Pedro e o ponto de desequilíbrio - Carlos Silveira


O texto que segue é uma homenagem ao grande amigo Pedro Dilkin, que faleceu no domingo das Mães, 13 de maio de 2012, antes de ter completado cinco décadas de existência.




“Toda filosofia esconde também uma filosofia. Toda opinião é também um esconderijo. Toda palavra é também uma máscara.” Nietzsche

“O que é, é; o que não é, não é”. Esse princípio lógico de identidade não implica, necessariamente, a existência de um ponto de equilíbrio capaz de nos permitir a manutenção de nosso corpo – e alma? – em posição “normal”, sem oscilações ou desvios. A razoável harmonia em que possamos estar é altamente variável e depende de uma série de elementos, que se pensam e compensam mutuamente, para um precário autodomínio do todo.
Tal é o ser. Feito nós, como diria o poeta: “Feito anjo, meio ingênuo, meio bom, meio ruim, quase normal”.
Eis a hecceidade própria de cada indivíduo singular, concreto, determinado no tempo e no espaço.

Eis o Pedro, até o dia em que beijou o chão com o espírito desertor, saindo da vida para entrar na história. E fez-se literatura com A ilha da vida, ficção altamente autobiográfica, com suas convicções e certezas sobre a existência e a verdade. Tudo sob o amparo de Einstein, Kant, Nietzsche, Freud e Schopenhauer; o som de Os Futuristas, Cenair Maicá e Raul Seixas; e as lembranças sempre presentes de seus antigos amores, já há muito ausentes.

Com a vida por um fio, o equilibrista perdeu os movimentos, passou do ponto – e despencou. Quedou-se solitário em viagens imaginárias a um passado idealizado, abrindo mão dos princípios da realidade e do prazer: assim, nem se livrou dos pesares, nem se adaptou às exigências das necessidades.

Feito nós, e nós difíceis de desatar, ilhou-se mantendo uma tênue ligação peninsular com o social: pela contrição devotada a alguns “bares da vida” (como diria o Milton, “todo artista deve ir aonde o povo está"); pelas idas (ultimamente, esparsas) aos jogos do E. C. São Luiz e à Affi (Associação dos Funcionários da Fidene); pela montagem domiciliar de um sebo (livros e vinis) e de uma “radioteca” com aparelhos antigos, todos em intocável sintonia com a Rádio Guaíba pré-Universal); pelo amor incondicional ao Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) e a um Partido dos Trabalhadores ainda impoluto, aos quais defendia, literalmente, com unhas e dentes; pelo acolhimento, sempre irrestrito e carinhoso, a cada cão abandonado que batia à sua porta, ajudando-o a afugentar a solidão e acordar a vizinhança (não sem algum incômodo e um tanto de contrariedade).

Eis o Pedro, Dilkin, que, após quase trinta anos de Ijuí, no Domingo das Mães, dia 12 de maio/2012, tomou a Barca do Adeus e foi despertar a dona Frida em São João do Oeste/SC. Ancorado na Linha Medianeira, onde nasceu, agora, por ora, não mais o Uruguai nos une, mas um Oceano nos separa, pra que todos saibam que morrer é compulsório e viver é opcional.
Segue o Pedro talvez inconsolável a perguntar “Pra que lado este mundo vai?”, na esperança de que um dia a ciência e nossa impotência (individual e institucional) possam dar um fim ao “mal do século” (a depressão), causador, ao menos em grande parte, do naufrágio de seu inafundável Titanic. E nós, cegos, em nossos esconderijos de ou sem palavras, seguimos em nossa posição de descanso, e não de sentido, ante as ilusórias reflexões/refrações de nossos espelhos, teimando em sermos caricaturas (permanências) e não metamorfoses. E nosso ponto de desequilíbrio a advertir-nos do perigo de andar na contramão, por incompreendermos que a tragédia humana não é a morte, mas a indiferença com a vida – pão que se deveria repartir de forma imediata e milagrosa.

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