MÁSCARA


Olhar misterioso que veio
disfarçar o seu medo

para gravar
numa caligrafia
insinuosa

a embriaguês
das pernas

quadris e ombros

estremeço
como um réu
diante do seu olhar

apenas a minha máscara cai.

Agora sou super-herói
aniquilado pelos vilões
que farão parte
da próxima aventura.

METADES



Metade de mim quer conquistar

o outro lado do muro

a outra metade quer ficar

e modificar o passado.


Uma aposta na experiência

a outra aposta no futuro.


Olho o horóscopo

e meu signo diz

que o período é excelente

para conversas fáceis

e encontros amorosos.


Tenho coleções de senhas

tenho coleções de chaves

e, no ritmo do possível,

jogo todos os jogos.


Sei de cor

onde vão dar

esses labirintos.


Agora é final da madrugada

e o despertador afugenta

os sonhos das duas metades

e silencia as outras metades

que invento.

DO LIVRO "TUDOS" - Arnaldo Antunes



Estou cego a todas as músicas,
não ouvi mais o cantar da musa.

A dúvida cobriu a minha vida
como o peito que me cobre a blusa.
Já a mim nenhuma cena soa
nem o céu se me desabotoa.
A dúvida cobriu a minha vida
como a língua cobre de saliva
cada dente que sai da gengiva.
A dúvida cobriu a minha vida

como o sangue cobre a carne crua,
como a pele cobre a carne viva,
como a roupa cobre a pele nua.
Estou cego a todas as músicas.
E se eu canto é como um som que sua.

LIBERDADE - Fernando Pessoa



Ai que prazer
não cumprir um dever,
ter um livro para ler
e não o fazer!
Ler é maçada,
estudar é nada.
O sol doira
sem literatura.
O rio corre, bem ou mal,
sem edição original.
E a brisa, essa,
de tão naturalmente matinal,
como tem tempo não tem pressa...

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
a distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto é melhor, quando há bruma,
esperar por D. Sebastião,
quer ver ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
flores, música, o luar, e o sol, que peca
só quando, em vez de criar, seca.

O mais do que isto
é Jesus Cristo,
que não sabia nada de finanças
nem consta que tivesse biblioteca...

ALEGRIAS E TRISTEZAS


De vez em quando eu tenho uma tristeza.

Acho que é porque eu fico só.

Meus amigos fogem da minha agenda

e dizem que estão exaustos

numa rotina de dar dó!


Eu tenho a companhia de uma folha em branco.

É daquelas que aguardam, pacientemente,

A visita de dona inspiração.


É meu diário.

Não, não é festa, som alto,

brindes, piadas e outros encontros.

É pôr do sol, céu estrelado

e muito silêncio.


Nessa hora,

triste por ser refém

da deusa da beleza,

encontro algumas palavras

e também, com alguma sorte,

alguns versos e um pouco de amor!


COLUNA POLICIAL


O jornal está aberto

na coluna policial.


Alguém bateu

alguém brigou

alguém morreu


deram tiro

arrombaram

assaltaram


Leio o jornal

de trás pra frente

é piada

é horóscopo

é futebol


pan, pan, pan, pan!...


Uma criança

pede algo

pra comer.


A geladeira

não fez feira

só tem maçã.


- Só isso?!


Fico triste

com a miséria

desse mundo


um alarme

estressado

do meu bairro

quer socorro


ergo muros

boto grades

piso fundo...


Tenho medo de morrer

tenho medo de morrer

tenho medo de morrer!

ATÉ O FIM



Vou até o fim

fim lândia


vou até o final

final mente


até o fim

fim lândia


não vou sentar

pra ver o fim

fim lândia


nem chorar

antes do fim

fim lândia


vou lutar até o fim

fiel mente


jogar até acabar

o tempo


até o final do final

final mente...


Sei que eu vou até o fim

fim lândia


finalmente até o fim

Finlândia!


LIVRO DAS PERGUNTAS - Pablo Neruda


Onde a lua cheia deixou
o seu saco noturno de farinha?



Se já estou morto e não sei,
a quem devo perguntar as horas?

Me diga, a rosa está nua

ou tem apenas esse vestido?

Há alguma coisa mais triste no mundo

que um trem imóvel na chuva?


A fumaça fala com as nuvens?


Por que se suicidam as folhas

quando se sentem amarelas?

Quantas abelhas tem o dia?


E é paz a paz da pomba?

O leopardo faz a guerra?


Quantas perguntas tem um gato?


Onde estão aqueles nomes
doces
como as tortas de antigamente?


Para onde foram as Donanas,

as Felisbertas, as Bizuzas?

Para quem sorri o arroz

com infinitos dentes brancos?


Como a laranjeira e as laranjas

dividem o sol entre si?

Quem gritou de alegria

quando nasceu a cor azul?

Como ganhou sua liberdade

a bicicleta abandonada?

É verdade que no formigueiro

os sonhos são obrigatórios?

Já percebeste que o Outono

é como uma vaca amarela?

Quem canta no fundo da água

na lagoa abandonada?

De que ri a melancia

quando a estão assassinando?

Posso perguntar ao meu livro

se é verdade que o escrevi?

Então não era verdade

que Deus vivia na lua?

Quando o preso pensa na luz,

é a mesma que te ilumina?

Por que vivem em farrapos

todos os bichos-da-seda?

Onde encontrar uma sineta

que soe dentro de teus sonhos?


A quem posso perguntar

que vim fazer neste mundo?

Há coisa mais boba na vida

que chamar-se Pablo Neruda?

DIA DOS NAMORADOS - Poema de Giovanni Pasquali Piovesan



Era uma noite

toda estrelada

claro que depois

virou madrugada

com ela veio a lua

toda enfeitada

tinha brinco, batom

e blusa decotada

do horizonte veio o sol

todo arrumado

trazia um buquê de flores

era dia dos namorados!


ENTREVISTA





ENTREVISTA para as alunas Taiane e Alessandra, da turma 43, do IMEAB – Instituto Municipal de Educação de Ijuí – R.S. - para a primeira edição de seu jornal.



Ao responder as perguntas que essas meninas me fizeram, pude rememorar, aos poucos, alguns dos primeiros (pequenos) passos como escritor. Percebo que, ao responder suas perguntas desse jeito, estou omitindo tantas outras coisas, mas não tem como escapar – quando narramos certos acontecimentos, sempre fazemos um recorte da realidade.


Professor Américo, qual foi a iniciativa para o senhor escrever seus livros?


Desde criança eu gostava de ler e escrever. Quando tinha uns 14 anos, eu escrevia redações na escola, que eram elogiadas pelas professoras. Algum tempo depois passei a publicar poemas num jornal semanal de minha cidade natal – Frederico Westphalen/R.S. Mudei para Ijui/R.S. para cursar a universidade (curso de filosofia) e também para trabalhar. Durante anos trabalhei na gráfica e editora da UNIJUI. Nessa época rabiscava poemas nos cadernos de aula, mas não publicava. Escrevia alguns textos para os jornais da cidade, que eram do gênero crônica. Depois da graduação em filosofia, comecei a dar aulas na universidade (nas disciplinas de lógica e filosofia). Cursei pós-graduação em filosofia política e fiz mestrado em filosofia e metodologia das ciências. Durante uns quinze anos me dediquei à carreira acadêmica (até início de 2006). A partir daí saí da universidade, morei durante alguns meses no litoral (é um desejo morar próximo do mar) e, não tendo o que fazer, decidi retomar os escritos. Acho que o fato de ser pai (meu filho, hoje, está com 9 anos) tem também influência na decisão de escrever e publicar livros para crianças.


Professor Américo, que histórias contam os seus livros?


No primeiro livro, Teco, o poeta sonhador, em: os mistérios do porão, inicia-se uma aventura no porão da casa onde o personagem mora. Ele encontra uma porta que não conhecia... Quando consegue abrir aquela porta, uma sucessão de acontecimentos inesperados vão se sucedendo. Isso é sonho, fantasia, imaginação ou realidade? Deixo para o leitor (a) decidir! Igualmente, o que vai acontecer no final. No livro, Teco toma contato com a história de seus antepassados, através de objetos que eles usavam no seu dia-a-dia.



O segundo livro, Teco, o poeta sonhador, em: os segredos do coração, trata da escolha do time do coração – Grêmio ou Inter... É uma história divertida, com rimas, que nos faz refletir a respeito de como as crianças, influenciadas pelos pais, tios, avós, etc., fazem suas escolhas.


Professor Américo, quando deu vontade de escrever um livro?


Acho que desde quando eu era pequeno. E tem a ver com os livros que eu lia, as histórias que ouvia. Principalmente o incentivo de minhas professoras. Muitas vezes, depois de adultos ficamos com medo de publicar, achando que vamos ser criticados. Esse medo da crítica acaba sendo uma enorme barreira. Não que devamos publicar qualquer coisa. Uma maneira de enfrentar os medos é treinando muito (lendo e escrevendo muito). Não ficar satisfeito muito rapidinho com o que escrevemos. Temos que tentar melhorar sempre. Há um ditado que diz: 99% é transpiração e o resto é talento e inspiração! O certo é que sem vontade, coragem e muito sacrifício, não vamos a lugar nenhum em qualquer profissão. Mas, acima de tudo, é importante gostar do que se faz. No caso do escritor (a), o grande desafio é escrever aquilo que toque no coração do leitor!


Tinha que ser no sábado?



Sábado de manhã, início de feriado e, num movimento brusco (e estabanado/ridículo), ecorreguei diante da porta de casa. Bati com toda a força no vidro da porta... Um desmaio (mais que surreal, já que repleto de sonhos) de uns dois ou três minutos - segundo relato de meus amigos... e cinco pontos no pulso da mão direita.

Poderiam até dizer, se eu tivesse vocação para suicida, que estava ensaiando passar dessa para outra...

Cá estou, digitando com a mão esquerda, sem ter me acostumado com o ócio da mão direita. Um vizinho disse que o acontecimento deve ser o prenúncio de algo bom. Quem sabe? Torço para que traga muita inspiração!

Mas está servindo para alguma coisa, o fato de estar em casa, em vez de passear nos parques deste feriado. Já estou fazendo o balanço de 2009, e projetando o ano de 2010.

Ah, na semana anterior, a semana da criança, a peça de teatro baseada no livro Teco, o poeta sonhador, em: segredos do coração, adaptada ensaiada pela professora e atriz Eloisa Borkenhagen, juntamente com os seus alunos da Escola Estadual Pedro Maciel, do Itaí/R.S, fez cinco apresentações no IMEAB/Ijuí-RS, para alunos de pré-escola a quinta séries.
A adaptação do livro pela Eloísa está excelente, e temos planos para que o "drama tragicômico" vivido por TECO chegue a escolas e comunidades de outras regiões de nosso estado.
Esse é um dos desafios para o ano de 2010.


Outro motivo de grande alegria e orgulho (por conhecê-la e ser seu amigo) foi a presença, também no IMEAB, da jovem escritora Daiana Dal ross, de Catuípe/RS. Foi palestrante, para os alunos de terceira a quinta série, na biblioteca infantil desta escola, da qual sou responsável.
Com seus dez anos de idade (está prestes de fazer 11), Daiana fez sete palestras, durante a manhã e tarde de quarta-feira (dia 07/10).

Seu entusiasmo e inteligência deixam-nos cada vez mais motivados e felizes, porque nessas horas vemos como vale a pena "sofrer de juventude" (como disse, certa vez, Tom Zé).

NO MEIO DO CAMINHO



No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.


Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.

DENGO



Até parece

que você

não existe

e eu nem te vejo

quando me aproximo.


Eu procuro abrigo

pra me esconder

do teu sorriso...


É que ele me enfeitiça

e viver assim

eu não consigo!


Ando cheio de dengo

vivo no negativo

porque mais do que tudo

mais do que tanta coisa no mundo

é de você que eu preciso!


LIÇÕES



Das lições que aprendi na escola

muitas foram por obrigação.

Suas marcas não estão na alma

- se alojaram no currículo,

pra todos verem e elogiarem.

O que faz meus sentimentos

ferverem de madrugada,

não sai de diplomas

e porta-retratos.

Sai de lembranças

que tatuaram

- com pés de galinha -

o extrato do meu rosto.


A IMAGINAÇÃO DA SARACURA




Ao espiar o montão de arquivos esquecidos no computador, me deparei com esta história que meu filho, Giovanni, ajudou a escrever, quando ele tinha uns sete anos.


Era uma vez uma saracura que adorava passear, sempre vestida de saia.


Ela tinha pernas compridas e bumbum alto, igual um avião a jato.


Toda vez que ventava, ela levantava vôo e subia para o céu, pensando que era um balão.


Um dia o balão estourou e sua imaginação, que estava dentro do balão, saiu voando alegre por aí.


Imediatamente a saracura partiu à procura de sua imaginação. Voou para o sul, voou para o leste, para o oeste e, também, para o norte.


A saracura encontrou, finalmente, o primeiro pedaço de sua imaginação.


Nesse lugar havia uma flecha que apontava para baixo. A saracura voou nessa direção e, daí a pouco, encontrou uma cidade. Então a saracura procurou procurou, em cada uma das janelas das casas.


Na ultima janela a saracura encontrou cinco pedaços do quebra cabeça, cujo nome era “imaginação.”


A saracura saiu dali feliz da vida, achando que tinha recuperado a imaginação inteira, mas ela não sabia que o pior ainda estava por acontecer: o menino que, com uma flecha, tinha furado o balão da saracura, havia chegado em casa e visto que o balão da saracura era um troço que nem ele chamava de balão.


O menino saiu rapidamente de casa e foi atirando todas as flechas de brinquedo que ele tinha nas coisas que as pessoas tinham nas mãos.


A saracura fugiu e foi se esconder na floresta.


AS SEM-RAZÕES DO AMOR - Carlos Drummond de Andrade


Eu te amo porque te amo.

Não precisas ser amante

e nem sempre sabes sê-lo.

Eu te amo porque te amo.

Amor é estado de graça

e com amor não se paga.


Amor é dado de graça

é semeado no vento,

na cachoeira, no eclipse.

Amor foge a dicionários

e a regulamentos vários.


Eu te amo porque não amo

bastante ou demais a mim.

Porque amor não se troca,

não se conjuga nem se ama.

Porque amor é amor a nada,

feliz e forte em si mesmo.


Amor é primo da morte,

e da morte vencedor,

por mais que o matem (e matam)

a cada instante o amor.

Clipe