O incêndio no shopping - curto-circuito dos argumentos


Agosto de 2012 anda estranho. Não apenas essa primavera temporona. Mas também outros eventos, inclusive o incêndio do shopping de Ijuí. Não apenas o incêndio, mas também o texto de Allana Willers, "Não basta apagar o fogo" (no portal www.ijui.com), e da avalanche de comentários que ele suscitou.

Ao ver a foto no jornal Zero Hora do dia 20/08/2012, na sessão “Foto do leitor”, onde um pássaro “pesca” um peixe, não pude deixar de fazer uma relação com o texto e alguns comentários – um deles em especial.

A natureza não nos surpreende com sua dinâmica (e suas cenas). Nada há de errado em uma ave caçar e devorar um peixe; lagartos comerem cobras; aranhas comerem insetos; nós comermos a carne da vaca e os vermes nos devorarem quando passarmos dessa para outra.

Isso faz parte de um processo (ciclo da vida?) que a biologia explica. Mas na vida social, podemos tratar o outro “feito bicho”?

Qual o limite, o sinal amarelo, que nos indica o que podemos dizer ou não publicamente, com relação aos argumentos dos outros, de cujas ideias não concordamos?

Diz um comentário ao texto, que cito aqui:  
"FELIZMENTE PARA TODOS, ELA ESTÁ NO "PRIMEIRO SEMESTRE" DE JORNALISMO, AINDA PODE REVER OS CONCEITOS E TROCAR DE CURSO. QUEM SABE ARTES PLÁSTICAS, OU PRENDAS DOMÉSTICAS, TRICÔ E CROCHÊ. ALGUMA COISA ENFIM, QUE NÃO TENHA A OPORTUNIDADE DE ESCREVER OU FALAR PARA O PÚBLICO".

Quem o escreve parece indicar algo do tipo: “Se eu pudesse, eu te jogava aos leões, ou te devoraria eu mesmo!”

Ora, isso mostra que pisoteamos o espaço da argumentação e partimos para a guerra, com o propósito de eliminar quem não pensa como a gente.

Esse fenômeno é comum no Brasil atual, em que a democracia é uma criança que está tentando aprender a engatinhar – o vemos quando percebemos que ainda não temos uma ETIQUETA de bons modos a respeito de como nos comportar e argumentar no espaço público (virtual ou não).

Muitas vezes não sabemos diferençar bom senso, gentileza, de grosseria, argumento razoável de falácia, etc.

Essa imaturidade (e ingenuidade) de nossa democracia transparece também nas redes sociais, por exemplo no facebook. Muitos citam frases, pensamentos de motivação e/ou auto-ajuda, “assinados” por grandes poetas, escritores ou pensadores. Eles nunca escreveram isso, mas nós, por não conhecermos sua obra, os fazemos circular publicamente, achando que estamos prestando um grande serviço à humanidade.

O fenômeno está ligado ao que eu venho experimentando atualmente, com o imenso espaço público de argumentação de que disponho na internet: blog, twitter, Orkut, facebook... Me preocupo, diante disso: o que falar (postar) para ser visto, comentado, lembrado?

Aqui vejo a necessidade de inventarmos uma etiqueta (ou regras) que nos indiquem quando o sinal está amarelo, nos alertando para que não o ultrapassemos. Invadir o sinal vermelho seria confundir a emoção e o desejo (individual) com argumentação (pública).

Luis Fernando Verissimo escreveu uma crônica (Microfone escondido) que chama a atenção para essa relação do público e do privado. Um casal, que morava num apartamento, teve um dia a idéia de colocar um aparelho de escuta dentro do elevador do prédio. Assim eles podiam ouvir as conversas dos casais seus amigos, que os visitavam, ouvindo-os na chegada e também depois que se despediam. Obviamente, as conversas no elevador, sobre esse casal, não eram as mais elogiosas...

Depois de algumas experiências na escuta de vários casais amigos seus, e da decepção decorrente da descoberta sobre o que comentavam deles, o casal decidiu desligar aquele aparelho bisbilhoteiro, porque, senão, todos os casais seus amigos se tornariam inimigos. 

 A linguagem é pública, cultural e social. Se não cuidarmos dela, se não prestamos atenção no que dizemos a respeito dos outros, corremos o risco de tornar o convívio social um inferno, jogando assim a democracia aos leões.

Clipe