chegar? Muitas vezes estive solitário, liguei pra ela e ela deu a mínima. Hoje, quando me ligou, disse-lhe que ia gravar com o Max, e por isso não poderia ajudá-la a vender o sofá e fazer o trabalho da faculdade. Bastou dizer isso e ela vem correndo e, o que é mais estranho, vestiu esse biquíni e fica se engraçando pra nós dois. Puta que pariu, quem consegue desvendar o que essas minas querem?
Na sala, mostrava ao Max quais palavras da história gostaria que ele enfatizasse na sua interpretação. Ele levantava, espiava a cena debaixo do abacateiro, e não me restava outra coisa senão implorar “Foco, Max, foco”.
Pressenti que, para ele, a gravação poderia ficar pra outro dia, e que o único sentido daquele momento seria contemplar a bunda da guria. Pensei: Não vou embarcar na sacanagem de sexo a três, se a Devassa tá a fim, eu salto fora.
Dolly no biquinizinho, a água escorrendo pelas costas e bunda, na sala o ventilador não dava conta do ar morno, e Max cada vez mais excitado, pensei O que fazer, o que fazer, meu Deus?
- Cara, a tatuagem nas nádegas é demais!
- Volta aqui, filho da puta, vamos gravar essa bosta.
- Cara, aquele biquinizinho é demais!
- Vem cá, te concentra, maluco! Grande coisa... tatuagem nas nádegas... Grande coisa... biquinizinho...

Tomei uma decisão. Convidá-los pra irmos até o bar do Geni. Duas horas depois meu time disputaria a semifinal da Libertadores contra um time do Equador. O jogo era em Guayaquil.
Max e Dolly sentaram juntinhos, ficaram de gracinhas e segredinhos e eu fazia de conta que não estava nem aí. O cretino pode carregar essa putinha pra onde quiser, pensei. Hoje só quero saber de futebol e encher a cara.
Os dois ali num tititi e eu juro que não tive ciúmes. Até fazia um brinde a nós três, uns desocupados e, incrível, com alguns trocados no bolso.
Mesmo alto e fazendo de conta que não estava nem aí, sabia que no dia seguinte me remoeria.
Ouvia a garota sussurrar pro Max:
- Ele só me chama quando tá a fim de trepar.
Começou o jogo e logo meu time levou um a zero.
Ela aumentou o tom:
- É um egoísta. Não dá a mínima pro sentimento de uma princesa.
Meu time não acertava dois passes e não saía detrás.
- Ele fica se achando, mas te garanto, é igualzinho a todo mundo. Óbvio demais.
Caralho, tivemos um jogador expulso. Matutei: Ela deixa de ser óbvia quando bebe: fode com o primeiro que aparece.
Meu time numa retranca danada, quase levou dois a zero.
- Eu já saquei qual é a desse bêbado escroto: tem medo de gostar de alguém e sofrer.
Nos acréscimos, meu time quase levou o segundo gol. Desandei. Por mim, esses dois cretinos podem desfilar de biquinizinho por aí. Vou pra casa, pego o carro e me escondo na penumbra de um barzinho qualquer do outro lado da cidade.

Quando Max me ligou no início da tarde do dia seguinte, naquele tom de voz melancólico e cheio de culpas, eu já sabia como a noite deles havia terminado.

(B. B. Palermo)

Frases de John Fante


“Meu conselho para todos os jovens escritores é bastante simples. Eu lhes recomendaria que nunca evitassem uma nova experiência. Eu os instaria a viver a vida em estado bruto, a atracar-se com ela bravamente, a golpeá-la com os punhos nus.” 

“Os livros dizem não, a noite grita sim. Tenho vinte anos, cheguei à idade da razão, vou caminhar pelas ruas lá embaixo, procurando uma mulher.” 

Breve apanhado dos últimos dias - Claudia Tajes


A maioria das pessoas - as que eu conheço, pelo menos - critica os concursos de beleza. Coisa antiga, perda de tempo, exposição da figura da mulher e etc-etc-etc. O engraçado é que quase todo mundo vê. E todo mundo julga. A miss tal é feia. A miss fulana é gorda. O canino da miss beltrana é torto. Eu, se tivesse o culote da miss sicrana, jamais desfilaria de maiô.
Só sei que tomei um susto ao abrir o computador após um mísero dia sem internet e sem contato com a civilização, embora “civilização” não seja bem a palavra para as reações diante da escolha da piauiense Monalysa para Miss Brasil 2017. Diferentes pessoas do mesmo tipo – eu chamaria de cretinas – ofendiam a guria simplesmente por ela ser negra. Na semana em que se viu a aberração de Charlottesville a favor da “supremacia branca”, idiotas nativos envergonham a gente ofendendo uma menina de 18 anos por causa da pele dela. Mas vão carpir um lote, como se diz nessas horas.
Teve também o caso do músico denunciado por gravar uma canção feminista três anos depois de um relacionamento de traições, violências e abusos, segundo o relato da ex-namorada inteligente, bonita, dona do próprio nariz e do próprio corpo e que, para azar dele, escreve muito bem. Como resultado, lincharam o rapaz. O clamor foi tanto que a banda suspendeu as atividades – como fã, lamento muito. Logo se criou uma página para denunciar músicos por atitudes machistas com suas namoradas e sobrou geral, como já havia sobrado para o Chico Buarque pouco antes. Crime do Chico? Parte de uma letra: “quando teu coração suplicar/ou quando teu capricho exigir/largo mulher e filhos e de joelhos vou te seguir”.
Alguém ainda precisa analisar o poder destruidor do textão no Facebook. É pior que napalm, não há o que resista a ele. O rapaz recebeu uma dose de ódio digna do goleiro Bruno. Que tempos esses em que o tribunal se forma em minutos e as condenações à fogueira são sumárias. Pensando bem, já rolou algo parecido em outra época. O nome era Inquisição.
Sempre que a intimidade de alguém ganha o mundo, brilha uma das tantas grandes frases de Nelson Rodrigues: se cada um soubesse o que o outro faz dentro de quatro paredes, ninguém se cumprimentava.
A semana ainda nos brindou com mais uma pérola do cara-de-pau mor do país, e olha que não é fácil escolher um entre tantos, o excelentíssimo Gilmar Mendes. Nosso juiz, padrinho de casamento da filha de um preso que há décadas faz o que quer com o transporte público do Rio de Janeiro, assinou o habeas corpus do empresário e mandou dizer que não se sentia impedido de julgar porque “o casamento não durou nem seis meses”. Se eu já não tivesse usado a expressão “vai carpir um lote” no parágrafo lá de cima, usaria agora.
Depois de tudo isso, ainda chega a notícia da professora espancada por um aluno de 15 anos em Santa Catarina. A frase dela sobre tamanho absurdo é quase uma legenda para tudo o que se vê a cada semana, a cada dia, a cada instante nesse mundo: “Estou dilacerada, mas me recupero”. E se não for assim, como é que a gente continua?
Fonte http://revistadonna.clicrbs.com.br/coluna/claudia-tajes-breve-apanhado-dos-ultimos-dias/

Literatura para jornalistas


Literatura para jornalistas: Américo Piovesan fala sobre seu processo criativo

A turma de Oficina de Leitura e Produção de Texto recebeu a visita do escritor Américo Piovesan. Em conversa com os alunos do curso de Jornalismo, Américo trouxe exemplos de sua produção, comentou seu processo de criação e falou sobre o lugar da literatura na contemporaneidade. “A literatura permite dizer o que está oculto”, resume o escritor.
A palestra teve por objetivo aproximar a tradição do jornalismo e a da literatura, a fim de inspirar os acadêmicos da disciplina, voltada para a produção de texto e o incremento do repertório cultural dos futuros jornalistas.
O professor Marcio Granez, responsável pela disciplina, avalia a atividade: “Tivemos a oportunidade de trocar experiências com um escritor que se destaca no cenário atual da produção literária em nosso município. Sem dúvida, foi um grande diferencial para aprofundar a formação dos nossos alunos. Afinal, as narrativas jornalísticas são antes de tudo histórias e como tais devem ser bem contadas para cativar o público”.

Fonte: https://usinacomunica.wordpress.com/2017/06/21/literatura-para-jornalistas-americo-piovesan-fala-sobre-seu-processo-criativo/

Os espíritos - Mário Cezar Goularte Duarte

Estavam ali os dois conversando sobre assuntos diversos, quando de repente - pum! - o Espírito de Conciliação acertou o estômago do Espírito Esportivo. Afogueado e tremendo, este levantou-se com uma pedra na mão e...
Eu vi. Por todos os espíritos, eu vi. Mas não sabia, então, que eram eles. Eu andava por toda a parte à procura desses entes abstratos - os dois aí citados e mais a porção que, dizem, habitam nosso universo interior. Eu os via nos jornais e revistas, falavam seus nomes no rádio, até na televisão apareciam. Mas espírito mesmo, em carne e osso, eu não encontrava. Ah sim, encontrei muitos, mas só aquelas ovelhas negras de que ninguém fala e que, sim senhor, são tantas e tanto fazem que me admirava não serem notícia.
Assim que ao invés do Espírito de Camaradagem eu via o Espírito de porco, esperto e cínico, caçoando das pessoas, agindo nas repartições públicas. E o Espírito de Luta, tão famoso por sua coragem e persistência, decerto tinha se acovardado, cedendo o lugar para o Espírito de Briga, mal-humorado e agressivo. Via ainda o Espírito Derrotista, cabisbaixo pelas ruas, quando falavam tanto no Espírito Combativo.
E tanto vi desses espíritos que nós - eu e meu Espírito de Complacência - quase desistimos daquela busca inútil. Mas continuei, cheio de fé, achando-me eu mesmo um sujeito bastante espirituoso.
Aí chegou o Natal. É agora, pensei, esse não me escapa - o Espírito Natalino. Sempre ouvira dizer de sua presença nessa época, tão puro e comunicativo, contagiando as pessoas, os velhos e moços, os honestos e os ladrões e, dizem, até os que por força da profissão não têm espírito nenhum: os censores.
Pus-me nas ruas. Olhava, ávido, o rosto das pessoas. Buscava neles um sinal, um sinalzinho, um espiritozinho qualquer. Mas eles só olhavam as vitrinas. E enquanto nestas distinguia claramente o Espírito de Venda (que frases! que ofertas!), nas pessoas notava apenas um medíocre Espírito de Compra.
Onde, afinal, o Espírito Natalino? Tão falado em anúncios comerciais, cantado e decantado em jingles - seria uma invenção da Propaganda e de seu Espírito Criador?
Foi um amigo que o apontou um dia para mim. Mas, Santo Deus, como foi difícil reconhecê-lo atrás de todos aqueles pacotes! desavisadamente eu o tomaria, sem dúvida, pelo desprezível Espírito de Consumo, que aliás estava por toda a parte. Jamais desvendaria naqueles embrulhos ambulantes um mínimo de espírito sequer, muito menos o inteligente Espírito Natalino.
Então percebi que os espíritos que eu buscava continuavam por aí, levando a mesma vida de sempre, apenas um pouco diferentes - ou para encontrá-los me faltava o necessário estado de espírito.
Por isso, de certo hoje só tenho a dúvida de Machado de Assis: mudei eu ou os espíritos é que andam irreconhecíveis?
(Crônica publicada em 1978)

Às vezes com quem amo - Walt Whitman


Às vezes com quem amo fico cheio de raiva,
por medo de estar dando amor não retribuído;
agora penso porém que não há amor sem retribuição,
a paga é certa de uma forma ou outra.

(Amei certa pessoa ardentemente
e meu amor não foi retribuído,
mas desse alguém eu tirei com que escrever
estes cantos.)

 

                                        (tradução de Geir Campos)

Jacaré letrado - Sérgio Capparelli



Sobre o amor - Paulo Leminski


   Transar bem todas as ondas
a Papai do Céu pertence,
   fazer as luas redondas
ou me nascer paranaense.
   A nós, gente, só foi dada
essa maldita capacidade,
   transformar amor em nada.

***
   o amor, esse sufoco,
agora há pouco era muito,
   agora, apenas um sopro

   ah, troço de louco,
corações trocando rosas,
   e socos

EIROS - Luis Fernando Verissimo


   "A leitora Elza Marques Martins me escreve uma carta divertida estranhando que 'brasileiro' seja o único adjetivo pátrio terminado em 'eiro', que segundo ela, é um sufixo pouco nobre. Existem suecos, ingleses e brasileiros, como existem médicos, terapeutas e curandeiros. As profissões de lixeiro e coveiro e carcereiro podem ser respeitáveis, mas o 'eiro' é sinal de que elas não tem status. É a diferença entre músico e musicista e roqueirotimbaleiro ou seresteiro. Há o importador e o muambeiro. 'Se você começou como padeiroaçougueiro ou carvoeiro' – escreve Elza – 'as chances são mínimas de acabar como advogado, empresário, grande investidor ou latinfundiário, a não ser que se dê ao trabalho político antes'. Aliás, há políticos e politiqueiros. Continua Elza: 'Eu nunca vou chegar a colunável ou socialite se comecei como faxineira ou copeira. Você pode ser católico, protestante, maometano, budista ou oportunista ou então macumbeiro.' mas a leitora nota que o dono do banco é banqueiro enquanto o funcionário é bancário, o que pode ser um julgamento inconsciente de caráter feito pela língua.
    Elza – que por sinal se considerava harpeira até começar a tocar numa sinfônica e virar harpista – me sugere uma campanha nacional para passarmos a nos chamar de 'brasilinos, brasileses, brasilenses, brasilianos, brasilitanos, brasilitas, brasileus, brasilotos ou brasilões', o que aumentaria muito nossa auto-estima e nossas chances de chegar ao mundo maravilhoso dos americanos, belgas e monegascos."

VERÍSSIMO, Luis Fernando. In: Jornal do Brasil, 7 de out. 1995.

A pastora protestante aponta o dedo


No entardecer me junto às garotas e garotos animados no happy hour. Melancólico, miro a TV do bar.
O pacote de jogos do campeonato brasileiro de futebol anima.
Então esqueço a condição do prisioneiro do casamento ou a solidão desesperada do solteiro.
O bar transborda.
O time perde.
Não sei o futuro destas linhas.
Improvisarei uma bola com a folha amassada, para fazer uma cesta de três pontos, ou guardarei na gaveta para que vire pó.
Se o texto fracassar, culparei o jogo ou a pouca sorte, que deu as costas ao poeta.
Conversas animadas, cigarros, drinks, paqueras, talvez o melhor a fazer seja trocar o poema por um sexo casual no final da noite.
Permutar a sonhada imortalidade por uns gozos embriagados.
Porém, a alma (não quis dizer a "lama"), neste início de agosto, como uma pastora protestante, aponta o dedo.
Parece dizer:
- Abandone a perversidade e busque riqueza e prosperidade! Seja obediente aos anseios de teus parentes e amigos!
Sim.

Não empolga saber que sou mais um dentre milhares na arquibancada, fascinado com a charanga e a torcida organizada, que pede ao time "Raça!" e que xinga a mãe do juiz.

(Palermo Escritor)

Ainda somos selvagens, Doutor?

Aquele jeito de caminhar 
denunciava 
o cuidado com montanhas, 
vales e outras 
regiões erógenas. 
Já fora, ou seria mãe?
Veja bem, Doutor, a dúvida besta
que se apossou de minha pessoa.
A obsessão coletiva por peitos,
bundas, pênis e vaginas,
isso dá mostras do quanto
somos "selvagens",
hem Doutor?
Diga-me,
sem medo de errar:
damos mais importância
pra inteligência
ou pro corpo?
Sei a resposta:
basta verificar a quantidade
de cosméticos que compramos,
se comparados aos livros.


(Palermo Escritor)

Lua


Olho para o céu
e vejo
a libertina
lua luana
linda luna e leve
e lembro de amores
livremente 
libertinos...

Céu inspirador
de latidos
grilos
dores
de corno
e cotovelo.

Como disse o poeta,
"confesso que vivi".
Mas que isso dói,
dói e como dói!

(Palermo escritor)

Planeta Gugus - Ricardo Silvestrin


Em Gugus,

as pessoas nascem velhas

e terminam bebês.

Vão desaprendendo e esquecendo

uma coisa a cada mês.

Cabelos brancos

ficam pretos,

carecas ganham tranças.

Com setenta anos,

todo mundo é criança.

Conversa de pecador


No bar, além da cerveja, rolavam lapsos e atos falhos. Fulano se corrigia: "Não quis dizer 'conversa de pecador', mas sim 'conversa de pescador'. Não quis dizer 'amo eles', mas sim 'amo elas'". Riamos, mas ninguém compreendia... A chave que abre a porta dos seus desejos é só dele. 

(Palermo Escritor)

Eletrocardiograma - Germana Zanettini


– doutor
por que essa dor?
por que tantos ais?

na verdade
teu coração
não bate

pratica
saltos
ornamentais

O menos vendido - Ricardo Silvestrin


Custa muito
pra se fazer um poeta.
Palavra por palavra,
fonema por fonema.
Às vezes passa um século
e nenhum fica pronto.
Enquanto isso,
quem paga as contas,
vai ao supermercado,
compra o sapato das crianças?
Ler seu poema não custa nada.
Um poeta se faz com sacrifício.
É uma afronta à relação custo-benefício.

Lagarteando no sol


O prédio da rua cresce com o servente domando a betoneira. 
Eu aqui, medito, lagarteando no sol. 
Faz bem pra alma ser um inútil!

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Espere baby não desespere - Chacal


Espere baby não desespere
não me venha com propostas tão fora de propósito
não acene com planos mirabolantes mas tão distantes


espere baby não desespere
vamos tomar mais um e falar sobre os mistérios
da lua vaga
dylan na vitrola dedo nas teclas
canto invento enquanto o vento marasma


espere baby não desespere
temos um quarto uma eletrola uma cartola
vamos puxar um coelho um baralho
e um castelo de cartas
vamos viver o tempo esquecido do mago merlin
vamos montar o espelho partido da vida como ela é


espere baby não desespere
a lagoa há de secar
e nós não ficaremos mais a ver navios
e nós não ficaremos mais a roer o fio da vida
e nós não ficaremos mais a temer a asa negra do fim


espere baby não desespere
porque nesse dia soprará o vento da ventura
porque nesse dia chegará a roda da fortuna
porque nesse dia se ouvirá o canto do amor
e meu dedo não mais ferirá o silêncio da noite
com estampidos perdidos

Fome - Knut Hamsun


Knut Hamsun nasceu em 1859, na região central da Noruega, chamada Grundbrandsdalen. Era o quarto filho de Peder Pedersen, um alfaiate – segundo consta – habilidoso. Com apenas três anos de idade, a família se mudou para a cidade de Hamarøi, aproximadamente a cento e cinquenta quilômetros ao norte do Círculo Polar Ártico. Peder fora trabalhar para o cunhado porque este lhe cobrara o dinheiro que pegara emprestado com ele e não tinha como pagar-lhe, a não ser com serviços. Naquela cidade havia uma biblioteca e Knut logo se identificou com os livros. Era uma criança solitária, pois o tio não permitia as brincadeiras com as crianças do lugar. O menino quase não teve educação formal, frequentando esporadicamente a escola. Entretanto, aos dezoito anos, escreveu seu primeiro livro, Den Gaadelfulde (O Enigmático)[1]. O nome que ele usava era Knut Pedersen Hamsund. Já em 1884, publicou um artigo sobre o escritor norte-americano Mark Twain e o seu nome saiu com um erro gráfico, faltando o “d” final em Hamsund. Nosso escritor acolheu o erro e passou a assinar seus trabalhos como Knut Hamsun.
Fome foi a obra que trouxe fama e reconhecimento a Hamsun. Curta, com cento e poucas páginas, a obra é densa, complexa e atormentada. Sentem-se ecos de Dostoiévski. É uma narrativa de fundo psicológico, embora não de análise psicológica de personagens; o autor não extrai de seu próprio texto nenhuma tentativa de explicação, de teorização. Simplesmente, o atormentado protagonista anônimo de Fome tem, às vezes, delírios completos, atitudes inesperadas.

O enredo é mínimo: o protagonista é um miserável, passa fome quase o tempo todo da narrativa; é também um escritor e certa vez consegue obter  o valor de 10 coroas pela publicação de um artigo seu num jornal local. Toda a ação se passa na cidade de Cristiânia, atual Oslo, capital da Noruega. Dadas suas condições financeiras, vive entre a ameaça de um despejo e outro, não tendo o mínimo conforto. Seu maior amigo é o lápis com que escreve. Vive sozinho, é um tipo taciturno.

Com uma trama simples como essa, lógico esperar que alguma outra coisa justifique a obra em questão. Ela também não prima pela criação de muitos personagens; há apenas o protagonista, um homem abordado por ele na rua, uma moça. Os outros são figurantes, pessoas com quem ele lida e dos quais depois se esquece. Não obstante, a profundidade psíquica na construção do miserável faminto poucas vezes foi conseguida por um autor.

O miserável vive um dilema terrível. Padece de fome, mas esta fome é o que impulsiona sua necessidade de escrever. Portanto, se ele saciá-la, não escreverá. E ele tem a atividade como muito importante para ele. Per Johns, em seu texto Hamsun e O Seu Paradoxal Individualismo Escandinavo, nos diz na página 29 do livro Knut Hamsun no Brasil:

“Perambula pelas ruas, praças e parques de Cristiânia, a capital da Noruega antes de se chamar Oslo, sempre à beira da morte por inanição corporal, à procura do que não pode ser encontrado neste mundo imperfeito. E não abre mão de uma estranha generosidade, apesar e além de sua própria fome fisiológica, a que se acrescenta uma insólita honestidade ou respeito pelo outro ao devolver o que não lhe pertence, caído em suas mãos por engano alheio.”

estranhamento, categoria literária tão cara à corrente de crítica literária conhecida por formalistas russos – um comportamento, ideias, sequência que nos levam a um incômodo pelo inusitado, por exemplo, Gregor Samsa ter se transformado em um inseto em A Metamorfose – está realmente presente na obra de Hamsun.

Do blog http://cleubermarques.blogspot.com.br/2016/01/fome-de-knut-hamsun.html
Trecho do livro

Continuei, implacável, a tagarelar, com o penoso sentimento de que a aborrecia, de que nenhuma de minhas palavras atingia o alvo, e apesar de tudo não parava. No fundo, posso perfeitamente ter a alma um tanto delicada, sem por isso ser um louco; há naturezas que se alimentam de bagatelas, e que são destruídas simplesmente por uma palavra dura. Insinuei que eu era uma dessas naturezas. O fato é que a pobreza aguçara em mim certas faculdades, a ponto de causar-me profundos dissabores, sim, posso lhe garantir, profundos dissabores - ai de mim! Por outro lado, isso tem suas vantagens: até me ajuda, em certas situações. O pobre inteligente é um observador bem mais fino que o rico inteligente. O pobre olha em redor, a cada passo; examina, desconfiado, cada palavra das pessoas que vai encontrando; cada passo que ele próprio dá impõe a seu espírito e a seu coração uma tarefa, um dever. Tem ouvido fino, é impressionável, experiente, leva queimaduras na alma...
Falei muito nessas queimaduras de minha alma. Quanto mais falava, porém, tanto mais ela se mostrava inquieta; e torcendo as mãos, repetia, desesperada: "Meu Deus!" Meu Deus!".

Diferentes apostas



Ela quer uma flor, ele quer futebol. Ela adora lingerie, ele adora tirar. Ele aposta na mega, ela aposta no amor.

(Palermo Escritor)

Pessoas sempre surpreendem


Pessoas iguais, sonhos diferentes. Pessoas diferentes, sonhos iguais. Pessoas sempre surpreendem.

***
Mendigo em tua porta. Meus olhos vidrados, teu rosto vermelho. Tiro da cartola uma flor. Somos dois loucos.

(Palermo Escritor)

Quando a banda toca


Delícia, acordar ouvindo a banda tocar. Não sei de onde vem a batida, mas é uma doce extravagância despertar no ritmo da infância!

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Torre de Babel


O facebook é uma torre de babel. Todo mundo canta de galo. Todo mundo bate asas. Vou dar meia-volta e achar o rumo de casa.

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Sorria, você está sendo elogiado


Voltou o sol. Toda nuvem negra passa. Sorria. Você está sendo elogiado.

(Palermo Escritor)

Anta não raciocina


No outro dia, latas vazias sobre a pia. Pobre, joguei na quina. Mordi a língua. Sem grana, anta não raciocina.

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Menos eu, todos são príncipes


Príncipes acasalam bebem brigam gozam engravidam divorciam. Eu faço tratamento dentário. Viver é necessário.

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Sufoco na geral


Levei a mina pra geral do São Luiz. Tinha charanga e amendoim. Ela só quis tomar skol. Logo a mina quis mijar. Eu falei: 
- Mina, não desespere! 
O banheiro era do outro lado da multidão. Mina tomou o rumo da copa. 
Perdi a mina.

... São Luiz campeão! 

Agora a skol tava gelada. 
A mina, com uns carinhas bêbados na copa, nem me viu. 

Viva o São Luiz!!

(Palermo Escritor)

Adeus privacidade


Amores acabam. Lágrimas transbordam rios. Ela bebeu e, no facebook, jogou a privacidade aos leões. Acorda, baby, a cidade tem mil olhos e bocas.

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