Blgueiro do ijui.com será o patrono da feira do livro de Ijuí/R.S


 
A abertura oficial da 23ª Feira do Livro Infantil do Sesc e da 20ª Feira do Livro de Ijuí acontece no dia 6 de novembro, às 20h, na Praça da República.

Durante o dia serão realizadas palestras e sessão de autógrafos com o jornalista, humorista e cartunista, Carlos Henrique Iotti. A solenidade de abertura contará com a apresentação artística do Centro Municipal de Arte e Educação Professor Pardal.

O patrono da Feira deste ano será o professor do Instituto Municipal de Ensino Assis Brasil, Américo Piovesan, que também é blogueiro do Portal ijuhy.com.

A feira deste ano se estende até o dia 11 de novembro. Peças de teatro, apresentações das escolas e o Concurso de História em Quadrinhos integram a programação.

A 23ª Feira do Livro Infantil do Sesc e a 20ª Feira do Livro de Ijuí serão realizadas na Praça da República. A Mostra de Trabalhos das Escolas é uma das atrações permanentes do evento. No dia 7 de novembro a programação contará com apresentações artísticas de escolas de todo o município, às 18h30 acontece o lançamento de publicações da Secretaria Municipal de Educação (Smed).

No dia 8 de novembro também serão realizadas apresentações artísticas e às 18h30 acontece o lançamento das publicações do “Letras fora da Gaveta”. A premiação do Concurso de História em Quadrinhos com o tema “De quadrinho em quadrinho desenhamos o mundo” será realizada no dia 10, às 9h.

O encerramento do evento será no dia 11 de novembro, e contará com brinquedos e mateada, além do show da Banda IDR, às 19h30.

Cisne



Na primavera
ele soltou
seu cisne



cria
motivos
sem qualquer
culpa

desculpas
pra mais um
brinde.

Arte do chá - Paulo Leminski



Ainda ontem
convidei um amigo
 para ficar em silêncio
comigo

 ele veio
meio a esmo
 praticamente não disse nada
e ficou por isso mesmo.

Eu sei, mas não devia - Marina Colasanti


Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.

A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.

O sino


Bate o sino
no domingo
me transformo
em menino.

meus ouvidos
são a porta 
de entrada
da infância...

Bate o sino
e seu mimo
me convida
a ser criança!

O dia das abelhas - David Coimbra

Mel é vômito de abelha. Disse isso para o meu filho, e ele adorou. Contou para os amigos na escolinha, mas eles não acharam tão divertido. A professora também não. 

– A profe disse que mel não é vomito (ele diz “vomito”). Mas é, né, papai? – É, sim!

E é. A abelha recolhe o néctar das flores e o “engole”, digamos assim. Dentro dela, enzimas e outras secreções próprias do seu corpinho são acrescentadas ao néctar e, enquanto ela voa alegremente para a colmeia, a mistura vai se transformando em mel, só que mel aguado.

Na colmeia, ela vomita a substância, que outra abelha suga. E vomita. Aí outra suga. E vomita de novo. Assim, de vômito em vômito, a coisa vai se transformando em mel. Então, chega um cara com uma roupa de tela, rouba todo o produto do trabalho das abelhinhas, envasa e vende no súper. Dias depois, você come o vômito com pão ao café da manhã.

Conto tudo isso em homenagem a essa data querida de hoje, o começo da Primavera. Hoje, como você sabe, o dia terá exatamente a mesma duração da noite. A partir de amanhã, os dias aumentarão e as minissaias encurtarão, até que cheguem os dias cálidos e os praianos se mudem para a orla. Mas, além da mudança de clima, você também sabe que, na Primavera, as flores desabrocham e se colorem e liberam seus olores, o que tem a ver, exata e precisamente, com as abelhas.

É que elas, as flores, enfeitam-se e perfumam-se todas pelo mesmo motivo que as fêmeas humanas se enfeitam e se perfumam: para se tornarem atraentes. No caso das flores, óbvio, elas não pretendem atrair nenhum galalau barbudo de vinte e poucos anos de idade, e sim... as abelhas!

São as abelhas que, ao sugar o néctar, se roçam no pólen, que fica grudado aos seus pequenos pés. Como elas passam o dia de flor em flor, levam pólen de uma para outra. E o pólen é, toscamente definindo, o esperma das flores. Logo, são as abelhas que fecundam as flores. Quando você vê uma abelha numa flor está, de certa forma, vendo uma cena de sexo vegetal, com a inclusão de um animal.

A primavera é mesmo uma festa. 

Fera adormecida


Foi uma princesa 
bela fera adormecida
era um dos sete anões
fiel sempre a segui-la
agora a bruxa 
com suas rugas
meio monstras
me encontra e me sorri
nem preciso me espelhar
pra saber que envelheci.

Paraíso


O pátio tem mato até o pescoço, 
e os vizinhos observam, desconfiados, 
eu receber a visita de cães, cobras, gatos e lagartos. 
- Vizinhos, os bichos daqui não são inimigos!
Eles ainda não foram expulsos do paraíso!

Poeta pateta!





Tudo corria bem, obrigado
até notar a flor amarela
na cabeça dela
aí eu fiquei grilado
uma flor desse tamanho
na sua cabeça castanha
até pensei dizer a ela
meu deslumbramento
com a descoberta
porém desisti, é claro,
não queria passar
por sujeito estranho
e até meio pateta
que ainda não descobriu
como se faz
pra ser poeta!

Passos de bailarina



As carinhas que cruzei na calçada, 
pareciam vacilar de-vagar pelas quebradas. 
Esquisita sina, não encontrei nenhum passo de bailarina.
Todo mundo anda com medo, 
ou isso é coisa de poeta louco, 
e só eu percebo?

Apólogo brasileiro sem véu de alegoria - Antônio de Alcântara Machado


O trenzinho recebeu em Maguari o pessoal do matadouro e tocou para Belém. Já era noite. Só se sentia o cheiro doce do sangue. As manchas na roupa dos passageiros ninguém via porque não havia luz. De vez em quando passava uma fagulha que a chaminé da locomotiva botava. E os vagões no escuro.
Trem misterioso. Noite fora noite dentro. O chefe vinha recolher os bilhetes de cigarro na boca. Chegava a passagem bem perto da ponta acesa e dava uma chupada para fazer mais luz. Via mal e mal a data e ia guardando no bolso. Havia sempre uns que gritavam:
 – Vá pisar no inferno! 
Ele pedia perdão (ou não pedia) e continuava seu caminho. Os vagões sacolejando.
O trenzinho seguia danado para Belém porque o maquinista não tinha jantado até aquela hora. Os que não dormiam aproveitando a escuridão conversavam e até gesticulavam por força do hábito brasileiro. Ou então cantavam, assobiavam. Só as mulheres se encolhiam com medo de algum desrespeito.
Noite sem lua nem nada. Os fósforos é que alumiavam um instante as caras cansadas e a pretidão feia caía de novo. Ninguém estranhava. Era assim mesmo todos os dias. O pessoal do matadouro já estava acostumado. Parecia trem de carga o trem de Maguari.
Porém aconteceu que no dia 6 de maio viajava no penúltimo banco do lado direito do segundo vagão um cego de óculos azuis. Cego baiano das margens do Verde de Baixo. Flautista de profissão, dera um concerto em Bragança. Parara em Maguari.
Voltava para Belém com setenta e quatrocentos no bolso. O taioca guia dele só dava uma folga no bocejo para cuspir.
Baiano velho estava contente. Primeiro deu uma cotovelada no secretário e puxou conversa. Puxou à toa porque não veio nada. Então principiou a assobiar. Assobiou uma valsa (dessas que vão subindo e depois descendo, vêm descendo), uma polca, um pedaço do “Trovador”. Ficou quieto uns tempos. De repente deu uma coisa nele. Perguntou para o rapaz:
– O jornal não dá nada sobre a sucessão presidencial?
O rapaz respondeu:
– Não sei: nós estamos nos escuro.
– No escuro?
– É.
Ficou matutando calado. Claríssimo que não compreendia bem. Perguntou de novo:
– Não tem luz?
Bocejo.
– Não tem.
 Cuspada.
Matutou mais um pouco. Perguntou de novo:
– O vagão está no escuro?
– Está.
De tanta indignação bateu com o porrete no soalho. E principiou a grita dele assim:
– Não pode ser! Estrada relaxada! Que é que faz que não acende? Não se pode viver sem luz! A luz é necessária! A luz é o maior Dom da natureza! Luz! Luz! Luz!
E a luz não foi feita. Continuou berrando:
– Luz! Luz! Luz!
Só a escuridão respondia.
Baiano velho estava fulo. Urrava. Vozes perguntaram dentro da noite:
– Que é que há?
Baiano velho trovejou:
– Não tem luz!
Vozes concordaram:
– Pois não tem mesmo.
Foi preciso explicar que era um desaforo. Homem não é bicho. Viver nas trevas é cuspir no progresso da humanidade. Depois a gente tem a obrigação de reagir contra os exploradores do povo. No preço da passagem está incluída a luz. O governo não toma providências? Não toma? A turba ignara fará valer seus direitos sem ele. Contra ele se necessário. Brasileiro é bom, é amigo da paz, é tudo quanto quiserem: mas bobo não. Chega um dia e a coisa pega fogo.
Todos gritavam discutindo com calor e palavrões. Um mulato propôs que se matasse o chefe do trem. Mas João Virgulino lembrou:
– Ele é pobre como a gente.
Outro sugeriu uma grande passeata em Belém com banda de música e discursos.
– Foguetes também?
– Foguetes também.
– Be-le-za!
Mas João Virgulino observou:
– Isso custa dinheiro.
– Que é que se vai fazer então?
Ninguém sabia. Isto é, João Virgulino sabia. Magarefe-chefe do matadouro de Maguari, tirou a faca da cinta e começou a esquartejar o banco de palhinha. Com todas as regras do ofício. Cortou um pedaço, jogou pela janela e disse:
– Dois quilos de lombo!
Cortou outro e disse:
– Quilo e meio de toicinho!
Todos os passageiros magarefes e auxiliares imitaram o chefe. Os instintos carniceiros se satisfazem plenamente. A indignação virou alegria. Era cortar e jogar pelas janelas. Parecia um serviço organizado. Ordens partiam de todos os lados. Com piadas, risadas, gargalhadas.
– Quantas reses, Zé Bento?
– Eu estou na quarta, Zé Bento!
Baiano velho quando percebeu a história pulou de contente. O chefe do trem correu quase que chorando.
– Que é isso? Que é isso? É por causa da luz?
Baiano velho respondeu:
– É por causa das trevas!
O chefe do trem suplicava:
– Calma! Calma! Eu arranjo umas velinhas.
João Virgulino percorria os vagões apalpando os bancos.
– Aqui ainda tem uns três quilos de colchão mole!
O chefe do trem foi para o cubículo dele e se fechou por dentro rezando. Belém já estava perto. Dos bancos só restava armação de ferro. Os passageiros de pé contavam façanhas. Baiano velho tocava a marcha de sua lavra chamada Às armas cidadãos! O taioquinha embrulhava no jornal a faca surrupiada na confusão.
Tocando a sineta o trem de Maguari fungou na estação de Belém. Em dois tempos os vagões se esvaziaram. O último a sair foi o chefe muito pálido.
Belém vibrou com a história. Os jornais afixaram cartazes. Era assim o título de um: Os passageiros no trem de Maguari amotinaram-se jogando os assentos ao leito da estrada. Mas foi substituído porque se prestava a interpretações que feriam de frente o decoro das famílias. Diante do teatro da paz houve um conflito sangrento entre populares.
Dada a queixa à polícia foi iniciado o inquérito para apurar as responsabilidades.
Perante grande número de advogados, representantes da imprensa, curiosos e pessoas gradas, o delegado ouviu vários passageiros. Todos se mantiveram na negativa menos um que se declarou protestante e trazia um exemplar da Bíblia no bolso. O delegado perguntou: 
– Qual a causa verdadeira do motim?
O homem respondeu:
– A causa verdadeira do motim foi a falta de luz nos vagões.
O delegado olhou firme nos olhos do passageiro e continuou:
– Quem encabeçou o movimento?
Em meio da ansiosa expectativa dos presentes o homem revelou:
– Quem encabeçou o movimento foi um cego!
Quis jurar sobre a Bíblia mas foi imediatamente recolhido ao xadrez porque com a autoridade não se brinca.

Histórias de humor. São Paulo: Scipione, 2004. 

Quando penso em você



Quando penso em você
quero que penses em mim
não é humano a saudade doer assim....
Acredite no que eu falo, "eu gosto de você"
embora a vontade  de chorar e rir
venha me distrair...
Penso em você, sinto que pensas em mim, 
não é humano a saudade doer assim!

Ismália - Alphonsus de Guimaraens




Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar...
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.

No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar...
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar...

E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar...
Estava perto do céu,
Estava longe do mar...

E como um anjo pendeu
As asas para voar...
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar...

As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par...
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar...

O repórter policial - Stanislaw Ponte Preta



Vi hoje a foto no jornal Zero Hora, de Porto Alegre. Confesso que senti náuseas. A publicação dessa foto não poderia ser evitada? Por que tanta necessidade de sensacionalismo? Apenas para vender jornal? Agora eu encontrei a mesma foto no google. Aí está.
O texto abaixo, do Stanislaw Ponte Preta, ajuda a pensarmos um pouco sobre parte de nossa imprensa.
 
O reporter policial, tal como o locutor esportivo, é um camarada que fala uma língua especial. Imposta pela contingência: quanto mais cocoroca, melhor.
Assim como o locutor esportivo jamais chamou nada pelo nome comum, assim também o repórter policial é um entortado literario. Nessa classe, os que se prezam nunca chamariam um hospital de hospital. De jeito nenhum. É nosocômio. Nunca, em tempo algum, qualquer vítima de atropelamento, tentativa de morte, conflito, briga ou simples indisposição intestinal, foi parar num hospital. Só vai pra nosocômio.
 
E assim sucessivamente. Qualquer cidadão que vai à policia prestar declarações que possam ajudá-la numa diligência (apelido que eles puseram no ato de investigar), é logo apelidado de testemunha-chave. Suspeito é Mister X. advogado é causídico, soldado é militar, marinheiro é naval, copeira é doméstica e, conforme esteja deitada a vítima de um crime - de costas ou de barriga pra baixo - fica numa destas duas incômodas posições: decúbito dorsal ou decúbito ventral.
 
Num crime descrito pela imprensa sangrenta, a vítima nunca se vestiu. A vítima trajava. Todo mundo se veste, tirante a Luz del Fuego, mas basta virar vitima de crime, que a rapaziada sacha ignora o verbo comum e mete lá: a vítima trajava terno azul e gravata do mesmo tom. Eis, portanto, que é preciso estar acostumado ao metier para morar no noticiario policial. Como os locutores esportivos, a Delegacia do Imposto de Renda, os guardas de trânsito, as mulheres dos outros, os repórteres policiais nasceram para complicar a vida da gente. Se um porco morde a perna de um caixeiro de uma dessas casas da banha, por exemplo, é batata... a manchete no dia seguinte dá lá: Suíno atacou comerciante.
 
Outro detalhezinho interessante: se a vítima de uma agressão morre, tá legal, mas se - ao contrário - em vez de morrer fica estendida no asfalto, está indefectivelmente prostrada. Podia estar caída, derrubada ou mesmo derribada, mas um repórter de crime não vai trair a classe assim à toa. E castiga na página: "Naval prostrou desafeto com certeira facada". Desafeto - para os que são novos na turma devemos explicar que é inimigo, adversário etc. E mais: se morre na hora, tá certo; do contrário, morrerá invariavelmente ao dar entrada na sala de operações.
 
De como vive a imprensa sangrenta, é fácil explicar. Vive da desgraça alheia, em fotos ampliadas. Um repórter de polícia, quando está sem notícia, fica na redação, telefonando pras delegacias distritais ou para os hospitais, perdão, para os nosocomios, onde sempre tem um cumpincha de plantão. O cumpincha atende lá, e ele fala: "Alô, é do Quinto? Fala Fulano. Alguma novidade? O quê? Estupro? Oba! Vou já para aí. Ou então é pro pronto-socorro: Alô. É Fulano, da Luta. Sim. Atropelamento? Ah... mas sem fratura exposta não interessa. E há também a concorrência entre os coleguinhas da crônica sangrenta, primo Altamirando, quando trabalhou nesse setor, se fez notar pela sua indiscutível capacidade profissional para o posto. Um dia, ele telefonou para o secretario do jornal:

- Alô, quem está falando é Mirinho. Olha, manda um fotógrafo aqui na estação de Cordovil, pra fotografar um cara.
 - Que é que houve?

- Foi atropelado pelo trem, está todo esmigalhado. Vai dar uma fotografia linda para a primeira página.

- O cadáver está sem cabeça?
 
-Não.
 - Então não vale a pena.
 -Não diga isso, chefe. Mande o fotógrafo que, até ele chegar, eu dou jeito de arrancar a cabeça do falecido.
 
 
do livro  Dois amigos e um chato. São Paulo: Moderna, 1986.

Samba do approach - Zeca Baleiro




Venha provar meu brunch
Saiba que eu tenho approach
Na hora do rush
Eu ando de ferryboat...

Eu tenho savoir-faire
Meu temperamento é light
Minha casa é hi-tech
Toda hora rola um insight
Já fui fã do Jethro Tull
Hoje me amarro no Slash
Minha vida agora é cool
Meu passado é que foi trash...


Fica ligado no link
Que eu vou confessar, my love
Depois do décimo drink
Só um bom e velho engov
Eu tirei o meu green card
E fui pra Miami Beach
Posso não ser pop-star
Mas já sou um noveau riche...

Eu tenho sex-appeal
Saca só meu background
Veloz como Damon Hill
Tenaz como Fittipaldi
Não dispenso um happy end
Quero jogar no dream team
De dia um macho man
E de noite drag queen...

Mistério


Quando segurou minha mão
as duas teimaram em ficar.
Não sei se foi o clic de um mistério
ou a rebeldia de um desejo vespertino...
 a fração de segundo conseguiu acelerar 
                        o trem do meu coração.

Quero sofrer por amor




Quero dosar as emoções
              fazer a catarse 
                         correta

que resta a um poeta.

Sofrer por amor
não sofrer por futebol

e mandar para o inferno
                        a inveja
                          a gula 
                        o medo

me embriagar de amigos
                           amores
                          e humor

seus prazeres
              flores
      e segredos

não quero ser escravo
            e propriedade

não quero me submeter 
a qualquer feudo

quero teu amor
aleatório e casual
amor de ano novo
férias e carnaval...

Você é importante - Ricardo Azevedo



Mesmo se eu te abandonar
mesmo se eu te disser não
mesmo se eu ficar louco
e quebro tudo no chão

Mesmo se eu me encontrar
mesmo quando eu te perder
mesmo se eu nunca explicar
por que eu dei o fora

Você precisa saber
você precisa entender
pode me ouvir um instante?
Você é importante

Mas se um dia eu voltar
(tudo pode acontecer)
sei que corro o risco 
de quebrar a cara

Se você me maltratar
me ferir, me desprezar
pode me ouvir um instante?
Você é, mesmo assim
você é importante

Do livro, Ninguém sabe o que é um poema. Abril Educação.

Mensagem



Procurava na agenda o número do telefone da pizzaria, e dei de cara com o número do celular de um amigo, que falecera dois dias antes.
Tive a idéia de ligar para ele, mas só de pensar na possibilidade de ouvir sua voz, me deu calafrios.
Minha vontade foi contida pelo medo de despertar, com tal gesto, a ira da morte. E na hora me veio a verdade inquestionável – e a morte de meu amigo foi um exemplo disso – de que a morte quase sempre não manda aviso prévio. Ela nos pega desprevenidos.
Minha brincadeira sinistra recebeu o merecido troco. Ao ligar para o número do amigo que faleceu, o silêncio do outro lado da linha foi quebrado pela seguinte mensagem da morte: “Vou ficar mais um pouco na área de vocês, analisando, observando,... Quero saber se vocês merecem desfrutar da plenitude da vida, que só pode experimentar quem está vivo!”.

Suando na turbulência desses pensamentos malucos, lembrei da crônica Mensagem, da Heloisa Seixas, que reproduzo a seguir.

MENSAGEM

Ficou chocado quando recebeu o telefonema sobre a morte da amiga. Ele a conhecia havia muitos anos e nunca soubera que tivesse doença alguma. Era uma mulher relativamente jovem, bonita, que se cuidava. Muitas vezes caminhava com ele pela praia, sempre animada e contando casos engraçados. Tinham estado juntos poucos dias antes. Como é possível, perguntou ao amigo comum que lhe dava a notícia, ele também perplexo. Foi um mal súbito, respondeu o outro.
Mal súbito. A expressão ficou ressoando em seu ouvido. Era a junção de duas palavras fortes, incontornáveis em seu sentido, que resumiam com tirania aquela morte para ele absurda. Mal súbito. Não podia acreditar.
Passaram-se alguns minutos e ele ali, parado junto ao telefone, olhando para o aparelho como se esperasse ver brotar de seus fios a explicação que buscava. De repente, tomou um susto. Tão confuso ficou ao receber a notícia, que não havia perguntado nada sobre o horário e local do enterro. Folheou com dedos úmidos o caderno de telefones, procurando o número do conhecido que acabara de ligar. E, sem querer, abriu justamente na página que trazia o telefone da amiga morta. Estremeceu, olhando aquele nome, seguido de algarismos que já não faziam sentido. Seus olhos ficaram turvos.
Mas em seguida pensou que talvez fosse melhor ligar para a casa dela. Ela morava sozinha, é verdade, mas com toda a certeza haveria alguém da família atendendo ao telefone, justamente para informar sobre o enterro. Talvez, ligando para lá, ele soubesse mais alguma coisa, algum detalhe que o ajudasse a aceitar o que acontecera.
Ligou. O telefone tocou uma, duas, três vezes e, em seguida, após um clique, ele ouviu a última coisa que esperava ouvir – a voz da amiga.
Por um instante, ficou imóvel, apertando o bocal, os dedos muito brancos, enquanto a voz suave da mulher morta falava com ele. Claro que num segundo se recuperou.. Claro que percebeu logo ser apenas a voz dela gravada na secretária eletrônica – que continuara ligada.
Mas, passado o primeiro susto, redobrou a atenção. Começou não apenas a ouvir, mas também a escutar o que ela dizia. E constatou que não era uma mensagem comum, apressada, como as que são gravadas pela maioria das pessoas. A amiga deixara gravada na secretária eletrônica um recado lírico, como um poema, que, curiosamente, até então ele nunca ouvira. No fim, ela dizia que não estava, mas que logo voltaria – e eles se reencontrariam. E era como se houvesse, por trás de suas palavras, um sorriso. Como se falasse de verdade com ele, a ele se dirigisse. E era como se dissesse que estava feliz.
Ele próprio sorria também ao repor o fone no gancho, os olhos ainda úmidos. Estava pacificado.

Eloísa Seixas, do livro Contos mínimos, Editora BestSeller.


Clipe