VERSÕES - L. F. Verissimo


li e debati a história do Verissimo com meus alunos de primeiro ano de Ensino Médio. Nos detivemos na "evolução" das decisões que a donzela tomou com passar do tempo, ao encontrar um sapo em seu caminho.
Visando despertar a criatividade e buscar sempre a originalidade, pedi aos alunos que escrevessem (inventassem sua versão para este encontro da princesa e com o sapo). Separei alguns textos, que considerei mais criativos. Penso que estes textos necessitam de reescrita, que seus autores dediquem a mais algum tempo, e também com um certo distanciamento. Quem sabe outro dia traga para este espaço as versões destes alunos. Um de nossos maiores objetivos era mostrar-lhes a inter-textualidade, que o Veríssimo pratica na suas histórias.





Era uma vez uma donzela que caminhava pela beira de um rio quando ouviu um "psiu". Era um sapo, que lhe contou que na verdade era um príncipe amaldiçoado, transformado em sapo por uma bruxa malvada com poderes mágicos. Se a donzela o beijasse, o sapo voltaria a ser príncipe. A donzela acreditou no sapo, beijou-o, ele se transformou de novo em príncipe e os dois se casaram e viveram felizes para sempre.


 Anos depois outra donzela teve a mesma experiência. Ouviu a mesma história, sobre a maldição da bruxa que transformava qualquer coisa em outra coisa e fizera o príncipe virar sapo. A donzela concordou em beijar o sapo para livrá-lo da maldição, com uma condição:


- Beijo de língua, não.


E viveram felizes para sempre.


 Muitos anos mais tarde, depois da revolução industrial, uma donzela desempregada caminhava pela beira do rio e ouviu a mesma história de um sapo. Concordou em beijá-lo, mas o sapo se transformou num príncipe muito feio, talvez devido à poluição do rio. A donzela protestou e ouviu do príncipe:


- Ué, pra quem já beijou sapo!


Mas casaram-se e tiveram uma vida difícil para sempre, porque o príncipe, inclusive, perdera tudo com o fim do feudalismo.




Já neste século, a mesma história. "Psiu", sapo, bruxa com poderes mágicos, beijo, tudo igual. Com apenas um instante de hesitação até que se esclarecesse um ponto:


- Precisa ser donzela?


Não precisava. Casaram-se e viveram etc.


 Anos sessenta. A mesma história, com uma variação: a moça era feminista. Ouviu o que a bruxa com poderes mágicos que transformava qualquer coisa em outra coisa fizera com o príncipe, e concluiu:


- Alguma você andou aprontando!


E solidarizou-se com a bruxa e chutou o sapo.


 Jovem empresária caminhando pela beira do rio artificial do seu condomínio fechado ouve o "psiu", depois a conversa do sapo, e - diante dos protestos do sapo - raciocina em voz alta:


- Um príncipe, hoje, não vale muita coisa. Mas imagina o que eu posso ganhar com um sapo falante, só em cachês!


E ela fez muito dinheiro e viveu feliz com o sapo numa gaiola para sempre.


 Anteontem. Jovem ouviu a proposta do sapo mas não decidiu em seguida. Procurou seu consultor financeiro, que lhe lembrou que nada é mais valioso no mercado, hoje, do que informação privilegiada como a que o sapo lhe passara.


E aconselhou:


- Esqueça o sapo e encontre essa bruxa!


Com seus poderes mágicos a bruxa poderia transformar moeda fraca em moeda forte, nominativas em preferenciais.. Era a solução para a crise!

Zero Hora, 23/02/2009









OS COLEGAS - Lygia Bojunga Nunes


No princípio eram só os dois. Tinham se encontrado pela primeira vez revirando a mesma lata de lixo.
- Esse osso que tem aí é meu!
- É meu!
- Já disse que é meu!

Se zangaram. Rosnaram um pro outro.
- Larga o osso!
- De jeito nenhum!
- Tô dizendo pra largar!
E então se atracaram dispostos a uma briga feia.

Foi quando passou por ali um garoto assobiando um samba.
Os dois interromperam a briga e começaram a prestar atenção na música que ele assobiava.
- Tá errado! - disse um deles pro garoto.
- Esse samba não é assim; é assim! - disse o outro. E começou a cantarolar certo a melodia.

O garoto nem ligou, foi embora. Mas os dois ficaram cantando a música até o fim. E depois um deles disse:
- Acho esse samba o máximo.
- Legal! - falou o outro.
- Sabe? Coisa que eu gosto é de fazer samba.
- Ah, é? Então somos colegas.

Esqueceram o osso e a briga. Sentaram no meio-fio e começaram a falar de samba. Ficaram muito interessados um no outro.
- Como é que você se chama?
- Não sei. Ninguém me chama pra eu saber como é que eu me chamo. E você?
- Vira-lata.
- Quem é que chama você assim?
- Chamar ninguém chama. Mas gritam "Sai daí seu vira-lata! Acerta uma pedra nesse vira-lata!"
- Bom, isso tudo eu também tô sempre ouvindo.
- Então pronto: você também se chama Vira-lata.

Se olharam melhor pra ver como é que eram: malhados, e o tamanho mais ou menos o mesmo, mas um tinha o rabo mais curtinho, uma orelha sempre em pé e a outra sempre caída; o outro tinha mais manchas no corpo e o cacoete de piscar o olho esquerdo.

Continuaram a conversar. Foram vendo que gostavam das mesmas coisas: futebol, praia, carnaval. Gostavam também de bater papo e de ficar olhando os barcos no mar.

- Acho que a gente vai acabar ficando amigo.
- Tá parecendo.

Dividiram o osso.

- Onde é que você mora?
- Num terreno baldio lá perto da praia.
- Tem casa?
- Não, mas tem um monte de entulho bom mesmo.
- Bom pra quê?
- Pra gente cavar quando quer, se esconder atrás quando precisa, fingir de casa quando cisma.
- Vou lá ver.

Quando chegou gostou um bocado do lugar.
- Tá me dando uma vontade de cismar que é minha casa...

Acabou cismando.

HAVIA



Na boca do menino havia
um cordão uma unha um dedão

No pulso havia
uma pulseira do seu time
do coração.

Lembro,
havia árvore
florescendo no quintal
e a banda do colégio
alegrava a Semana da Pátria.

havia feriados
e os meninos perdidos
com tantos brinquedos.

Havia céus de nuvens escuras
véus de cabeças feitas perfeitas
na economia lazer e política havia
previsão do tempo im-perfeita.

Havia tanta coisa
num tempo que eu hesitei
tempo precioso 
que foi e se esvai...

O que perdemos
o que ganhamos
não sei se você sabe
eu já não sei!

ESSAS MENINAS - Carlos Drummond de Andrade



As alegres meninas que passam na rua, com suas pastas escolares, às vezes com os seus namorados. As alegres meninas que estão sempre rindo, comentando o besouro que entrou na classe e pousou no vestido da professora; essas meninas; essas coisas sem importância.

O uniforme as despersonaliza, mas o riso de cada uma as diferencia. Riem alto, riem musical, riem desafinado, riem sem motivo; riem.

Hoje de manhã estavam sérias, era como se nunca mais voltassem a rir e falar coisas sem importância. Faltava uma delas. O jornal dera notícia do crime. O corpo da menina encontrada naquelas condições, em lugar ermo.A selvageria de um tempo que não deixa mais rir.

As alegres meninas, agora sérias, tornaram-se adultas de uma hora para outra; essas mulheres.

SÓ A PURA VERDADE - Hans Christian Andersen




Hoje em dia, todos temos acesso a todos (internet, celular...). Por todo lugar a informação nos persegue. David Coimbra, no jornal
Z. H. de 20 de agosto de 2010, diz que "a opinião dos outros está sempre pairando diante dos seus olhos. O mundo exterior jamais fica longe de você (...). O assunto do momento não é notícia; é obsessão. As pessoas são contra ou a favor e quem não concorda com elas é inimigo".

Há um provérbio que diz: "Quem conta um conto aumenta um ponto". E outro diz: "Cada cabeça uma sentença". Parece que um dos traços atraentes (e difíceis) da convivência entre as pessoas é a diversidade de opiniões sobre o mesmo fato.

Andersen (1805-1875), que se tornou um clássico da literatura, parece ir nessa direção, no conto Só a pura verdade.
 
 

Que coisa horrível! - disse uma Galinha, no outro extremo da cidade, bem longe do bairro onde a história se passara - é horrível o que houve no galinheiro! Nem arrisco a dormir sozinha esta noite. Ainda bem que somos muitas no poleiro.


E passou a contar o ocorrido, fazendo arrepiar as penas das outras galinhas, a cair a crista do Galo. E era tudo verdade, só a pura verdade.


Mas vamos começar do começo, que ocorreu no extremo oposto da cidade. O Sol desceu e as galinhas subiram. Uma delas, de penas brancas, e pernas curtas, punha os ovos regularmente e, como galinha, era respeitável em todos os sentidos. Chegada ao poleiro, começou a catar-se com o bico. Caiu ao chão uma peninha.


- Lá se foi uma pena! - disse ela - parece que, quanto mais me cato, tanto mais bonita vou ficando - acrescentou, por brincadeira, pois era ela o espírito mais alegre da galinhada, embora fosse, conforme já foi dito, criatura de todo o respeito. E logo adormeceu.


Era escuro ao redor. As galinhas estavam enfileiradas, lado a lado, e a que lhe estava mais próxima não dormia. Ela ouviu, e ao mesmo tempo não ouviu, como convém, para se viver em paz neste mundo. Mas teve, assim mesmo, de confiar à outra vizinha o que ouvira.


- Ouviste o que foi dito aqui! - cochichou - não vou dizer o nome de ninguém, mas há aqui uma Galinha que quer arrancar as próprias penas para ficar bonita. Se eu fosse Galo, a desprezaria.


Logo adiante, pouco acima das galinhas, estava pousada a Coruja, com o Corujão e as corujinhas. Naquela família, sim, todos tinham bons ouvidos. Ouviram cada palavra dita pela Galinha. Viraram os olhos e dona Coruja abanou-se com as asas.


- É feio escutar o que dizem os outros! - começou ela - mas, naturalmente, todos ouviram o que disse a Galinha. Eu o ouvi com os meus próprios ouvidos, e deve-se escutar, antes que caiam as orelhas. Uma das galinhas esqueceu a tal ponto a decência, que está tirando todas as penas e deixa o Galo ver tudo.


- Prenez garde aux enfants! - disse papai Corujão - isso não é conversa para crianças ouvirem.


- Preciso contar o caso à coruja vizinha, senhora séria e respeitável.
Dona Coruja saiu voando.


- Hu-hu! Uhu-uhu-uhu! - riram as duas, juntas, pouco depois.


Achavam-se um pouco acima do pombal do vizinho, e as pombas ouviram-nas comentar o caso:


- Ouviram esta? Ouçam, que esta é muito boa! Há aí uma Galinha que arrancou todas as penas por causa do Galo! Vai morrer de frio, se é que já não morreu. Huuu - huuuu!


- Onde? Onde? Onde? - arrulharam as pombas.


- No galinheiro do vizinho. É como se eu mesma o tivesse visto. É coisa que quase nem se devia contar, pois é um tanto indecente. Mas é a pura verdade!


- Ora, ora, ora! - arrulharam de novo as pombas.


E passaram a história adiante.


- Há uma Galinha - há quem diga que são duas - que arrancou todas as penas para não ser igual às outras e chamar a atenção do Galo. É uma brincadeira arriscada, pois apanhar um resfriado é o que há de mais fácil, e morrer de febre é o que menos custa. De fato, já morreram, as duas...


- Acordem! Acordem! cantou o Galo, voando para o alto do cercado.


O sono ainda lhe pesava nos olhos, mas apesar disso ele cantava:


- Morreram três galinhas, de infeliz paixão por um Galo. Elas arrancaram todas as penas. É uma história muito feia, não quero guardá-la comigo. Que vá adiante!


- Deixa que vá adiante - piaram os morcegos.


- Deixa que vá! Deixa que vá! - cacarejaram as outras galinhas.


A história foi assim circulando, de galinheiro em galinheiro, e, por fim, voltou ao local de onde viera.


- São cinco galinhas - contavam - todas arrancaram as penas para mostrar qual delas tinha emagrecido mais de paixão pelo Galo. Depois brigaram, de tirar sangue, e se mataram de bicadas. Ficaram mortas no terreiro. Foi uma ignomínia para a família delas, e um grande prejuízo para o dono do galinheiro.


Então, a galinha que perdera uma única peninha ao catar-se, não reconheceu a sua própria história, e como fosse uma galinha respeitável, disse lá com os seus botões:


- Desprezo as galinhas como essas. Mas não serão as últimas. Há muitas mais dessa marca. Não se deve silenciar sobre tais coisas. Farei o que eu puder para que essa história saia nos jornais e corra o país todo. É o que merecem essas galinhas e também a família delas.


E a história saiu nos jornais, foi impressa, e uma coisa é verdadeira: uma única peninha pode facilmente transformar-se em cinco galinhas.

DA UTILIDADE DOS ANIMAIS - Carlos Drummond de Andrade




Terceiro dia de aula. A professora é um amor. Na sala, estampas coloridas mostram animais de todos os feitios. É preciso querer bem a eles, diz a professora, com um sorriso que envolve toda a fauna, protegendo-a. Eles têm direito à vida, como nós, e além disso são muito úteis. Quem não sabe que o cachorro é o maior amigo da gente? Cachorro faz muita falta. Mas não é só ele não. A galinha, o peixe, a vaca… Todos ajudam.


- Aquele cabeludo ali, professora, também ajuda?


- Aquele? É o iaque, um boi da Ásia Central. Aquele serve de montaria e de burro de carga. Do pêlo se fazem perucas bacanas. E a carne, dizem que é gostosa.


- Mas se serve de montaria, como é que a gente vai comer ele?


- Bem, primeiro serve para uma coisa, depois para outra. Vamos adiante. Este é o texugo. Se vocês quiserem pintar a parede do quarto, escolham pincel de texugo. Parece que é ótimo.


- Ele faz pincel, professora?


- Quem, o texugo? Não, só fornece o pêlo. Para pincel de barba também, que o Arturzinho vai usar quando crescer.


Arturzinho objetou que pretende usar barbeador elétrico. Além do mais, não gostaria de pelar o texugo, uma vez que devemos gostar dele, mas a professora já explicava a utilidade do canguru:


- Bolsas, mala, maletas, tudo isso o couro do canguru dá pra gente. Não falando da carne. Canguru é utilíssimo.


- Vivo, fessora?


- A vicunha, que vocês estão vendo aí, produz… produz é maneira de dizer, ela fornece, ou por outra, com o pêlo dela nós preparamos ponchos, mantas, cobertores, etc.


- Depois a gente come a vicunha, né fessora?


- Daniel, não é preciso comer todos os animais. Basta retirar a lã da vicunha, que torna a crescer…


- A gente torna a cortar? Ela não tem sossego, tadinha.


- Vejam agora como a zebra é camarada. Trabalha no circo, e seu couro listrado serve para forro de cadeira, de almofada e para tapete. Também se aproveita a carne, sabem?


- A carne também é listrada?- pergunta que desencadeia riso geral.


- Não riam da Betty, ela é uma garota que quer saber direito as coisas. Querida, eu nunca vi carne de zebra no açougue, mas posso garantir que não é listrada. Se fosse, não deixaria de ser comestível por causa disto. Ah, o pingüim? Este vocês já conhecem da praia do Leblon, onde costuma aparecer, trazido pela correnteza. Pensam que só serve para brincar? Estão enganados. Vocês devem respeitar o bichinho. O excremento – não sabem o que é? O cocô do pingüim é um adubo maravilhoso: guano, rico em nitrato. O óleo feito da gordura do pingüim…


- A senhora disse que a gente deve respeitar.


- Claro. Mas o óleo é bom.


- Do javali, professora, duvido que a gente lucre alguma coisa.


- Pois lucra. O pêlo dá escovas é de ótima qualidade.


- E o castor?


- Pois quando voltar a moda do chapéu para os homens, o castor vai prestar muito serviço. Aliás, já presta, com a pele usada para agasalhos. É o que se pode chamar de um bom exemplo.


- Eu, hem?


- Dos chifres do rinoceronte, Belá, você pode encomendar um vaso raro para o living da sua casa.


Do couro da girafa Luís Gabriel pode tirar um escudo de verdade, deixando os pêlos da cauda para Tereza fazer um bracelete genial. A tartaruga-marinha, meu Deus, é de uma utilidade que vocês não cauculam. Comem-se os ovos e toma-se a sopa: uma de-lí-cia. O casco serve para fabricar pentes, cigarreiras, tanta coisa. O biguá é engraçado.


- Engraçado, como?


- Apanha peixe pra gente.


- Apanha e entrega, professora?


- Não é bem assim. Você bota um anel no pescoço dele, e o biguá pega o peixe mas não pode engolir. Então você tira o peixe da goela do biguá.


- Bobo que ele é.


- Não. É útil. Ai de nós se não fossem os animais que nos ajudam de todas as maneiras. Por isso que eu digo: devemos amar os animais, e não maltratá-los de jeito nenhum. Entendeu, Ricardo?


- Entendi, a gente deve amar, respeitar, pelar e comer os animais, e aproveitar bem o pêlo, o couro e os ossos.

IDIOSSINCRASIAS ULTRACREPIDÁRIAS





Se não tenho certeza de que o que penso seja verdade, devo deixar de opinar?

Mas a opinião não se emancipou da verdade?

A verdade é propriedade da tradição?

Nossos pais, avós, especialistas, autoridades, detêm exclusividade sobre ela?

Einstein, aos vinte e quatro anos, revolucionou, na sua época, a teoria física. Efetuou uma ruptura com a tradição. E a verdade precisou então olhar para frente, e dar um grande giro sobre suas bases anteriores de sustentação.

Hoje, o filósofo alemão Habermas diz que devemos efetuar um “giro lingüístico”. Quer dizer, mais comunicação, entendimento verbal com os outros, sem a muleta da autoridade e da violência. Claro, com a luz da lanterna apontando para o horizonte da clareza e coerência dos argumentos.

Habermas propõe um "agir comunicativo" que não seja refém dos personalismos, egoísmos, idiossincrasias.


Se a verdade depender dos especialistas, até que ponto não estaremos fritos (até no sentido do aquecimento global, por exemplo...)?

É que os especialistas têm um conhecimento profundo, mas estreito. Ao se especializarem, abriram mão de uma visão da totalidade, desejando a profundidade.

O problema é que as questões que envolvem nosso papel e lugar nesse tempo e espaço não dependem dos especialistas, mas da discussão pública em busca de soluções para os problemas que não são individuais, e sim globais.

Obviamente, a comunicação virtual tem andado apressada, com suas diversas faces, côncavas e convexas. Mesmo rasteira e simultânea, não vacila em abordar temas polêmicos e/ou complexos, que inflamam nossas paixões.

Muitas abordagens parecem mais “abortagens”, discursos prematuros, meio pré-refletidos.

É que a comunicação virtual mexe, provoca, nossos impulsos de parecer/aparecer, isto é, queremos ser notados – e o quanto antes melhor.

Há um descompasso: o tempo virtual é instantâneo, embora acionado pelo tempo subjetivo (nossa consciência). Mas esta precisa, necessariamente, de tempo para pensar.

Para ela decidir, a consciência, é fundamental que pare para pensar– como diziam nossos pais: conte até dez, para não agir levado pelo impulso.

Assim... vamos abrir o olho para não sermos escravos da tradição, dos especialistas e das idiossincrasias ultracrepidárias!

ESSE PEQUENO MUNDO - Pedro Bandeira


Sei que o mundo é mais que a casa,
mais que a rua,  mais que a escola,
mais que mãe e mais que pai.

Vai além do horizonte,
que eu desenho no caderno,
como linha reta e preta,
que separa azul de verde.

Sei que é muito, sei que é grande,
sei que é cheio, sei que é vasto.

Me disseram que é uma bola,
que flutua pelo espaço,
atirada pelo chute
de um gigante poderoso;
vai direto para um gol,
que ninguém sabe onde é.

Mas pra mim o que mais conta
é este mundo que eu conheço
e que cabe direitinho
bem debaixo do meu pé.

do livro Cavalgando o arco-íris. São Paulo, Moderna, 1984.

QUADRILHA



Quando fui abandonado
deitei e dormi
para fugir do medo.

Quando o frio acordou a solidão
ergui-me num salto
repensando meus planos.

Quando meus sonhos
dançaram quadrilhas
nos ladrilhos
do meu quarto

amei de vez Fulana
que amou de vez Ciclano
que amou de vez a Outra
de um amante insaciável.

Matei a fome dos desencontros
com punhados de amores.
Tudo eu quis. Pudera.
Se eu tiver nessa vida
todos os amores do mundo
estarei onde estiver
a primavera.

TATU - L. F. Verissimo

Li que a Cleo Pires mandou fazer a tatuagem de um verso do Fernando Pessoa num, se entendi bem, quadril, para ser fotografada para a "Playboy". A tatuagem é provisória, mas Cleo Pires pode muito bem estar inaugurando um novo espaço para a literatura. Você não abriria mais a Playboy só para ver mulher nua, teria material de leitura na própria mulher nua. Um hai-kai em cada seio, Drummond e Bandeira nas nádegas, um resumo da Odisseia começando no pescoço, circundando o umbigo como se fosse a ilha de Calipso e desaparecendo no púbis, ou no retorno simbólico de Ulisses ao lar e ao aconchego de Penélope. Você poderia elogiar a artista pelada do mês mas discutir a sua escolha de textos (“Kafka nas coxas?!”). E ter uma desculpa pronta ao ser flagrado espiando uma nua da Playboy escondido.



– Nem notei a mulher. Eu estava lendo o autor novo no seu pé.


A tatuagem é a mais nova forma de arte do mundo – embora não tenha nada de novo. O próprio nome, “tatu”, vem da prática de perfuração da pele que o Capitão Cook já encontrou no Tahiti e em outras ilhas dos mares do Sul no século dezoito. Na China antiga o ideograma para tatuagem era “wen”, que queria dizer tanto escrita quanto sabedoria, e as palavras que cobriam um corpo humano eram uma espécie de prece permanente, ou uma maneira de manter contato com os poderes divinos depois de um processo de iniciação. Os tatuados pertenciam a uma irmandade exclusiva, o que não é o caso hoje, quando todos estão se tatuando, por nenhuma razão superior e nem sempre com muita sabedoria.


Os casos mais evidentes de imprevidência tatuada são os nomes de amantes gravados sob corações entrelaçados, quando não havia dúvida que o amor seria eterno, e que precisam ser apagados quando o amor acaba. E imagino que atrizes e atores que cobrem seus corpos com tatuagens estejam conscientemente limitando a sua escolha de papéis. Adão e Eva, por exemplo, nem pensar, a não ser numa versão muito livre do Gênesis.


Mas não deixa de ser fascinante esta nova forma de arte, feita não em papel ou tela – ou nas paredes, como o grafite, a outra forma de arte a que ela mais se assemelha –, mas na pele do corpo. Mistura de decoração, assertiva pessoal, autossacrifício e kitsch assumido. Arte feita com cicatrizes. Ou arte evanescente, como no caso da poesia no belo costado da Cleo Pires.

Zero Hora, segunda-feira, 9 de agosto de 2010

ESCOLA DE BEM-TE-VIS - Cecília Meireles


Muitos textos que encontro circulando por aí, seja em jornais impressos ou on line, denunciam a falta de imaginação de seus articulistas. Ou mais do que isso: a falta de uma base sólida de leitura de bons livros.
Há jornais que dão  a impressão de que foram escritos, do início ao fim, pela mesma pessoa. Muito "sem sal" ou "chupados" do google.
Será que nossos jornalistas e articulistas, em sua maioria, lêem pouco? Sua formação é cada vez mais precária e, com isso, a tradição cultural está sendo deixada de lado?
Nossas escolas e nossos professores estão captando alguma coisa nessa direção, valorizando os livros e dando-os "de presente" às novas gerações?
O texto da Cecília Meireles, Escola de bem-te-vis, tem uma dimensão poética que o impulsina a alturas muito mais elevadas do eu comento aqui. Por isso, vamos ao mesmo.



Muita gente já não acredita que existam pássaros, a não ser em gravuras ou empalhados nos museus – o que é perfeitamente natural, dado o novo aspecto da terra, que, em lugar de árvores, produz com mais abundância blocos de cimento armado. Mas ainda há pássaros, sim. Existem tantos, em redor da minha casa, que até agora não tive (nem creio que venha a ter) tempo de saber seus nomes, conhecer suas cores, entender sua linguagem. Porque evidentemente os pássaros falam. Há muitos, muitos anos, no meu primeiro livro de inglês se lia: "Dizem que o sultão Mamude entendia a linguagem dos pássaros..."


Quando ouço um gorjeio nestas mangueiras e ciprestes, logo penso no sultão e nessa linguagem que ele entendia. Fico atenta, mas não consigo traduzir nada. No entanto, bem sei que os pássaros estão conversando.


O papagaio e a arara, esses aprendem o que se lhes ensinam, e falam como doutores. E há o bem-te-vi, que fala português de nascença, mas infelizmente só diz o seu próprio nome, decerto sem saber que assim se chama.


Anos e anos a fio, os bem-te-vis do meu bairro nascem, crescem, brigam, falam... – depois deixam de ser ouvidos: não sei se caem nas panelas dos sibaritas, se arranjam emprego, se viajam, se tiram férias, se fazem turismo. Não sei.


Mas, enquanto andam por aqui, são pacientemente instruídos por seus pais ou professores, e parece que, tão cedo começam a voar, já vão para as aulas, ao contrário de muitas crianças que antes de irem para as aulas já estão voando.


Os pais e professores desses passarinhos devem ensinar-lhes muitas coisas: a discernir um homem de uma sombra, as sementes e frutas, os pássaros amigos e inimigos, os gatos – ah! principalmente os gatos… Mas essa instrução parece que é toda prática e silenciosa, quase sigilosa: uma espécie de iniciação. Quanto a ensino oral, parece que é mesmo só: "Bem-te-vi! Bem-te-vi", que uns dizem com voz rouca, outros com voz suave, e os garotinhos ainda meio hesitantes, sem fôlego para três sílabas.


Antigamente era assim. Agora, porém, as coisas têm mudado. Certa vez, quando pai ou professor ensinava com a mais pura dicção: "Bem-te-vi!" – o aluno, preguiçoso, relapso ou turbulento, respondeu apenas: "Te-vi!". Grande escândalo. Uma pausa, na verde escola aérea. "Bem-te-vi! Bem-te-vi!", tornou o instrutor, com uma animação que se ia tornando furiosa. Mas os maus exemplos são logo seguidos. E a classe toda achou graça naquela falta de respeito, naquela moda nova, naquela invenção maluca e foi um coro de "Te-vi! Te-vi! Te-vi!", que deixou o próprio eco muito desconfiado.


Essa revolução durou algum tempo. A passarinhada vadia pulava de leste para oeste a zombar dos mais velhos. "Bem-te-vi!", diziam estes, severos e puristas, tentando chamá-los à razão. "Te-vi! Te-vi!", gritavam os outros, galhofeiros, revoltosos, endoidecidos.


Passou-se o tempo necessário ao aparecimento de uma nova geração. E então foi sensacional! Os passarinhos mais recentes ouviam aquele fraseado clássico dos avós: "Bem-te-vi! Bem-te-vi!" – e deviam achar aquilo uma língua morta: o latim e o sânscrito lá deles. Depois, ouviam a abreviatura dos pais: "Te-vi! Te-vi!". Mas acharam muito comprido ainda. (Que trambolho, a família!) E passaram a responder, por muito favor, "Vi! Vi!" Muito mais econômico. Afinal, pelos ares não voam mais anjos e sim aviões a jacto...


"Bem-te-vi!", exclamam os anciãos, com sua dignidade ofendida. "Te-vi!", respondem os filhos revoltosos. E os netos, meio chochos: "Vi!Vi!"


Quanto aos bisnetos, vamos ver o que acontecerá. Talvez os professores mudem de método. Talvez mude o ministro. Talvez os tempos sejam outros, e a passarinhada volte a ser normal, ou deixe de falar, só de pirraça, ou invente – quem sabe? – uma expressão genial. E também pode ser que não haja mais bem-te-vis.

 "O que se diz e o que se entende", crônicas. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1980. p. 95-7, in "Antologia de Textos do Modernismo", Raimundo Barbadinho Neto, Rio de Janeiro, 1982 : 09/10/1998

A DISFUNÇÃO ERÉTIL - Paulo Sant' Ana



Boa parte de grandes cronistas barasileiros, de que gosto, estão mortos. É o caso de Rubem Braga, Fernando Sabino e Carlos Drummond de Andrade.
A crônica se alimenta de temas cotidianos. Mas vai além da linguagem jornalística, ao acrescentar pitadas de humor, ironia, comédia ou tragédia.
Paulo Sant ' Ana escreve diariamente no jornal Zero Hora de Porto Alegre. Seus textos são bons, algumas vezes nem tanto.
me diverti e refleti com a crônica a seguir.


A medicina tem a obsessão de mudar os nomes: trocou oculista por oftalmologista, assim como a rótula, este popular osso do joelho, passou agora a se chamar patela.



Os médicos, ou melhor, a medicina, na sua incansável ânsia reformista-vocabular já mudou o nome do perônio para fíbula e da omoplata para escápula.


O cúmulo desse delírio transformista se dá com as falsas cordas vocais. Como se sabe, existe em anatomia as cordas vocais e as “falsas cordas vocais”.


Pois saibam, senhoras e senhores, que agora a medicina trocou o nome das falsas cordas vocais para pregas vestibulares, credo em cruz, até parece que querem transferir as atribuições dos otorrinos para os proctologistas.


Outra frescura da medicina pós-moderna foi mudar a broxura para disfunção erétil.


Um amigo meu foi estes dias consultar um médico para disfunção erétil.


O médico colocou-o numa sala fechada e envolveu o pênis do meu amigo num aparelho que mais parecia um trambolho de marceneiro, de onde emergiam fios que se comunicavam com o computador do médico.


O facultativo tentava medir por aquela geringonça o tamanho da disfunção erétil de meu amigo.


Depois de 45 minutos daquele exame constrangedor, o médico deu ao meu amigo o seu diagnóstico: o máximo que meu amigo vinha tendo e podia vir a ter era uma semiereção.


Meu amigo concordou com o diagnóstico e disse ao médico que com aquela incompletude ele não vinha cumprindo nem seus deveres maritais nem seus desvios adulterinos, pelo que necessitava urgentemente de uma reforma na sua área de potência.


O médico concluiu com meu amigo: ele teria de submeter-se a um tratamento que custaria R$ 1.200 mensais e duraria 24 meses.

Meu amigo despediu-se do médico com as seguintes palavras: “Não vai dar. Em primeiro lugar, muito caro. Em segundo lugar, tenho 70 anos e é quase certo, pela marcha que vai minha saúde, que não chegarei a viver mais dois anos, os dois anos da redenção que o senhor me promete. Eu precisava de uma solução urgente, falta pouco para terminar minha vida e o senhor me oferece um prazo fatídico. Cá para nós, meu doutor, não existe na cidade um pronto-socorro para disfunção erétil?”.


O médico: “Não existe. Fora o Viagra, que o senhor me disse não ter funcionado no seu caso, só talvez a prótese peniana, que no entanto apresenta resultados altamente duvidosos.”


O meu amigo saiu do consultório, depois de pagar a consulta, e entrou desesperado na primeira porta de psiquiatra que encontrou no mesmo prédio. Como não pôde consertar o defeito primacial do seu corpo, foi tratar de pelo menos desentortar a cabeça.


 
Zero Hora, Quinta-feira, 05 de agosto de 2010

PELADA DE SUBÚRBIO - Armando Nogueira




Nova Iguaçu, quatro horas da tarde, sábado de sol. Dois times suam a alma numa pelada barulhenta; o campo em que correm os dois times abre-se como um clarão de barro vermelho cercado por uma ponte velha, um matagal e uma chácara silenciosa, de muros altos.

A bola, das brancas, é nova e rola como um presente a encher o grande vazio de vidas tão humildes que, formalmente divididas, na verdade, juntam-se para conquistar a liberdade na abstração de uma vitória.



Um chute errado manda a bola, pelos ares, lá nos limites da chácara, de onde é devolvida, sem demora, por um arremesso misterioso. Alguns minutos mais tarde, outra vez a bola foi cair nos terrenos da chácara, de onde voltou lançada com as duas mãos por um velhinho com jeito de caseiro.



Na terceira, a bola ficou por lá; ou melhor, veio mas, cinco minutos depois, embaixo do braço de um homem gordo, cabeludo, vestido numa calça de pijama e nu da cintura para cima. Era o dono da chácara.

 
A rapaziada, meio assustada, ficou na defensiva, olhando: ele entrou, foi andando para o centro do campo, pôs a bola no chão e, quando os dois times ameaçavam agradecer, com palmas e risos, o gesto do vizinho generoso, o homem tirou da cintura um revólver e disparou seis tiros na bola.



No campo, invadido pela sombra da morte, só ficou a bola, murcha.




do livro O melhor da crônica brasileira. Rio de Janeiro, José Olympio, 1980.





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