Vamos cair fora


“- Teu, lembra do tempo que tu brincava de casinha?”
Beiço e eu sem assunto, e os caras da mesa ao lado falando merda. E a qualidade da música que ouviam no som do carro, então, sem comentários. Mas o pior é que um deles queria rodar um pen drive com mais de mil músicas, que ganhou das putas. Deixando o preconceito de lado, vocês imaginam a qualidade duvidosa do som?
Foi então que o Beiço se levantou:
- To caindo fora, Cadelão! Você vai ficar aí?


(B. B. Palermo)

Não deixe que os outros desejem por você


Com uma autoajuda mequetrefe, os filhos da puta querem racionalizar nosso desejo, como se alguém de fora pudesse, passo a passo, ensinar o que devemos desejar para atingir a felicidade.


(B. B. Palermo)

Pense no lado bom


Você repete o mantra “hoje pensarei positivo”.
Você adota a fé e chuta a ciência.
Vêm os hábitos e deitam e rolam.
Você sofre o revés da abstinência.
Você retoma o mantra e não sabe se ri ou chora.
Você ainda é aquela criança brincando na rua com inocência.


(B. B. Palermo)

Coração de galinha


Às vezes até me sinto culpado por ter um coração de galinha. Mas os amigos admiram, e muitas garotas gostam. Me digam: pra onde vai esse mundo louco?


(B. B. Palermo)

Você é feliz?


Tenho visto um bando de fantasmas fingindo ser o que não são. Preste atenção em boa parte das postagens nas redes sociais e nas músicas que tocam nos sons dos carros: o que mais aparece é a palavra “feliz”. Se você realmente está feliz não é necessário a toda hora invocar o santo nome desta palavra. Você simplesmente sente... a felicidade.


(B. B. Palermo)

Cadelão, você bebe todos os dias?


Seu Armindo, quando me encontra no bar do Geni, que fica no caminho que ele desbrava todos os dias para fazer o jogo do bicho, senta alguns minutos para atualizar a conversa. Não é de falar muito, e é de muito poucos assuntos. O que o anima são conversas sobre jogos: o do bicho e o de futebol.
Logo logo o papo escasseia. Então ele me observa demorado e dispara:
- Cadelão, você bebe todos os dias?
Minhas respostas vão por aí:
- Veja bem, seu Armindo, não é minha vontade, mas todo dia me aparece um motivo para beber. Um dia porque tive uma reunião com meu agente literário e recebi boas notícias. Outro dia porque escrevi durante horas e fiquei satisfeito com o resultado. Na quarta-feira bebo com os amigos que acompanham pela TV o campeonato de futebol. Ontem bebi porque estava melancólico.
Para descontrair nosso papo, é a minha vez de perguntar:
- O senhor joga todos os dias?
Antes dele responder, dou corda pro meu delírio:
- O Senhor faz sexo todos os dias? O Senhor toma banho todos os dias? O Senhor reza todos os dias? O Senhor acorda todos os dias?
Seu Armindo olha-me espantado, perguntando a si mesmo se não sou louco.
Antes dele fugir rumo de casa, encho o saco mais um pouquinho:
- Puta merda, seu Armindo. Só agora saquei que somos uns dependentes fodidos. O Senhor do jogo, eu da bebida, a maioria escrava da tecnologia, das amizades, das esposas e maridos, de remédio, de autoajuda... O senhor sabe que o Google e o Facebook, enfim, toda essa indústria da tecnologia, são uma indústria da depressão e têm como objetivo ganhar muito dinheiro? O Senhor sabe que quanto mais horas as crianças e adolescentes passam nas redes sociais, mais estão propensas ao suicídio?

Em segundos seu Armindo se despede e eu peço ao garçom mais uma cerveja.

(B. B. Palermo)

Sonhei que era discípulo de Bukowski


Sonhei com Bukowski. 
Convidou-me para beber no bar do Geni. 
Pelos seus olhos, notei que o velho poeta andava melancólico.
Sabia que não poderia beber pau a pau com Ele. Sabia também que detestava falar sobre poesia e poetas.
Tinha tanta coisa pra dizer. De que gosto da poesia marginal. Gosto do Leminski, do Cacaso e do Chacal. De que perdi a virgindade depois de ter broxado com uma puta que não tinha tempo para beijos e carícias. De que os tempos não mudaram. Qualquer maluco, depois de tomar alguns porres, vai pros AA e fala pra todo mundo que superou os vícios com a ajuda de Jesus.
Mas permaneci calado. Ao seu lado, devia apenas beber. Se chegasse no bar uma garota de programa embriagada, deixaria pra ele o ato da conquista.
Que sonho. Alguém faz ideia do que significa desfrutar a companhia de um velho escroto famoso?

Assim que acordei tive um puta medo de morrer.

(B. B. Palermo)

Dois ETS orbitando nas nuvens


Caminho pelas ruas e meus olhos fazem zoom de tua imagem, que se perde longe perto aqui ali numa dança de sinais.
Pare olhe escute agora você não pode mas aceite esse jeito melancólico ouça minha voz.
Você, sempre você, dizendo:
- Coragem, Cadelão, faça-te-alma-leve-liberte-se-do-peso-da-solidão.
Você está longe mas algumas vezes se aproxima graças à tecnologia, suas torres-teclados-satélites-monitores.
Na rua, olho para o chão.
A calçada é irregular.
Os passos apressados.
Semblantes são fechados.
Hoje não estou sozinho. E não é o fim do mundo ganhar o teu abraço, mesmo que sejamos ETS e orbitemos em galáxias diferentes.


(B. B. Palermo)

Conselhos da nutricionista


“Precisamos consumir 3 ovos e 2 bananas por dia, chocolate com muito cacau”. Tanto ela falou, que fui jejuar e tomar sol.

(B. B. Palermo)

De onde você fala?


De cima do lustre, debaixo da mesa, com a barriga no tanque.
Você fala rezando da sacada, cultivando hortaliças, sentado na escada, armando a barraca.
Você fala de cima do muro, preparando um drink, descascando chuchu.
Você fala com a cabeça na Europa, com a cabeça nas nuvens, com a cabeça nos livros.
Você fala com um pé na areia, com a ideia no freio, com a mão no queixo.
Depois da ressaca você fala à beira do precipício, pensando em suicídio.
De onde você fala?
À direita de Cristo, à esquerda de Cristo, no lugar do teu ídolo, querendo foder tudo isso.
Você fala de um lugar qualquer, que já não é mais o seu. Enquanto isso a roda do mundo gira e todos fingimos ouvir.


(B. B. Palermo) 

Travados de vez em quando


Se você ficar travada diante de um provável príncipe, saiba que é normal haver uma diferença (e possível decepção) entre o que você sonhou e o que a realidade mostra.
Quanto a você, meu amigo, se o travamento um dia vier, e se você, todo garanhão, inesperadamente falhar, fique tranquilo, saiba que mais cedo ou mais tarde isso ia acontecer.


(B. B. Palermo)

De que lado você está?


Descasco um ovo
Giro como quem gira o globo
E o ovo e o globo e todos perguntam:
- De que lado você está?

É duro descascar esse ovo cotidiano
Fazer escolhas sem causar danos
Aos dedos ao ovo ao globo a todos.
- De que lado você está?

Não sei. Embarco e vou até do outro lado e me encontro no início de novo. Sem casca. Sem verdades. Apenas a memória da viagem.
- de que lado você está?

Descasco um ovo giro como quem gira o globo e o ovo e o globo e eu e todos perguntam...


(B. B. Palermo)

Cada coisa em seu lugar


Às vezes pisca repetidamente o olho, duvida acreditar no que ouve e vê, essa tal linguiça vazia da opinião.
Se ele se acostumar com a neblina que a tudo ofusca, não mais saberá o que é o trigo, o que é o joio, quem é Maria, quem é João.
Antes não ligava pra isso. Nem queria ser chamado de careta. Agora resta-lhe o destino de pensar.
Amigos de saco cheio dos seus por ques estão excitadíssimos com a Black Friday e seus descontos.
Corra, compre o máximo que puder. Hoje, só as coisas distrairão teu olhar.
TV, internet, carros de som, todos chamam:

CADA QUAL COM SUAS COISAS
CADA COISA EM SEU LUGAR
A MELHOR COISA É ESQUECER
ESSA COISA DE PENSAR.


(B. B. Palermo)

Psiu


Diga-me algo que não se perca no tempo. Que não evapore pelo ralo. Não jogue fora o bebê junto com a água do banho.


(B. B. Palermo)

Pare!


Deram-me a culpa do sinal vermelho. Vivo o susto do amarelo. Porém, no sinal verde ninguém sabemos pra onde ir. Então, seguimos o rebanho.


(B. B. Palermo)

Isso não te pertence mais


Devoravam lanches no bar. Quando retornei pela sexta vez do banheiro, a mais séria lançou-me um olhar estendido. Devia ser de curiosidade ou por eu ser um cara meio estranho. Falei pro Beiço:
- Velho, que coisa linda aquele olhar demorado. Devem ser alunas do primeiro ano da universidade.
E o Beiço:
- Isso não te pertence mais, Cadelão. Te acostuma. Você agora está na meia idade.


(B. B. Palermo)

Vai... Procura


Todos buscamos o amor, meu anjo.
Muito busquei. Sorri e também chorei.
Tão jovem, tens um longo caminho a percorrer.
Um dia, como eu, vais perceber: tudo o que nos mantém vivos é a busca...
Não desista dela, a busca. Do contrário, estarás +++++.


(B. B. Palermo)

filhote de passarinho


Essa coisa que nos anima, habita e se apossa, faz acreditar, ter fé e esperança, torna fracos, reféns de ratos, moscas e baratas, românticos e mansos, bárbaros viciados em tecnologia e bomba nuclear.
O ego te convence de que és joia preciosa, mas teu passeio público e virtual é bijuteria, coisa de menos importância, se comparado ao vômito depois da festa, naquele banheiro de dar dó.
Vives da sobra, e o dizes a todo mundo, numa voz amplificada pelas redes virtuais. 
Redes que sintetizam a prisão de cada um, múmia diante do espelho, pose, câmera e selfie, injetando o doce remédio da solidão.
Não desista. És cultuado, carregado nos braços e tornado oráculo. Apresento-vos novos deuses: psiquiatras. Antes do jogo começar diagnosticam teus males, como o gato que se diverte torturando o filhote de pássaro que caiu do ninho.
O doutor não tem tempo nem saco pra te ouvir. Ele só tem remédios.
Sim, meus caros. A boa notícia é que não precisamos aguardar a bomba da Coreia, ou a chegada daquele meteoro. Hoje. Aqui. Agora. Estamos mortos.


(B. B. Palermo)

Máquinas escravizam


Após uma semana de flagelos, reengatei a meditação, mentalizei “luz, ideias e insights”, juntei caneta e papel e me instalei num bar, atento aos murmúrios que vêm de algumas mesas. Chamou-me a atenção um casal batendo papo. A garota, forte, alegre, animada e cabelo roxo, tem o braço direito enfaixado e um moderno celular, que manuseia sem perder o controle das conversas que ela palestra pro cara.
Onde será o jantar dos amigos, ou dos colegas de trabalho, ou de familiares, e diz tantas coisas que eu me distrai desde o início. Eis que aparece um casal e duas crianças, e a garota fica ainda mais expansiva. Estão em dúvida sobre qual lugar seria bom para jantar, assistir pela TV o jogo de futebol e, o que é mais importante, que as crianças possam brincar à vontade. E, assim sem mais, a garota me introduz na roda de conversa.
- Por favor, você não conhece um lugar bem legal pra jantar, e onde as crianças possam brincar?
Como ela havia dito que as crianças eram anjinhos carregados de energia, confinados pela rotina semanal de apartamento, transporte escolar e escola, sugeri um pesque-pague com amplo espaço coberto, muita grama pras crianças correrem e um peixe frito delicioso.
Cada vez mais presto atenção nela. Bebe, fuma, manuseia o celular como se fosse controladora de voo, domina a conversa e, como as antigas tias, pede pras crianças se aproximarem pra tirar umas selfies. Vai até a mesa ao lado e grava no aparelho a canção sertaneja que três bêbados cantam, deixando-os orgulhosos, afinal serão vistos na internet. Alguns minutos depois, como a mãe que promete um mimo se as crianças tomarem banho, diz pros os caras:
- Se vocês cantarem uma boa, eu vou aí e gravo.
Meia hora depois as crianças estão sossegadas, comendo salgadinho e tomando refri.
- Ué... Acabou a bateria?!
Foi confortante prestar-lhe atenção nessa esquina alucinada, em meio a uma variedade de roncos e berros dos motores, o sobe e desce do conta giro, e pessoas indo e vindo e se confundindo com as máquinas, que automóvel e celular hoje escraviza a gente, e isso todo mundo sabe...

(B. B. Palermo)

Poema bárbaro


Bárbara circulando entre as mesas do bar.
Bárbara dizendo “oi!”
Bárbara refletida no meu copo de cerveja.
Bárbara derretendo meus neurônios.
Bárbara chupando meu sangue.
Bárbara embaralhando as ideias.
Eis minha vida no bar 
em suas emoções barbarizantes.

(B. B. Palermo)

No retrovisor

Quando vi a foto que ela postou, a do retrovisor do carro, viajando pra lá e pra cá, eu também viajei. Não consigo ficar indiferente, tudo o que ela posta no facebook me alucina. Sei que deveria dizer pra ela o que sinto, mas é como olhar pelo retrovisor do meu passado, aí fico louco de medo de não dar certo.
E se ela disser sim?
Não tem nada a ver com a infância e a doida da mamãe, sempre presente, cheia de conselhos e preocupações. É como se, todos os dias, ela viesse até meu quarto ver se o bebê não derrubou o cobertor. Ela precisa saber que não sou mais aquela criança que teve pneumonia, que esteve à beira da morte, e quando sobrevivi ela dizia pra todo mundo, com orgulho, Meu menininho venceu, vai ser o mais esperto e bonito e genial etecétera e tal...
Quando penso na garota e naqueles seus olhos estou fugindo de mamãe.
Será que estou?
A foto. É como se estivesse vislumbrando, pelo espelho do carro, o meu passado. Meu pau... (ôpa, não, não quis dizer palavrão... quis dizer meu pai) que não comparece nas lembranças, foi sempre criatura ausente. Mamãe, sempre ela, me vestindo pra ir à escola, preparando o lanche, amarrando meus cadarços que eu encho de nós. Dia desses mergulhei na garrafa e, de madrugada, fui pra internet, notei que ela estava online. Sabe, se bebo e vou pra internet é grande a probabilidade de fazer merda, embora no dia seguinte não lembre de nada.
Ela é que me enfeitiçou e o pior é que fica na ca... fica na dela (eu não quis dizer palavrão, isso não foi um ato falho...)... fica na sua, indiferente, só pra rir do poeta amador. Mas tô curtindo esse jogo pois tenho medo de me revelar... Já pensou ela dizer sim?
Tá louco, namorar com ela exigiria total transformação, levar uma vida regrada, imagina apresentá-la à doida da mamãe, aos meus amigos, enfim, pra todo mundo, o que seria estar acompanhado de uma ninfa lindíssima, me diz?
Sei, sei... Do jeito que tá, tá bom. Ah, eu que não sou louco de arriscar ser mais feliz.


(B. B. Palermo)

Tempestades


Noite de tempestade e aguaceiro etílico. De madrugada, liguei pra ela.
No outro dia o clima piorou:
- Por que me ligou naquela hora?
Sem ideia do fiasco, limitei-me a responder:
- Não me lembro. Bebi todas. Desculpe.
Consciente dos desmandos do meu Cara! mais profundo, do que o filho da puta  apronta quando estou fragilizado, horas depois enviei-lhe uma mensagem:
- Te liguei sem querer... querendo.
Esperava algum eco no seu coração.
Rolou silêncio. Saquei que sou um pobre palerma que precisa de um ombro para chorar.
O panaca amarrou-se em quem não tem ombro pra dar.
Passaram-se três dias e tudo foram águas paradas. Acostumado com intensas cusparadas afetivas, narrei o episódio pra alguns amigos. Os putos riram.
- Pobre poeta escroto.
- Agora ele está pronto pra literatura.
- Em quantidade e coisa que preste.
- Estaremos aguardando...
Assim que a noite cai, respiro fundo. Finalmente meu eu poético imagina ter nocauteado o Cara!, pai dessas neuras.
Por alguns dias tudo estará sob controle. Escreverei um best seller, se depender das velhas promessas.
Óbvio.  Sempre haverá o risco da tempestade voltar.


(B. B. Palermo)

Não sou adaptável


Baby, Sei que poderia me esforçar pra melhorar minha condição. Família estruturada, carro do ano, seguro de vida, plano de saúde, ser bem-vindo nas repartições e tals e tals... Mostrar a todo mundo como sou adaptável, usando a máscara que me derem. Mas pequena, não me faz falta esse tipo de preocupação, mesmo que me chames de doido. Prefiro canalizar a energia mental pra encontrar o meu lugar, pra não ser mais um na multidão.

(B. B. Palermo)

O milho nosso de cada dia


Naquele bar, escondidinho, caneta e bloco de papel a postos, um garimpeiro sonhador acredita na possibilidade de encontrar uma joia preciosa.

Escrever embriagado é divertido. No momento que a coisa vem, você fica todo faceiro e até se pergunta: “Como não pensei nisso antes?”. O diabo é no dia seguinte. Dar-se conta de que as espigas de milho que você roubou daquela lavoura na beira da estrada ainda não tinham formado o grão.

(B. B. Palermo)

Olho mágico

Vou te dizer, meu amor, meu olho tem o tamanho, o glamour e a imponência do telescópio Hubble.
Muito distante ele vê, e lança luz sobre vales montanhas rochedos do teu corpo esfinge.
Não sou reto e objetivo como o Hubble, em sua precisão eletrônica. Meu olho é mágico, te garanto meu amor. Por isso você persegue, com fotos bem filtradas no facebook, este olho arregalado que te devora.
Meu olho vê correndo por fora, como se atravessasse qualquer obstáculo.
Ele vai no olho do furacão.
Fez um pós com as águias, para distinguir teu perfil a centenas de clicadas.
Não sou frio e calculista. Passo longe das meia dúzia de operações da calculadora.
Não me deixo domar pela eloquência dos programas de computador.
Sim, baby, sou romântico, desenhei tuas pegadas num livro, para que tua beleza, ora efêmera, não evapore por aí, ao contrário, quero que seja adorada e compartilhada por um santuário de fãs.


(B. B. Palermo)

Perigos da noite


Quando chego, tarde da noite, procuro minha gata, como se ela estivesse disponível. Esqueci que ela mora fora, vulnerável aos perigos desse mundo. Eu sei, eu sei, o problema sou eu, fe-li-na-men-te exposto aos convites da solidão.
(B. B. Palermo)

Eu sempre quis ser youtuber


Convenceram-me de que poderia ser youtuber. Isso, gravar minhas histórias e postar num canal, na internet, ter centenas de milhares de visualizações e, é claro, algum dindim na minha conta. Dei sorte de conhecer o Max, um fortão de trinta e poucos anos, totalmente maluco, mas com uma voz grave incrível.
A primeira gravação foi no meu celular, em minha casa. Adivinha quem apareceu nesse dia: a Dolly. E estava a mil por hora. Ela circulava, do banheiro pra sala, da sala pro quarto, do quarto pra garagem, da garagem pro pátio, impaciente. Queria duas coisas: que a ajudasse a vender um sofá que ganhara da mãe e que a “ajudasse” a fazer um trabalho sobre Machado de Assis, para o seu Pós.
Caralho, pensei, a crise tá pegando. Os classificados estão bombando, todo mundo vendendo um monte de tralha que acumulou nos últimos anos por causa do crédito fácil e da ilusão de que não se tinha limites para consumir. 
Quanto ao sofá, fiz uma piada e me arrependi imediatamente. Falei: Sim, mas o plantador de soja, Aquele, não liberou mais a mesada? Ela me encarou, aqueles olhos chispando, mas não disse nada.
À medida que não lhe dei atenção, ela foi se metamorfoseando, ainda mais depois que Max serviu-lhe um drink. Ficou alguns minutos no banheiro e saiu de lá exibindo um biquinizinho. Daí a pouco foi pro pátio, pegou uma mangueira na garagem e apoiou num galho do abacateiro e ficou debaixo daquele jato, cantarolando Pitty, num calor de uns quarenta graus.
Adoro essa sua cara de sono / E o timbre da sua voz / Que fica me dizendo coisas tão malucas / E que quase me mata de rir / Quando tenta me convencer / Que eu só fiquei aqui / Porque nós dois somos iguais.
Pensei: Onde a cretina quer chegar? Muitas vezes estive solitário, liguei pra ela e ela deu a mínima. Hoje, quando me ligou, disse-lhe que ia gravar com o Max, e por isso não poderia ajudá-la a vender o sofá e fazer o trabalho da faculdade. Bastou dizer isso e ela vem correndo e, o que é mais estranho, vestiu esse biquíni e fica se engraçando pra nós dois. Puta que pariu, quem consegue desvendar o que essas minas querem?
Na sala, mostrava ao Max quais palavras da história gostaria que ele enfatizasse na sua interpretação. Ele levantava, espiava a cena debaixo do abacateiro, e não me restava outra coisa senão implorar “Foco, Max, foco”.
Pressenti que, para ele, a gravação poderia ficar pra outro dia, e que o único sentido daquele momento seria contemplar a bunda da guria. Pensei: Não vou embarcar na sacanagem de sexo a três, se a Devassa tá a fim, eu salto fora.
Dolly no biquinizinho, a água escorrendo pelas costas e bunda, na sala o ventilador não dava conta do ar morno, e Max cada vez mais excitado, pensei O que fazer, o que fazer, meu Deus?
- Cara, a tatuagem nas nádegas é demais!
- Volta aqui, filho da puta, vamos gravar essa bosta.
- Cara, aquele biquinizinho é demais!
- Vem cá, te concentra, maluco! Grande coisa... tatuagem nas nádegas... Grande coisa... biquinizinho...

Tomei uma decisão. Convidá-los pra irmos até o bar do Geni. Duas horas depois meu time disputaria a semifinal da Libertadores contra um time do Equador. O jogo era em Guayaquil.
Max e Dolly sentaram juntinhos, ficaram de gracinhas e segredinhos e eu fazia de conta que não estava nem aí. O cretino pode carregar essa putinha pra onde quiser, pensei. Hoje só quero saber de futebol e encher a cara.
Os dois ali num tititi e eu juro que não tive ciúmes. Até fazia um brinde a nós três, uns desocupados e, incrível, com alguns trocados no bolso.
Mesmo alto e fazendo de conta que não estava nem aí, sabia que no dia seguinte me remoeria.
Ouvia a garota sussurrar pro Max:
- Ele só me chama quando tá a fim de trepar.
Começou o jogo e logo meu time levou um a zero.
Ela aumentou o tom:
- É um egoísta. Não dá a mínima pro sentimento de uma princesa.
Meu time não acertava dois passes e não saía detrás.
- Ele fica se achando, mas te garanto, é igualzinho a todo mundo. Óbvio demais.
Caralho, tivemos um jogador expulso. Matutei: Ela deixa de ser óbvia quando bebe: fode com o primeiro que aparece.
Meu time numa retranca danada, quase levou dois a zero.
- Eu já saquei qual é a desse bêbado escroto: tem medo de gostar de alguém e sofrer.
Nos acréscimos, meu time quase levou o segundo gol. Desandei. Por mim, esses dois cretinos podem desfilar de biquinizinho por aí. Vou pra casa, pego o carro e me escondo na penumbra de um barzinho qualquer do outro lado da cidade.

Quando Max me ligou no início da tarde do dia seguinte, naquele tom de voz melancólico e cheio de culpas, eu já sabia como a noite deles havia terminado.

(B. B. Palermo)

Frases de John Fante


“Meu conselho para todos os jovens escritores é bastante simples. Eu lhes recomendaria que nunca evitassem uma nova experiência. Eu os instaria a viver a vida em estado bruto, a atracar-se com ela bravamente, a golpeá-la com os punhos nus.” 

“Os livros dizem não, a noite grita sim. Tenho vinte anos, cheguei à idade da razão, vou caminhar pelas ruas lá embaixo, procurando uma mulher.” 

Breve apanhado dos últimos dias - Claudia Tajes


A maioria das pessoas - as que eu conheço, pelo menos - critica os concursos de beleza. Coisa antiga, perda de tempo, exposição da figura da mulher e etc-etc-etc. O engraçado é que quase todo mundo vê. E todo mundo julga. A miss tal é feia. A miss fulana é gorda. O canino da miss beltrana é torto. Eu, se tivesse o culote da miss sicrana, jamais desfilaria de maiô.
Só sei que tomei um susto ao abrir o computador após um mísero dia sem internet e sem contato com a civilização, embora “civilização” não seja bem a palavra para as reações diante da escolha da piauiense Monalysa para Miss Brasil 2017. Diferentes pessoas do mesmo tipo – eu chamaria de cretinas – ofendiam a guria simplesmente por ela ser negra. Na semana em que se viu a aberração de Charlottesville a favor da “supremacia branca”, idiotas nativos envergonham a gente ofendendo uma menina de 18 anos por causa da pele dela. Mas vão carpir um lote, como se diz nessas horas.
Teve também o caso do músico denunciado por gravar uma canção feminista três anos depois de um relacionamento de traições, violências e abusos, segundo o relato da ex-namorada inteligente, bonita, dona do próprio nariz e do próprio corpo e que, para azar dele, escreve muito bem. Como resultado, lincharam o rapaz. O clamor foi tanto que a banda suspendeu as atividades – como fã, lamento muito. Logo se criou uma página para denunciar músicos por atitudes machistas com suas namoradas e sobrou geral, como já havia sobrado para o Chico Buarque pouco antes. Crime do Chico? Parte de uma letra: “quando teu coração suplicar/ou quando teu capricho exigir/largo mulher e filhos e de joelhos vou te seguir”.
Alguém ainda precisa analisar o poder destruidor do textão no Facebook. É pior que napalm, não há o que resista a ele. O rapaz recebeu uma dose de ódio digna do goleiro Bruno. Que tempos esses em que o tribunal se forma em minutos e as condenações à fogueira são sumárias. Pensando bem, já rolou algo parecido em outra época. O nome era Inquisição.
Sempre que a intimidade de alguém ganha o mundo, brilha uma das tantas grandes frases de Nelson Rodrigues: se cada um soubesse o que o outro faz dentro de quatro paredes, ninguém se cumprimentava.
A semana ainda nos brindou com mais uma pérola do cara-de-pau mor do país, e olha que não é fácil escolher um entre tantos, o excelentíssimo Gilmar Mendes. Nosso juiz, padrinho de casamento da filha de um preso que há décadas faz o que quer com o transporte público do Rio de Janeiro, assinou o habeas corpus do empresário e mandou dizer que não se sentia impedido de julgar porque “o casamento não durou nem seis meses”. Se eu já não tivesse usado a expressão “vai carpir um lote” no parágrafo lá de cima, usaria agora.
Depois de tudo isso, ainda chega a notícia da professora espancada por um aluno de 15 anos em Santa Catarina. A frase dela sobre tamanho absurdo é quase uma legenda para tudo o que se vê a cada semana, a cada dia, a cada instante nesse mundo: “Estou dilacerada, mas me recupero”. E se não for assim, como é que a gente continua?
Fonte http://revistadonna.clicrbs.com.br/coluna/claudia-tajes-breve-apanhado-dos-ultimos-dias/

Literatura para jornalistas


Literatura para jornalistas: Américo Piovesan fala sobre seu processo criativo

A turma de Oficina de Leitura e Produção de Texto recebeu a visita do escritor Américo Piovesan. Em conversa com os alunos do curso de Jornalismo, Américo trouxe exemplos de sua produção, comentou seu processo de criação e falou sobre o lugar da literatura na contemporaneidade. “A literatura permite dizer o que está oculto”, resume o escritor.
A palestra teve por objetivo aproximar a tradição do jornalismo e a da literatura, a fim de inspirar os acadêmicos da disciplina, voltada para a produção de texto e o incremento do repertório cultural dos futuros jornalistas.
O professor Marcio Granez, responsável pela disciplina, avalia a atividade: “Tivemos a oportunidade de trocar experiências com um escritor que se destaca no cenário atual da produção literária em nosso município. Sem dúvida, foi um grande diferencial para aprofundar a formação dos nossos alunos. Afinal, as narrativas jornalísticas são antes de tudo histórias e como tais devem ser bem contadas para cativar o público”.

Fonte: https://usinacomunica.wordpress.com/2017/06/21/literatura-para-jornalistas-americo-piovesan-fala-sobre-seu-processo-criativo/

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