POR QUE FUJO


Não me pergunte por que fujo. Não salpique respostas. Faço-o, simplesmente. Tornou-se acontecimento normal, que resguardo de qualquer autocrítica.

Afastar-se dos laços costumeiros e inquestionáveis, como tomar um banho frio por alguns dias. Fugir para dizer que não quero depender de amarras e de currais.

Não me pergunte “Desde quando você age assim?”
Só sei que sofro e me sinto bem. Nem adianta você dizer “Você é doido, sabia?”.

Fugir é um estilo de vida. Rejuvenesce a alegria e a tristeza.
Estou viciado em fugir. Tem seus ápices, delírios, e depois a melancolia baixa e cobre tudo, como neblina.

De que maneira passou a fazer parte de minha vida, não sei.

Devo estar exausto de tua voz. Das curvas de teu corpo. Perderam-se os labirintos, foi-se o mistério. Restou “Deve-me obrigação e respeito!”.

Compreendo as convenções sociais, mas fugir dá um prazer bucólico, que não quero compartilhar. É meu segredo. Minha caixa preta.Tua mesmidade cotidiana não preenche as lacunas da solidão.

Aí você diz “Eu me esforço, sabia?”.

Entendo, embora seja um engodo perseguir a paixão, deixada por teu vácuo, nas noites acesas de encontros embriagados, lá onde teu lamento estonteou-se na contramão.

Investiga-se a caixa preta e descobre-se que não me vês da maneira como te vejo. Traduzo-te numa linguagem sensual. A língua e a cama, com símbolos infinitos, numa linha pontilhada de sinais extraviados pela asneira do dia-a-dia.

Frases decoradas, gramática inútil, no fundo de tua boca.

Você me vê como “O homem da minha vida,” “O único que amei...” Mas essas etiquetas usuais não me convencem. Não são alavancas suficientes para me fazer rastejar montanha abaixo.

Sabes que não te vejo assim. E é por que te vejo diferente que necessito fugir.

Sei entortar as grades, pular o muro. Sou expert nos detalhes, que planejo no horário de visita, quando a truculenta insônia vem dar “Oi!”.

Clipe