Três pactos de morte - Paulo Henriques Britto



Como se fôssemos pássaros
voamos contra a vidraça.

Dançamos duas valsas sobre a mesa.
Roemos os ângulos dos móveis.

Copulamos em pleno voo, depois
nos atiramos na chama da vela.

E um cheiro forte de borracha queimada
nos acompanha até o paraíso. 


***
1. Antes que fôssemos mumificados por completo, você descobriu uma maneira de apodrecer tão depressa que fosse impossível até mesmo para o mais hábil mumificador do Alto Egito.
2. Nossos resíduos rolaram rio abaixo e foram vistos a trinta e cinco quilômetros do Delta, tentando desesperadamente dissolver-se na salmoura do mar.
3. Estado coloidal.

***
Embora não fôssemos nem um pouco
como duas gazelas se apascentando entre as açucenas,

nem muito menos como um rebanho de cabras
que descesse as colinas de Galaad,

nem por isso merecíamos ser confortados,
em vez de com bálsamos e maçãs,

com meio vidro de formicida cada um
num quarto de hotel barato em Cafarnaum.


(do livro Macau)

Os filhos do sim - Heloisa Seixas



Este conto da Heloisa Seixas vai nos levar a uma reflexão sobre a questão da mudança de comportamento na relação pais e filhos nos últimos tempos (contemporâneos). Tempos pós-repressão. 

A mulher estava sentada lendo um livro, na sala, quando ouviu o grito da filha. Depois, um estrondo de porta batendo. Murmúrios, passos. E a mocinha apareceu na sala, com uma expressão terrível no rosto. Tinha acabado de se pesar na balança do banheiro. Engordara um quilo. “Um quilo!”, dizia, aos gritos, a ponto de a mãe pedir que baixasse a voz, por causa dos vizinhos.

E a menina saiu da sala, com o rosto amarrado. Pouco depois, entrou o filho. Suando, chegava da academia. Tinha, também, um ar atormentado. Entrou, cumprimentou a mãe e desapareceu a caminho do chuveiro, parecendo imensamente cansado. E a mulher ficou outra vez sozinha na sala, pensando. Fechou o livro e levantou-se, caminhando até a janela. Pensava no sofrimento dos jovens de hoje.

Filhos e filhas daqueles que fizeram a revolução da contracultura – dos hippies, loucos, guerrilheiros – esses jovens poucas vezes ouvem um NÃO na vida. É uma geração para a qual quase nada é proibido. Os pais de agora, que foram jovens nos anos loucos, têm enorme dificuldade em impor disciplina. Deixam os filhos fazer tudo. Chegar tarde, sair durante a semana, trancar-se no quarto e dormir com a namorada ou o namorado – tudo. 

Talvez isso tenha criado um vazio na vida desses rapazes e moças, refletiu a mulher, olhando as luzes da rua. Os jovens de hoje formam uma geração que pode tudo. Com acesso livre a todas as informações, têm, diante de si, enorme variedade de ofertas de consumo.... Biscoitos, por exemplo, pensou a mulher. No tempo dela, só havia dois ou três tipos de biscoito doce. Hoje, em qualquer lojinha de posto de gasolina, há prateleiras inteiras de biscoitos de todos os tipos, recheados ou não, com chocolate amargo ou de leite, com nozes ou passas, tudo. Biscoitos demais. Mas, para quê? Inútil paisagem. Não se pode comer! E quem proíbe? São eles mesmos, os jovens.

Eles mesmos inventam aquilo que não se pode fazer. Precisaram criar suas próprias impossibilidades – talvez pelo excesso de vezes em que ouviram um SIM dos pais. Porque o ser humano precisa do proibido. Então agora é proibido comer, é proibido não ter músculos, é proibido ser feio, é proibido envelhecer. O padrão de beleza vigente é irreal. Parece ter sido criado apenas para fazer sofrer – pois é inalcançável. Qualquer mocinha que não viva à base de alface e água – a não ser as que, por natureza, tenham a sorte de ser excessivamente magras – vai se olhar no espelho e chorar porque não tem aquele aspecto de campo de concentração que se vê nos anúncios de moda (incluindo os olhares, tão tristes). 

É essa a vida dos jovens, hoje – concluiu a mulher, dando de ombros. Coitados. São os filhos do sim.”

Aves desejantes - Paulo Fensterseifer




Amigos, eis uma bonita (e valiosa) contribuição para pensarmos a relação dos humanos com os bichos. O poema foi escrito pelo professor Paulo Fensterseifer, e a ilustração é da professora Andreia Aparecida Czyzewski.


Agostar de você



Por que fui cavar, cavar para desenterrar o sapo e beijar a princesa, se anjo não dá moleza? Sonhar com o primeiro beijo, num camping, praia ou passeio. Pra que tanto sofrer e penar, se comigo ela não quer ficar? Pesquisei todos os passos na internet, como ter lampejos para ganhar seu primeiro beijo. Anatomia, biologia e geografia. Mapeei no imaginário pescoço, bochecha, orelha, testei perfumes para ter pra mim sua alegria. Seus nãos são pura adrenalina que me jogam com vontade num bote em alto-mar. Se na primavera agostava só um pouco, no verão agosto muito mais. Embora agosto seja mês de cachorro louco, vou remar, remar até lá, pois é tri-agridoce te agostar!


(TIRADAS do Teco, o poeta sonhador)

Realidade



Mãe e filho precoces. O pai desaparece. É fácil olhar do outro lado da rua e julgar a realidade que, nua, a nossos olhos se transveste. Estou no meio do povo e faço de conta que dou conta de toda a verdade. Meus olhos usam filtros, leis, mordaças, e são cruéis com a realidade. Ajusto, ajusto, até ficar satisfeito com os limites de minha compreensão. Também minha palavra foi forjada por duras ferramentas. A palavra que busco ao poema é outra – sempre - e foge, se distancia, como uma sombra. Ou dá o bote, como uma serpente.


Amor ou humor?



Em alguns momentos “anormais”, em que tudo foge do previsto, aquilo que gostaríamos que acontecesse, buscamos um consolo (ou desculpa). Para dirimir a frustração, dizemos: “Eu tive um pressentimento de que isso ia acontecer”. Nessas horas “rir é o melhor remédio”. Érico Veríssimo afirmou que “em certos momentos o que nos salva nem é o amor, é o humor”.
***
Um adolescente, aluno do Ensino Médio, me contou como faz para gabaritar as provas de Ensino Religioso. Dentre as alternativas para as questões, escolhe sempre respostas que agradam a professora, tais como: “Eu amo Jesus”. “Quando eu crescer, quero ter fé em Deus”. Nada de questionamentos existenciais, do tipo: “De onde vim?”, “Para onde vou?”. Ou perguntas mais radicais, tais como: “Se Deus nos ama, porque permite tanta violência e pobreza no mundo?” E acrescenta:
- Se eu disser o que penso, que é mais ou menos “Foda-se isso! Foda-se aquilo!”, ela vai me mandar sair da sala de aula e ir direto pra coordenação da escola.
Perguntei-lhe, então:
- Você fica angustiado e infeliz, por ter que dizer o que agrada à profe, e te garante passar de ano sem pegar exame?
- Não. Até que não sofro. Tanto é que estou aqui contando e rindo desse fato. Obter nota alta ou não numa disciplina não vai resolver minhas dúvidas sobre crença religiosa.
Aproveitando a deixa, falei-lhe da estreita relação entre liberdade de expressão e responsabilidade, e também de que não há sociedade e (óbvio) escola sem uma certa repressão. Daí a importância de abrirmos espaços para o humor; rir de determinadas situações, usando-as como válvulas de escape para nossas frustrações.
Além do humor, há a possibilidade da ironia. O que não podemos aceitar é a visão simplista de que no mundo existem apenas duas possibilidades: de que ou estamos certos ou estamos errados, e de que os outros, que pensam diferente de nós, são nossos inimigos.
Rir dessas situações. Sim. O que mais nos “salva” nessas horas é a ironia e o humor.
Tudo bem. Há momentos em que temos que escolher entre A ou B, em vez de ficar em cima do muro. Mas no exercício do pensamento, da reflexão, deve haver mais de duas possibilidades.
O Mais importante é não abrir mão da dúvida, de desconfiar de nossas verdades “cômodas”. O pensamento científico, por exemplo, progride porque os cientistas desconfiam, duvidam e testam suas teorias e conhecimentos.

***
A conversa que tive com o adolescente voltou à lembrança nestes dias, com o atentado ao jornal francês. Um dos temas, de novo, é “liberdade de expressão”. O que podemos falar publicamente, assumindo o risco de sermos escolhidos como inimigos dessa ou daquela ideologia – inclusive inimigos da “palavra de Deus” (ou inimigos dos que acreditam e agem “em nome” de determinada divindade).
Parece que caminhamos pra tudo quanto é lado, inclusive para trás. Mas o pior é que aqueles que têm certeza de qual é o verdadeiro caminho a seguir, que nos leva “para frente”, são os fanáticos, e esses são os mais perigosos à vida, pois matam em nome de “verdades” para eles absolutas.

Rindo ou chorando, considero que vivemos numa época em que os passos da humanidade, diferente do andar do caranguejo, são absolutamente imprevisíveis.

TIRADAS...



Somos todos bichinhos de estimação, demarcando territórios e acenando das vitrines e das sacadas dos prédios: 
- Ei, estou aqui! Olhem pra mim!.

(TIRADAS do Teco, o poeta sonhador)

Tirar o pé...



Quando confessou ao amigo de que cansou de sonhar, e de que agora vai ser mais realista, este respondeu-lhe:
- Pra caminhar tem que tirar o pé do chão!

Esboço da teoria da pessoa normal


Estamos esboçando a teoria da pessoa normal. Quem quiser pode contribuir. 
Pessoa normal é aquela que cansou de ficar na crista da onda.
Pessoa normal é aquela que cansou de estar sempre na moda.
Pessoa normal é aquela que cansou de chegar sempre em primeiro.
Pessoa normal é aquela que cansou de competir como gato e rato.
Pessoa normal é aquela que cansou de ter a melhor selfie.
Pessoa normal é aquela que cansou de ter algumas dúzias de calçados e guarda-roupa lotado.
Pessoa normal é aquela que tá a fim de compartilhar:
- os espaços públicos de lazer...
- o respeito e cuidado dos idosos e dos bichos abandonados...
- ...

Agora, amigos, deixo para vocês sugerirem ações e comportamentos que nos  caracterizam como pessoas normais...

Novela - Elias José






A vaca amarela
ganhou uma rosa amarela
e uma declaração de amor
de um boi voador,
louquinho por ela.

A vaca amarela
sorriu, jogou beijo
e ficou mais bela.
O boi voador deu a ela
uma aliança de noivado.

Marcaram o casamento,
montaram uma casa.
O boi voador prometeu
não voar mais.

Na despedida de solteiro,
o boi voador resolveu voar
só um pouquinho...

Só que voou, voou,
e até hoje não voltou
.

Janela sobre o medo - Eduardo Galeano


Agora compreendo por que tanto barulho, tantos fogos, na virada do ano. Para Eduardo Galeano, "o medo do silêncio atordoa as ruas". E diz mais:
"O medo ameaça:
Se você amar, vai pegar aids.
Se fumar, vai ter câncer.
Se respirar, vai se contaminar.
Se beber, vai ter acidentes.
Se comer, vai ter colesterol.
Se falar, vai perder o emprego.
Se caminhar, vai ter violência.
Se pensar, vai ter angústia.
Se duvidar, vai ter loucura.
Se sentir, vai ter solidão."

(Do livro, As palavras andantes)

Clipe