Feito à mão - Lygia Bojunga

Eu sempre usei livro pra tudo: pra saber ler, pra altear pé de mesa, pra aprender a usar a imaginação, pra enfeitar sala quarto a casa toda, pra ter companhia dia e noite, pra aprender a escrever, pra sentar em cima, pra rir, pra gostar de pensar, pra ter apoio num papo, pra matar pernilongo, pra travesseiro, pra chorar de emoção, pra firmar prateleira, pra jogar na cabeça do outro na hora da raiva, pra me-abraçar-com, pra banquinho do pé, eu sempre usei livro pra tanta coisa, que a coisa que mais me espanta é ver gente vivendo sem livro.

Do livro, Feito à mão. Editora AGIR, 1999.

A paixão de Lúcia Helena - Raul Drewnick



A moça fala, fala não para de falar. A mãe que prepara o almoço mais sorri do que responde. Não precisa ficar atenta para saber o que aconteceu. Os adjetivos, os verbos e os advérbios que a filha usa dizem muito. Mas o seu jeito de suspirar fundo diz muito mais. Ela esta de novo apaixonada. E, como em todas as outras vezes, pré-di-da-mente. É o  que ela diz, enquanto a mãe, sempre sorrindo, fiscaliza o arroz, vira os bifes na frigideira, começa a lavar a alface.
- Mãe, a senhora precisava ver como ele é lindo. Só de olhar para a carinha dele dá vontade de ...hum...abraçar aquela belezura e ficar beijando, beijando. Ah...
A mãe tira a panela de arroz de fogo, dá mais uma virada nos bifes. E a filha ali, falando, falando.
E os olhos dele mãe! Os olhos! Ah... Nem sei como não desmaio quando ele olha pra mim. E como ele olha pra mim! Todo dia, é só eu pôr o pé fora do colégio e chegar à esquina, quem esta sempre lá no ponto de ônibus, me esperando, com aqueles olhos?
A mãe já pôs o arroz e um bife no prato da filha e, e enquanto acaba de temperar a salada, continua sorrindo e ouvindo o que ela diz.
- lembra do Tino, mãe? Claro que você lembra. Aquele. Agente ainda morava lá na outra casa. Então. Este é ainda mais lindo que o Tino. Só que é tímido. Quando eu saio da aula, ele pensa que eu não reparo mas ele vai cortando caminho pelo jardim do colégio e, na hora em que eu chego ao ponto de ônibus lá está ele, o bandido, encostado no muro, me olhando com aqueles olhos. Mas hoje, mãe, se ele não tomar a iniciativa, eu tomo. Juro que tomo. Ou não me chamo mais Lúcia Helena.
A mãe pergunta se a filha não quer salada e ela, finalmente mudando de assunto, diz que não, porque esta a-tra-as-dis-si-ma. Precisa escovar os dentes e ir embora, senão perde a primeira aula.
Quando Lúcia Helena sai, a mãe balança a cabeça. Será que tudo vai começara de novo? E lembra-se das paixões da filha: o Tino, o Thomas, o Tim, o Turquinho. Para quem não chegou ainda aos 16 anos, é uma coleção! Enquanto lava a louça, fica assim, pensando em como se apaixona fácil a sua menina. Depois se condiciona a esquecer tudo aquilo. Lava o chão da cozinha, limpa o fogão, passa o aspirador na sala espana os móveis e quando olha para o relógio, leva um susto. São 6 horas e Lucia Helena, que sempre esta de volta às 5, ainda não chegou. A pobre mãe passa rapidamente de inquieta  a preocupada, de preocupada a aflita e já esta quase desesperada quando afinal ouve a porta se abrir:
-Menina você quer me deixar louca? Isso é hora de chegar? O que aconteceu? Você esqueceu de levar o passe do ônibus?
Lucia Helena entrando na sala responde:
- e a senhora acha que iam me deixar viajar no ônibus com essa fofura ? olha, mãe ele não e mesmo lindo? Agora precisamos tomar cuidado para ele não fugir, como o Tino e o Thomas, nem se atropelado como o Tim e o Turquinho. Ele vai se chamar Tontinho. É um bom nome. A senhora já viu um gatão mais bobinho do que este?
A mãe se aproxima e vê, logo no primeiro exame, que o gato e lindo, mas não pode chamar Tontinho. Tem de ser Tontinha. Como a filha.

Conversa de pai pra filha - Antonio Maria



- Pai, eu tenho um namorado.
Pai, que ouve isso da filha mocinha, pela primeira vez, sente uma dor muito grande. Todo sangue lhe sobe à cabeça, e o chão do mundo roda sob seus pés. Ele pensava, até então, que só a filha dos outros tinha namorado. A sua tem, também. Um namorado presunçosamente homem, sem coração e sem ternura. Um rapazola, banal, que dominará sua filha. Que a beijará no cinema e lhe sentirá o corpo, no enleio da dança. Que lhe fará ciúmes de lágrimas e revolta; pior ainda, de submissão, enganando-a com outras mocinhas. Que, quando sentir os seus ciúmes, com toda certeza, lhe dirá o nome feio e, possivelmente, lhe torcerá o braço. E ela chorará, porque o braço lhe doerá. Mas ela o perdoará no mesmo momento ou, quem sabe, não chegará, sequer, a odiá-lo. E lhe dirá, com o braço doendo ainda: "Gosto de você, mais que de tudo, só de você." Mais que de tudo e mais que dele, o pai, que nunca lhe torceu o braço. Só de você é não gostar dele, o pai. E pensará, o pai, que esse porcaria de rapaz fará a filha mocinha beber whisky, e ela, que é mocinha, ficará tonta, com o estômago às voltas. Mas terá que sorrir. E tudo o que conseguir dela será, somente, para contar aos amigos, com quem permuta as gabolices sobre suas namoradas. Ah! O pai se toma da imensa vontade de abraçar-se à filha mocinha e pedir-lhe que não seja de ninguém. De abraçá-la e rogar a Deus que os mate, aos dois, assim, abraçados, ali mesmo, antes que torça o bracinho da filha. Como é absurda e egoisticamente irracional amor de pai! Mais que ódio de fera. Ele sabe disso e se sente um coitado. Embora sem evitar que todos esses medos, iras e zelos passem por sua cabeça, tem que saber que sua filha é igual à filha dos outros; e, como a filha dos outros, será beijada na boca. Ele, o pai, beijou a filha dos outros. Disse-lhe, com ciúme, o nome feio. E torceu-lhe o braço, até doer. Nunca pensou que sua namorada fosse filha de ninguém. Ele, o pai, humanamente lamentável, lamentavelmente humano. Ele, o pai, tem, agora, que olhar a filha com o maior de todos os carinhos e sorrir-lhe um sorriso completo de bem-querer, para que ela, em nenhum momento, sinta que está sendo perdoada. Protegida, sim. Amada, muito mais. E, quando ela repetir que tem um namorado, dizer-lhe apenas:
- Queira bem a ele, minha filha.

O inferno são os outros


Vejam, até o mamão, de que gosto muito, vem com selo!
Igual qualquer outro produto, carimbado, mamão com chip, com dono, mamão vigiado.
Inocentemente nos cercamos de marcas, câmeras...
"Eu etiqueta", denunciou num poema o Drummond.
Por onde andei nos últimos dias... basta rastrear as câmeras discretamente instaladas nos caminhos onde passo, ou rastrear as ligações do meu celular.
Nesse, meus contatos dão a mostra de minhas intenções (boas e más, as que serão analisadas por Jesus e festejadas pelo demônio, é o que diz o pastor da igreja mais próxima), tudo o que tramei e o que imaginei, se ainda consigo imaginar.
Como somos inocentes em nossa romaria a caminho do matadouro...
E eu saio a vagar por aí, e também me vigio. Sem querer me ponho a pensar sobre como deve ser o paraíso. Porém, o que é o paraíso só o posso saber pela minha imaginação. Assim, ele é a extensão do que eu gostaria que minha vida fosse aqui, nesse espaço/tempo finito. Muitos amigos, muitas histórias, alegria, fartura, solidariedade, muita informação, conhecimento, cultura e arte.
Cabeça no céu, naquilo que ainda não foi, acabo fugindo desse mundo aqui, agora. Não contribuo em nada para dar um norte a essa sociedade, de que participo.
Mamão com selo. E código de barras. E destino selado. E maturação forçada. E precoce. E fora de época...
Ele não sabe, e nós também, que rapidamente esquecemos, que o que vale é o aqui e agora. E que se não fizermos nada, vamos passar em branco, não vamos fazer história.
Ao mamão, pouco importa. Não, para mim. Penso nisso e me deprimo.
Sou carimbado, vigiado, e me conformo em ficar de braços cruzados.
Ah, sempre esperto para apontar um culpado, e dizer, com Sartre, que o inferno são os outros.

Como se conjuga um empresário - Mino

Acordou. Levantou-se. Aprontou-se. Lavou-se. Barbeou-se. Enxugou-se. Perfumou-se.
Lanchou. Escovou. Abraçou. Saiu. Entrou. Cumprimentou. Orientou. Controlou. Advertiu.
Chegou. Desceu. Subiu. Entrou. Cumprimentou. Assentou-se. Preparou-se. Examinou. Leu.
Convocou. Leu. Comentou. Interrompeu. Leu. Despachou. Vendeu. Vendeu. Ganhou.
Ganhou. Ganhou. Lucrou. Lucrou. Lucrou. Lesou. Explorou. Escondeu. Burlou. Safou-se.
Comprou. Vendeu. Assinou. Sacou. Depositou. Depositou. Associou-se. Vendeu-se.
Entregou. Sacou. Depositou. Despachou. Repreendeu. Suspendeu. Demitiu. Negou.
Explorou. Desconfiou. Vigiou. Ordenou. Telefonou. Despachou. Esperou. Chegou.
Vendeu. Lucrou. Lesou. Demitiu. Convocou. Elogiou. Bolinou. Estimulou. Beijou.
Convidou. Saiu. Chegou. Despiu-se. Abraçou. Deitou-se. Mexeu. Gemeu. Fungou. Babou.
Antecipou. Frustrou. Virou-se. Relaxou-se. Envergonhou-se. Presenteou. Saiu. Despiu-se.
Dirigiu-se. Chegou. Beijou. Negou. Lamentou. Justificou-se. Dormiu. Roncou. Sonhou.
Sobressaltou-se. Acordou. Preocupou-se. Temeu. Suou. Ansiou. Tentou. Despertou.
Insistiu. Irritou-se. Temeu. Levantou. Apanhou. Rasgou. Engoliu. Bebeu. Dormiu. Dormiu.
Dormiu. Dormiu. Acordou. Levantou-se. Aprontou-se...

Anjo


Hoje topei com um anjo sedutor
de cabelos fogueados e olhares indiscretos.
Espantou maliciosamente o medo
                                            da morte
                                               matada
                                            e morrida...
Nasci de sua aura
de  vontade colorida
para acordar aurora e crepúsculo.
Foi então que meu reino de paixões 
                                        ressuscitou:
Mais e mais, a vontade de exercitar
                          cérebro e músculos.

O mundo dos vivos - Martha Medeiros

Quando alguém morre, costuma-se dizer que não faz mais parte do mundo dos vivos. Me pergunto: é preciso morrer pra deixar de fazer parte do mundo dos vivos? Não são poucos os zumbis que andam por aí. Quantos de nós, que nos autoproclamamos vivos pelo simples fato de ainda estarmos respirando, realmente honramos o verbo viver?

Nem todos mantêm residência no mundo dos vivos. E não sabem o que estão perdendo.

No mundo dos vivos todos sentem alguma coisa. Uns sentem uma felicidade transbordante, outros estão sofrendo por amor, alguns ficam indignados, outros não conseguem conter o entusiasmo, há os que têm medo da estagnação e há aqueles que venceram esse medo e enfrentaram seus demônios. 

No mundo dos vivos, não há um único habitante que diga para si mesmo: não estou sentindo nada. Se não está sentindo nada, ora, não está vivo.

No mundo dos vivos todos pensam por conta própria. Para isso, cultivam um hábito elementar: lêem. E não lêem qualquer coisa só por passatempo. 

Lêem livros que abrem suas mentes, livros que estimulam sua imaginação, que os fazem rir e que os fazem ficar chocados, que os ajudam a reconhecer em si o que estava escondido, livros que provocam, livros que ousam, livros que lêem os leitores por dentro. 

No mundo dos vivos, não há um único habitante que despreze o conhecimento e o acesso a novas percepções. Se despreza, ora, não está vivo.

No mundo dos vivos, além de se ler muito, reverencia-se a arte em todas as suas manifestações. As pessoas compreendem que arte é a prática do desrespeito, ótima definição que li num livro de Mario Sergio Cortella. 

Respeitam-se as leis, mas aplaude-se a transgressão, o questionamento incessante, a inovação, a diferença, o inusitado. No mundo dos vivos não há um único habitante que não se sinta estimulado por aquilo que lhe inquieta. Se não se estimula, ora, não está vivo.

No mundo dos vivos, o tédio não é aceito como algo normal e inevitável. A repetição de atitudes não é considerada uma proteção, e sim um mau sintoma. Os preconceitos não são encorajados. 

Do mesmo modo que há problemas, sabe-se que há soluções. No mundos dos vivos, cada dia é um presente a ser aproveitado. O que passa na tevê é entretenimento barato, o luxo está na realidade, qualquer uma que tenhamos criado com autenticidade e coragem. 

No mundo dos vivos, há mais perguntas que respostas, mais audácia que conformismo, engata-se mais a primeira do que a ré. Não há um único habitante que consola-se com a própria incapacidade, ao contrário: estudar, aprender e tentar são sinônimos de viver. 

Os zumbis habitam outro mundo, e não vivem: vagam.



(Publicado em Zero Hora no dia 16 de novembro de 2008)

Chapeuzinho vermelho de raiva - Mario Prata


- Senta aqui mais perto, Chapeuzinho. Fica aqui mais pertinho da vovó, fica.

- Mas vovó, que olho vermelho... E grandão... Queque houve?

- Ah, minha netinha, estes olhos estão assim de tanto olhar para você. Aliás, está queimada, heim?

- Guarujá, vovó. Passei o fim de semana lá. A senhora não me leva a mal, não, mas a senhora está com um nariz tão grande, mas tão grande! Tá tão esquisito, vovó.

- Ora, Chapéu, é a poluição. Desde que começou a industrialização do bosque que é um Deus nos acuda. Fico o dia todo respirando este ar horrível. Chegue mais perto, minha netinha, chegue.

- Mas em compensação, antes eu levava mais de duas horas para vir de casa até aui e agora, com a estrada asfaltada, em menos de quinze minutos chego aqui com a minha moto.

- Pois é, minha filha. E o que tem aí nesta cesta enorme?

- Puxa, já ia me esquecendo: a mamãe mandou umas coisas para a senhora. Olha aí: margarina, Helmmans, Danone de frutas e até uns pacotinhos de Knorr, mas é para a senhora comer um só por dia, viu? Lembra da indigestão do carnaval?

- Se lembro, se lembro...

- Vovó, sem querer ser chata.

Ora, diga.

- As orelhas. A orelha da senhora está tão grande. E ainda por cima, peluda. Credo, vovó!

- Ah, mas a culpada é você. São estes discos malucos que você me deu. Onde á se viu fazer música deste tipo? Um horror! Você me desculpe porque foi você que me deu, mas estas guitarras, é guitarra que diz, não é? Pois é; estas guitarras são muito barulhentas. Não há ouvido que agüente, minha filha. Música é a do meu tempo. Aquilo sim, eu e seu finado avô, dançando valsas... Ah, esta juventude está perdida mesmo.

- Por falar em juventude o cabelo da senhora está um barato, hein? Todo
desfiado, pra cima, encaracolado. Que qué isso?

- Também tenho que entrar na moda, não é, minha filha? Ou você queria que
eu fosse domingo ao programa do Chacrinha de coque e com vestido preto com bolinhas brancas?

Chapeuzinho pula para trás:

- E esta boca imensa???!!!

A avó pula da cama e coloca as mãos na cintura, brava:

- Escuta aqui, queridinha: você veio aqui hoje para me criticar é?!


A bolsa e a vida - Carlos Drummond de Andrade




I. O achado



Jamais em minha vida achei na rua ou em qualquer parte do globo um objeto qualquer. Há pessoas que acham carteiras, jóias, promissórias, animais de luxo, e sei de um polonês que achou um piano na praia do Leblon, inspirando o conto célebre de Aníbal Machado. Mas este escriba, nada: nem um botão.


Por isso, grande foi a minha emoção ao deparar, no assento do coletivo, com uma bolsa preta de senhora. O destino me prestava esse pequeno favor: completava minha identificação com o resto da humanidade, que tem sempre para contar uma história de objeto achado; e permitia-me ser útil a alguém, devolvendo o que faria falta.

A bolsa pertencia certamente à moça morena que viajava a meu lado, e de que eu vira apenas o perfil. Sentara-se, abrira o livro e mergulhara na leitura. Eu senti vontade de dizer-lhe: Moça, não faça isso, olhe seus olhos, mas receei que ela visse em minhas palavras mais do que um cuidado oftalmológico, e abstive-me. Absorta na leitura, ao sair esquecera o objeto, que só me atraiu a atenção quando o lotação já ia longe.

Mas eu não estava preparado para achar uma bolsa, e comuniquei a descoberta ao passageiro mais próximo:

- A moça esqueceu isto.

Ele, sem dúvida mais experimentado, respondeu simplesmente:

 Abra.

Hesitei: constrangia-me abrir a bolsa de uma desconhecida ausente; nada haveria nela que me dissesse respeito.

 Não é melhor que eu entregue ao motorista?

 Complica. A dona vai ter dificuldade em identificar o lotação. Abrindo, o senhor encontra um endereço, pronto.

Era razóavel, e diante da testemunha abri a bolsa, não sem experimentar a sensação de violar uma intimidade. Procurei a esmo entre as coisinhas, não achei elemento esclarecedor. Era isso mesmo: o destino me dava as coisas pela metade. Fechei-a depressa.

 Leve para casa  ponderou meu conselheiro, como quem diz:  É sua. Mas acrescentou:  Procure direito e o endereço aparece.

Como ele também descesse logo depois, vi-me sozinho com a bolsa na mão, já deliberado a levá-la comigo. E para evitar que na saída o motorista me interpelasse: Ei, ó distinto, deixa esse troço aí, achei prudente envolvê-la no jornal que eu portava. Já percebe o leitor que, a essa altura, minha situação moral era pouco sólida, pois eu procurava esconder do motorista um objeto que não me pertencia, sob o fundamento de que pretendia restituí-lo à dona; como se eu conhecesse essa proprietária mais do que ele, motorista, que podia muito bem conhecê-la de vista; e como se eu duvidasse dele, que com igual razão podia desconfiar de mim, passageiro, quando o mais fácil seria explicar-lhe (ou não seria?) que eu duvidava, não dos motoristas em geral ou dele em particular, mas sim da eficácia do sistema de entrega de objetos perdidos em coletivos.
Assim, embuçada convenientemente a coisa, como algo tenebroso que convinha esquivar à curiosidade pública, paguei com dignidade a passagem e saltei sem impugnação. No próximo escrito, o que continha a bolsa, e o mais que sucedeu depois.




II. O conteúdo


Chegando à casa, o primeiro cuidado deste cronista foi esvaziar a bolsa e examinar-lhe o recheio, para o fim de identificar sua proprietária. Logo atinei com a conveniência de dispor os objetos em ordem, e inventariá-los, primeiro porque era minha intenção devolver tudo de maneira regular, devendo a moça verificar, em minha presença, se não faltava nenhum pertence; segundo, porque, vencida a repugnância de mexer em coisa alheia, era legítima, até científica, a curiosidade de apurar que utensílios contém uma bolsa feminina comum, em nossa época, na área cultural do Rio de Janeiro.

Bem, não continha artefatos de couro, metal ou pedra, reveladores de hábitos tribais ainda não estudados; não deslumbrava pela magnificência dos artigos de toalete nem encerrava crimes e paixões em objetos simbólicos. Eis, honestamente, o seu acervo:

2 batons; 1 lápis para cílios; 1 escovinha idem; 1 espelhinho; 1 trousse folheada a ouro; 1 pente; 2 grampos; 1 vidrinho de Nuit de Longchamp; 1 sabonete de papel; 1 lencinho branco; 1 dito amarelo estampado, para limpar batom; 1 flanela para óculos; 1 caneta-tinteiro; 2 lápis; 1 borracha; 3 clipes; 1 canivete; 1 figa de madeira; 1 atadura adesiva; 1 ampola de Pernemon Forte; 1 comprimido de magnésia bisurada; 1 bula de Xantinon B 12; 1 chaveiro com duas chaves; 1 chave maior, solta; 1 folha de papel de embrulho; 1 pedaço de barbante; 1 cartão de firma de representações; 1 nota de venda no valor de Cr$4.550,00 referente a   camisola de luxo, 1 anágua franzida e 1 calcinha com liga; 1 porta-níqueis com Cr$4,50; 1 calendário pequeno; 2 folhetos; 1 papel datilografado. Num escaninho dissimulado, o dinheiro maior: Cr$950,00.

A agenda foi explorada; em seu interior havia uma flor seca, a fotografia de um desenho, representando um rosto feminino de cabelos compridos, e uma carteira de estudante de medicina; na carteira, o retrato de frente de uma jovem em que não foi dificil reconhecer a moça do lotação, vista de perfil. Tive a alegria de uma descoberta; mas foi curta, pois em nenhuma folha do caderninho havia o endereço da moça. Os nomes não coincidiam, e como os endereços anotados fossem vários, pareceu incomodo e até desaconselhável discar para todos eles, indagando sobre a acadêmica de medicina. Que grau de intimidade teriam essas pessoas com ela, e por que precisavam ficar sabendo que a moça perdera sua bolsa?

Resolvi, por, telefonar para a secretaria da Faculdade de Medicina, na manhã seguinte, e voltei a guardar na bolsa o que dela retirara. Dormi mal, preocupado com a noite que a jovem estaria passando, sem dinheiro, sem chave de apartamento, numa cidade onde as moças nem sempre estão bem protegidas. Quem sabe se mesmo à noite eu poderia tranquilizá-la? Eram 24 horas. Corri à bolsa, li o papelzinho datilografado: Chave da Harmonia. Desejo Harmonia, Amor, Verdade e Justiça a todos os meus irmãos do Círculo da Comunhão do Pensamento. Estou satisfeita e em paz com o universo inteiro e desejo que todos os seres realizem suas aspirações mais íntimas.” Tais sentimentos me penetraram, e conciliei o sono. O resto, a seguir.




III. A busca


Às nove da manhã, pelo telefone, comuniquei-me com a secretaria da Faculdade de Medicina. Expus o objeto da consulta, de maneira a não deixar dúvida: procurava o endereço da senhorita Andréia de Poggia (era o nome da carteira) para restituir-lhe uma bolsa, não para isso assim assim. O homem ouviu-me atenciosamente, e depois:

- Ah, moço, só o senhor tocando outra vez depois das 11. Eu sou faxineiro.

Mais por pressentimento do que à base de fatos, comecei a perceber que não seria fácil desfazer-me daquele objeto. A razão dizia que dentro de duas horas o endereço de Andréia estaria em meu poder. Uma voz obscura me sussurrou: Duvido.

Às 11 e 15, uma funcionária gentil tomou conhecimento do caso, certificou-se de minha honorabilidade e prometeu tocar logo que colhesse a informação. E efetivamente o fez, instantes depois.

 O senhor deve estar equivocado. Não temos aluna chamada Andréia de Poggia.

 Talvez esteja com a matrícula trancada, e não conste do fichário.

 Não senhor.

 Mas está na carteira: número 215.

 215 é um rapaz.

Agradeci e fui à agenda. Para meu desapontamento, a maioria dos nomes anotados não dispunha de telefone, ou eram casas comerciais, que não queriam conversa. Os dois ou três telefonáveis não estavam em casa ou não conheciam nenhuma Andréia. Um julgando-se vítima de trote, ia proferir uma dessas expressões comuns na Câmara de Vereadores, mas desliguei. Outro conhecia André - o André Meireles, da Sursan, que perdeu uma pasta com ações da Brahma ao portador, e quase ficou maluco; eu tinha achado, é?

Expliquei-lhe que eram matérias completamente distintas, e que, já às voltas com uma bolsa feminina, eu não podia responsabilizar-me pela pasta de André, mas o homem queria de toda maneira estabelecer um vínculo entra a pasta e a bolsa.

Depois de tantas ligações infrutíferas, o jeito era botar no jornal um anúncio classificado. Verifiquei a eficácia desse meio de divulgação, em face de nove senhoras e senhoritas que, pelo fio, em carta ou pessoalmente, se declararam mais ou menos Andréia de Poggia, isto é, à procura de uma bolsa perdida. Mas todas se enganavam a respeito da própria identidade. Os nomes não coincidiam, ou os rostos é que não coincidiam com a foto, embora alguns fossem até mais bonitos. A quarta Andréia esclareceu que ao tirar o retratinho estava mais gorda, a sétima que estava mais magra, nenhum se zangou quando lhes expliquei que a bolsa era, indubitavelmente, de outra Andréia de Poggia - a décima, que não aparecia. Outra observação: sendo avultado o número de bolsas femininas perdidas no Rio, muitas (senhoras, não bolsas) se resignam a aceitar outra qualquer, em substituição à que perderam. Mulheres procurando bolsas, bolsas aguardando mulheres; desencontros.

Já nutrindo certo mau humor com relação a Andréia, que assim se ocultava às minhas investigações benignas, mais desejoso de cumprir até o fim de dever de um cavalheiro do velho estilo, que achou uma bolsa de senhora de lotação, anotei os nomes das ruas constantes da agenda, e empreendi pesquisas de campo. E como este rocambole já me vai caceteando, embora empolgue um ou outro leitor que me tem telefonado para saber se achei a dona da bolsa, darei o desfecho na próxima.




IV. O encontro


Bati em várias casas de bairros vários, e ninguém soube informar-me quem era Andréia de Poggia. Em geral, acolhia-se com ceticismo minha intenção de devolver alguma coisa a alguém. Na bolsa, o dinheiro se desvaloriza, e era de recear que, se um dia eu encontrasse a proprietária, já o conteúdo nada valesse.

Contemplando o retrato de Andréia, eu naturalmente lhe emprestava uma personalidade universitária; meditando a frase da Chave da Harmonia, outra Andréia se figurava à minha imaginação. Uma, racional, científica, técnica; outra, sonhadora e mágica, em ligação com o universo através das Instruções reservadas para uso do irmão do Círculo da Comunhão do Pensamento e das Meditações diárias do mesmo circulo, como se intitulavam os folhetos contidos na bolsa.

Cheguei a pensar que o objeto pertencesse em condomínio a duas moças, tão diversas me pareciam as tendências. Que uma se houvesse apoderado da bolsa da outra, não era agradável admitir. Pensei também — sem convicção  num caso de dupla personalidade, com visitas alteradas ao anfiteatro médico e a sessões espíritas; a bolsa serviria a ambos os interesses.

Nas idas e venidas em busca da moça, carregava comigo o objeto embrulhado. Às vezes sentia ímpetos de atirá-lo fora, livrando-me da obrigação incomoda. A mesma voz de antes me murmurava então Fraco! Fraco!. E dái, mesmo jogada do bondinho do Pão de Açúcar, ela seria talvez encontrada, iniciando novo ciclo de indagações.

Então, redobrava de cuidados, com receio de, por minha vez, perder a coisa perdida; ninguém me censuraria por isso, a não ser eu mesmo, pois a bolsa crescia em mim, cobria-me de imperativos morais, comandava-me. Sentia-me Homem do embrulho, vagamente suspeito à Polícia.

Quando de repente, um mês depois, na Rua Uraguaiana, dou de cara com Andréia. Ela mesma, como a vira de perfil e a decorara de retrato.

 É a senhorita Andréia de Poggia?

Não disse que sim nem que não; olhou-me com naturalidade, como se conhecesse ou me esperasse; apenas murmurou?

 Será que o senhor,...

 Exatamente. Encontrei sua bolsa. Aqui está.

 Ah, obrigada! Eu tinha certeza de que ela voltaria, sabe? Sou espiritualista. Com licença.

E abrindo-a sem cerimônia, o que me chocou um pouco, remexeu até encontrar a agenda e retirar dela a reprodução do desenho.

 Felizmente aqui está ele!

Perguntei-lhe a quem se referia, pois a figura era feminina, de cabelos compridos.

 Não senhor, é o meu guia, um principe indu, de cabelos longos. Veja que nobreza!

 Tenha a bondade de contar o dinheiro - pedi-lhe, constrangido.

 Não precisa, confio em seu cavalheirismo. O essencial para mim é o retrato do guia. Eu não podia perde-lo. Mas tinha certeza de que voltaria.

 Escute, D. Andréia...

 Não sou Andréia, interrompeu-me suavemente. Meu nome é Rita Peixoto, comerciária, sua criada.

 Então aquela carteira...

 Bem, de vez em quando a gente gosta de ir a um cineminha, o senhor compreende...

Compreendi; as carteiras de estudante são para isso. Contei-lhe então os problemas da consciência que me assaltaram por causa de sua bolsa, os esforços por descobri-la.

 Está vendo? Foi o meu guia que agiu em tudo isso. Me fez perder a bolsa para que o senhor se aproximasse mais da humanidade. Agor está explicado!

Separamo-nos, felizes; ela, com o retrato do guia; eu, livre da bolsa, e determinado a não pegar mais nada que encontre em lotação.

Antes de você chegar


Quando você chegou, minhas olheiras estavam maquiadas. Os olhos cansados não disseram que pássaros negros afugentaram meu sono. Feito cogumelos de cinza, projetaram em outdoors os medos que acreditei ter esquecido.
Antes de você chegar a angústia, como tia distante, me abordou na calçada, na porta de casa. Era um novo capítulo, de uma novela antiga.
Teu olhar suave fez as ondas baixarem. Abriu-se o sol, e a manhã tornou-se divã.
Calmamente você me acolhei nos braços, cruzou as pernas e um poeta, mendigo de abraços, abriu seu coração...

Cãomício no calçadão - José Carlos de Oliveira

Reunidos no calçadão central da Avenida Atlântica, entre as Ruas Souza Aguiar e Sá Ferreira, dezenas de cães participaram sábado à tarde de um comício autorizado, em princípio, pela Administração Regional de Copacabana. Eram cachorros das mais variadas raças e dos mais diferentes tamanhos, desde Pastores Alemães até miniaturas Pintcher. Junto ao meio-fio, no local da concentração, um carro-choque do Batalhão de Gatos, armados de unhas e dentes, garantia a ordem.

O primeiro a subir ao tablado, que era um engradado de refrigerantes emborcado, foi um Poodle branquinho, de rabinho cotó.
- Nossos donos são irresponsáveis! - gritou ele.
- Abaixo os donos irresponsáveis! - respondeu a multidão raivosa (embora toda ela vacinada).
- Todo poder aos cachorros! - prosseguiu veemente o Poodle branco, cujo focinho lembrava vagamente o de Jane Fonda, e que era tido, entre o Posto 6 e o Posto 4, como o líder inconteste do Dog-Power.
Em seguida pediu a palavra um Weimaraner azulado, de olhos tristes. Do alto do caixote, falou ponderadamente:
- Meus modos if... if... (estava chorando o coitado)... Meus modos refletem o do meu dono... Não quero mais passar vergonha sujando a calçada!
- Nós também não! - responderam em uníssono os manifestantes caninos. Lá do meio do povo, alguém latiu com voz de Pointer:
- Nossos donos precisam aprender que lugar de cachorro fazer suas "coisas" é em casa!
- Bravo! Apoiado! - concordou a cãonalhada.
- Pipi-dog! Queremos pipi-dog! - Puseram-se a ladrar cadelinha Basser - cinco ou seis, provavelmente da mesma ninhada. - Somos moças de família, e portanto temos direito a um lugar no apartamento, onde possamos fazer a nossa toalete em que os intrusos invadam a nossa  privacidade"
- Muito bem! Falou! Podem crer! - entoaram em coro os cinco Dobermans que moram no Edifício Chopin, um dos mais luxuosos de Copacabana, e que fazem pipi - vejam só a heresia! - na piscina do Copacabana Palace, que fica ali ao lado.
Agora, estava no tablado um musculoso Boxer, com sua cara abobalhada e seu tradicional bom coração.
- Senhoras e senhores - disse ele - sejamos objetivos. Desejo colocar em votação uma proposta simples, de três pontos, a qual, se aprovada, será encaminhada aos nossos donos, em forma de abaixo-assinado. Primeiro ponto:
- "Quero meu pipi-dog no apartamento".
- Apoiado! - gritou a assembléia.
Segundo ponto: ... Mas, antes, para evitar tumulto, prefiro que os distintos companheiros, em vez de latirem, ladrarem, rosnarem e coisa e tal, balancem o rabo em sinal de aprovação. Aqueles que não mais possuem rabo poderiam uivar, mais docemente, pois uma de nossas preocupações principais há de ser a de não agravar a poluição sonora, de maneira a não indispor a opinião publica contra a nossa causa... 
Todos balançaram o rabo, em silêncio. A questão do orador fora aceita. Ele então prosseguiu:
- Segundo ponto: - "Queremos fazer nosso cooper canino apenas no calçadão central da Avenida Atlântica..."
Rabinhos balaçaram para lá e para cá: aprovado.
- Terceiro ponto: "É preferível que não nos levem à praia, onde involuntatiamente causamos uma porção de doenças!"
Rabinhos alegres: de acordo.
- Desta forma - finalizou o Boxer - poderemos afirmar que somos felizardos e que temos donos educados!
- Nosso dono vai ser superlegal! - exclamou a assembléia, esquecendo a recomendação de só balançar o rabo.
Nessa altura, todos ali estavam com vontade de fazer cocô e pipi. Sendo assim, o Poodle branco decidiu dar por encerrada a reunião, recomendando que os manifestantes se dispersassem em ordem.
Mas nesse instante pulou no caixote um autêntico Vira-Lata, magrinho, de olhos famintos, as costelas aparecendos sob o pêlo ralo, o rabo enre as pernas.
- Irmãos! - bradou ele, ou melhor, essa palavra num gemido - Irmãos! Todos somos irmãos! Todos os cachorros são iguais! Portanto, o verdadeiro problema não está no pipi-dog doméstico nem no pinicão de apartamento. O necessário é que todos nós, os de pedigrees e os da rua, os de raça e os vira-latas, tenhamos, todos. direito aos cuidados veterinários periódicos, à vacinação gratuita, à alimentação farta e balanceada, à coleira protetora com sua placa de identificação, aos banhos seguidos de talcos contra pulgas.. Viva pois a revolução! Todo o poder aos cachorros, sem distinção de raça, cor ou credo!
-Uh! Fora! - gritaram os cães de luxo, que pertencen todos, naturalmente, à Diretia, e preferem que as coisas continuem como estão, no plano da justiça social. - Fora! Sarnento! Babão! Comedor de restos! Ralé!
A multidão de sócios do Kennel Club avançou na direção do anarquista, rosnando ameaçadoramente. Foi preciso que os gatos salvassem o Vira-Lata do linchamento inevitável, para o que o cercaram, dispersando a cachorrada com bomba de gás lacrimogéneo.
Em seguida, o Batalhão de Gatos levou o Vira-Lata para o lugar adequado a essa espécie agitador. ele agora está sendo processado e é capaz de passar o resto da vida num canil-presídio. Acusação: trata-se de um CÃOMUNISTA.

Alguém viu, alguém leu...


Menina na janela, poodle no colo, curiosa com a passeata na avenida. Aniversário de sessenta anos de minha escola, o IMEAB  de Ijuí-RS. Vi num relance, mas a memória gravou e repete, a cada poucos minutos, o seu replay. Apenas mais um flash, um clarão, uma estrela que nasceu. A todo instante, momentos como esse, nascem, morrem, sem ninguém perceber.
Vivo de replays. Ingênuo, creio que os que passaram, retornarão.
Ainda agora leio poemas de Marina Tsvetáieva, Russa, anticonformista, que viveu nas primeiras décadas do século XX. Ponho-me a imaginar como foi sua vida e dos que viveram essas décadas, tão cheias de descobertas e de guerras. Duas guerras mundiais,  o Nazismo, enfim, como foi o céu e o inferno que viveu, o tamanho do desespero que a afastou da família e a levou ao suicídio.
Reencontro Marina, através de sua poesia. Leio, releio, seu recado, neste poema:

Para meus versos, escritos num repente,
quando eu nem sabia que era poeta,
jorrando como pingos de nascente,
como cintilas de um foguete,

Irrompendo como pequenos diabos,
no santuário, onde há sono e incenso,
para meus versos de mocidade e morte,
- versos que ler ninguém pensa! -

Jogados em sebos poeirentos
(onde ninguém os pega ou pegará)
para meus versos, como os vinhos raros,
chegará seu tempo.

Marina Tsvetáieva, teus versos venceram o tempo e o espaço. E comoveram meu coração. São os mais recentes replays que vão me acompanhar, passo a passo.
Não há barreira de tempo, espaço e de língua, enquanto houver homens que amam os livros, os traduzem e os publicam.

Sou um dos 999.999 poetas do país - Affonso Romano de S'antaAnna


Fragmento 1
INTRODUÇÃO SÓCIO-INDIVIDUAL DO TEMA
Sou um dos 999.999 poetas do país
que escrevem enquanto caminhões descem pesados de cereais
e celulose
ministros acertam o frete dos pinheiros
carreados em navios alimentados com o óleo
que o mais pobre pagará.
(- Estes são dados sociais
de que não quero falar, embora
tenha aprendido em manuais
que o escritor deve tomar o seu lugar na História
e o seu cotidiano alterar.)
Sou um dos 999.999 poetas do país
com mãe de olhos verdes e pai amulatado
ela – a força de áries na azáfama da casa
a decisão do imigrante que veio se plantar
ele – capitão de milícias tocando flauta em meio
às balas
lendo salmos em Esperanto sobre a mesa
domingueira.
(- Estes são sinais particulares
que não quero remarcar, embora
tenha aprendido em manuais
que o que distingüe a escrita do homem
são seus traços pessoais que ninguém pode
imitar.)
Fragmento 2
DESENVOLVIMENTO HÁBIL E CONTÁBIL DO (P)R(O)BL(EMA)
Sendo um dos 999.999 poetas do país
desses sou um dos 888.888
que tiveram Mário, Bandeira, Drummond,
Murilo, Cecília, Jorge e Vinícius como mestres
e pelas noites interioranas abriam suas obras
lendo e reescrevendo os versos deles nos meus versos
com deslumbrada afeição.
Desses sou um dos 777.777 poetas
que se ampliaram ao descobrir Neruda, Pessoa,
Petrarca, Eliot, Rilke, Whitman, Ronsard e Villon
em tradução ou não
e sem qualquer orientação iam curtindo
um bando de poetas menores/piores
que para mim foram maiores
pois me alimentavam com a in-possível poesia
e a derramada emoção.
Desses sou um dos 666.666 poetas
que fundando revistinhas e grupelhos aspiravam
(miudamente)
à glória erótica & literária
e misturando madrugadas, festas, citações, sonhos
de escritor maldito e o mito das gerações
depois da espreita aos suplementos
batem à porta do poeta nacional para entregar
poemas
(com a alma na mão)
esperando louvor e afeição.
Desses sou um dos 555.555
que um dia foram o melhor poeta de sua cidade
o melhor poeta de seu estado
dos melhores poetas jovens do país
e quando já se iam laureando aqui e ali em plena arcádia surpreenderam-se nauseados
e cobrindo-se de cinza retiraram-se para o deserto
a refazer a letra do silêncio
e o som da solidão.
Desses sou um dos 444.444 poetas
que depois da torrente de versos adolescentes e noturnos
se estuporaram per/vertidos nas vanguardas
e por mais de 20 anos não falamos de outra coisa
senão da morte do verso e da palavra e da vida do sinal
acreditando que a poesia tendia para o visual
e que no séc. XXI etc. e etc. e tal.
Desses sou um dos 333.333 poetas
que depois de tanto rigor, ardor, odor, horror
partiram para a impureza (consciente) das formas
podendo ou não rimar em ar e ão
procurando o avesso do aprendido
o contrário do ensinado
interessado não apenas em calar, mas em falar
não apenas em pensar, mas em sentir
não apenas em ver, mas contemplar
fugindo do falso novo como o diabo da cruz
porque nada há de mais pobre que o novo ovo de ouro
gerado por falsas galinhas prata.
Desses sou um dos 222.222 poetas
que penosamente descobriram que uma coisa
é fazer um verso, um poema ou mais
e receber os elogios médio-medianos dos amigos
e outra, bem outra, é ser poeta
e construir o projeto de uma obra
em que vida & texto se articulem
letra & sangue se misturem
espaço & tempo se revelem
e que nesta matéria revém o dito bíblico
- muitos os chamados, poucos os escolhidos.
Desses sou um dos 111.111 professores
universitários ou não
que antes de tudo eram poetas-patetas-estetas-profetas
e que depois de ver e viver da obra alheia
estupefactos
descobrem que só poderiam/deveriam
sobreviver com a própria
que escondem e renegam
por pudor
recalque
e medo.
Sou um dos 999 poetas do país
que
sub/traídos dos 999.999
serão sempre 999 (anônimos) poetas
expulsos sistematicamente da República por Platão
que um dia pensaram em mudar a História com
dois versos pena & espada
(o que deu certo ao tempo de Camões)
e que escrevendo páginas e páginas não mudaram nada
senão de tinta e de endereço.
Mas foi dessa inspeção ao nada que aprenderam
que na poesia o nada se perde
o nada se cria
e o nada se transforma.

Clipe