Esperança


Viver sem esperança
é como ter casa sem janela...
É por isso que eu arrasto asa 
pro lado dela...
(Da esperança, é claro!)

Sem medo de amadurecer - Martha Medeiros


Estará chegando em breve às livrarias a nova obra do filósofo argentino Sergio Sinay, cujo título é A Sociedade que Não Quer Crescer. Tema bastante atual e que merece atenção. Não há alarmismo em afirmar que viramos uma sociedade de adolescentes vitalícios, todos preocupados em manter a juventude até os 80 anos.

Uma coisa é praticar esportes e exercícios físicos, proteger a pele, se alimentar bem, manter cuidados para garantir a saúde, investir em lazer. Outra bem diferente é se comportar de forma irresponsável, não assumir autoridade, não dar um rumo à própria vida, viver encostado nos parentes. Há quem considere mais cômodo ser criança para sempre.

De fato, é. Temos por aí uma quantidade absurda de crianções e criançonas de 40 anos, de 50 anos, até mais. O que esperar de seus descendentes?

Não é fácil lidar com desejos, fazer escolhas, sustentar decisões. Nos momentos de aperto, gostaríamos de não precisar enfrentar coisa alguma e chamar um “adulto” para resolver as questões sérias em nosso lugar. Porém, não temos mais cinco anos.

Nem 15. Não há mais justificativa para desrespeitar as leis, dirigir de forma inconsequente, se embebedar, fugir aos compromissos. Essa rebeldia juvenil até possui um certo romantismo, é a porção James Dean de cada um. Só que o ator não viveu o suficiente para virar um homem, mas você, sim.

Amadurecer é respeitar os ciclos da vida e deixar a adolescência para trás a fim de assumir seu lugar no mundo. O que não significa virar um adulto chato e prepotente. É permitido divertir-se na maturidade. Muito, inclusive. Adultos curtem a vida mais do que a garotada justamente porque não estão mais testando limites, já viraram essa página. O que fragiliza a sociedade são pessoas que, uma vez crescidas em estatura, não cresceram emocionalmente.

Um adulto de verdade é aquele que não age em busca de uma recompensa – ele faz o que tem que fazer porque é o certo.

Pra chegar a esse encontro saudável com o dever moral, é preciso que ele tenha consciência de quem é, de tudo o que viveu, de como suas experiências o moldaram, e adote uma atitude firme diante de seus filhos, de seus pares, da sociedade toda. Se considerar que isso significa “envelhecer”, que pena: seguirá sendo um garoto mimado, uma garota bobinha, sem brio para herdar o bastão de seus pais e sem consistência para passar o bastão adiante.

Pessoas maduras também têm incertezas, vacilam, fraquejam. Porém sabem a hora de cortar o laço com suas carências infantis e de interagir com o mundo a fim de torná-lo melhor, mais digno.

São agentes de transformação, e não de estagnação. Quando se tornarem idosos, poderão olhar pra trás com a consciência de ter dado um sentido à sua vida, em vez de terem percorrido anos e anos inúteis, acreditando que poderiam ser jovens para sempre só pelo fato de andarem com a aba do boné virada pra trás.

Nós, os alienados - Cláudia Laitano




Eu deveria ter uns 11 ou 12 anos quando o acaso – sempre ele – me jogou para dentro do trem da história sem apito prévio. Eram os anos 70, e até as pedras da Praça da Alfândega sabiam que pessoas eram torturadas e mortas pela ditadura militar no Brasil. As pedras sabiam, mas eu ainda não.

Talvez essa breve era da inocência tivesse durado mais algum tempo se em uma viagem da escola eu não tivesse sentado ao lado de uma colega, com quem nunca havia conversado antes, que sabia tudo o que se podia saber aos 12 anos sobre ditadura, presos políticos, tortura. Tinha visto fotos, tinha ouvido conversas.

Enquanto Geisel propunha uma abertura “lenta, gradual e segura”, a descoberta daquilo que, afinal, eles estavam abrindo para mim foi súbita, inesperada e vertiginosa. Havia alguma condescendência naqueles tempos pré-internet em relação à capacidade de engajamento das meninas de 12 anos, mas segundo o vocabulário da época minha inaceitável ignorância política tinha nome: alienação.

No limite, todos somos alienados em relação a alguma coisa: política, ciência, cultura, economia, esportes, religião... A lista de assuntos sobre os quais escolhemos não saber nada é infinita. Segundo a cartilha marxista clássica, porém, alienado é o sujeito que não controla sua atividade essencial (o trabalho), pois a mercadoria que produz existe independentemente do seu poder e de seus interesses. Por extensão, alienadas são as pessoas indiferentes aos problemas políticos e sociais do lugar e da época em que vivem.

Em tempos de superabundância e descentralização da informação, o termo “alienado” ganhou um ar ligeiramente retrô. Ainda será possível ignorar um assunto de interesse público tão redondamente quanto eu ignorava a tortura?

É possível, mas em boa parte dos casos talvez se trate de uma “alienação eletiva”, ou seja, já não é tão fácil culpar os outros (“o sistema”, “a mídia”, “os interésses”...) pela nossa ignorância ou preguiça. Jovens e adultos, operários e seus patrões, a dona de casa e o jogador de futebol, todos escolhemos as causas nas quais não queremos nos engajar, os problemas que não queremos resolver, os pepinos que preferimos varrer para debaixo do tapete.

Na semana passada, quando o último capítulo de Avenida Brasil mobilizou a atenção e o coração de milhões de brasileiros, muitos sacaram da gaveta o velho xingamento de passeata para pespegar nos fãs de Carminha e Tufão. Devagar com o andor. Pode-se, obviamente, gostar ou não de novelas, mas o curioso (assustador seria o termo mais correto) nesses comentários é a dificuldade para compreender e aceitar a ancestral necessidade humana de contar e ouvir histórias – e de fugir da realidade de vez em quando também.

Não é a arte, mesmo uma arte popular ou o mero entretenimento, que aliena as pessoas do que elas deveriam saber/fazer/ser, mas as diferentes escolhas que realizamos todos os dias na vida real: em casa, no trabalho, no espaço público e agora nas redes sociais também. Assistindo novela ou um jogo de futebol, jogando videogame ou namorando, não somos alienados ou politizados. Somos apenas humanos.

Aliás, já ouviu falar dos índios guaranis-kaiowás?

Clipe