Retórica etílica


Respeitosa, a platéia faz vários sins com o movimento da cabeça, diante da leitura solene do especialista num filósofo europeu. 
Meu corpo se coça na cadeira, enquanto a alma se perde nas ruas limpíssimas de Toledo.
O ser e o ente, cravados no mundo fático, empurram pra longe a brisa que vem da janela, dando lugar ao bafo morno da sala de aula.
Procuro compreender esses rituais acadêmicos e seu potencial para tocar nos problemas do mundo. Algumas pontadas pelos lados dos rins e do fígado, e sinto a verdadeira realidade.
Esta tarde aprendi uma lição muito clara: se você quer sobreviver pro dia de amanhã, em meio a tanta retórica etílica, corra logo atrás de algum sonho!

Acenda uma luz


TECO - O mundo vai mal... Poucas pessoas se importam com a cultura e os valores éticos. O que tem de sobra é guerra, violência e fome.
ET - O que é pior: não ter água na torneira ou a falta de sede? A falta de luz pelos caminhos do mundo, ou o escuro dentro do teu coração? Vamos, vamos iluminar um pouco este mundo!

Soltando os cachorros



TECO - Cara, como tem maluco comentando nas redes sociais. O que eles dizem em sites e blogs revela mentes totalmente desequilibradas.
ET - Meu, não liga pra isso. Melhor assim do que conviver na real com babacas de pensamento limitado. Imagina um desses retardados na rua, na fila do banco ou no ônibus, berrando "volta ditadura!" ou "odeio negros, índios e gays"...

(Tiradinha inspirada no texto abaixo, de marcos Piangers. Zero Hora de 23/10/2015)

SOLICITAÇÕES DE AMIZADE

Já deve ter acontecido com você. Aquela pessoa legal que você conhece há algum tempo, aquele amigo do tempo de faculdade de quem você gostava, ou um colega de trabalho, pessoas agradáveis no convívio diário ou eventual, são bichos desagradáveis no Facebook. O cidadão é pacato no dia a dia, mas debaixo do avatar da rede social solta os cachorros em todo mundo. Parece outra pessoa.
Alguns amigos meus não suportam essa atitude, bloqueiam o sujeito nervosinho na hora. Eu olho aquele destempero com mais calma. Acredito que são fenômenos da falta de intimidade que as pessoas têm com ambiente virtual. Talvez seja o deslumbre de gritar pra todo mundo ouvir. Talvez seja falta de intimidade com o uso do CAPS LOCK. Mas a verdade é que, no Facebook, todo mundo tem um amigo alucinado.
Melhor assim do que ao contrário. Imagine a figura perfeitamente civilizada na sua timeline, mas completamente desequilibrado na vida real. Seria pior. “Odeio gente pobre!”, gritaria o cidadão no ônibus. “Volta ditadura!”, berraria na padaria. Seria como um Tourette político, sempre gritando coisas constrangedoras no meio da rua.
Melhor que os lunáticos fiquem restritos às redes sociais. E aos comentários dos sites de notícias. Aquilo também parece um encontro manicomial. No ambiente virtual, pelo menos, você pode evitar malucos, deixar de seguir, bloquear, simplesmente não ler. Na vida real, ainda não inventaram uma forma de escapar de lunáticos, a não ser ficando em casa. E, como pra muita gente ficar em casa é sinônimo de ficar na internet, desejo a todos apenas paciência e sabedoria pra diferenciar o que é delírio e o que é vida real.

Nós que aqui estamos...



ET - Antes de morar aí, qual será tua escolha pra quando crescer: tornar-se homo lattes? Homo automobilis? Homo moneys? Homo stressadus?
TECO - Bah! Vamos fugir deste cenário, senão me tornarei homo melancolicus!

(Tiradas do Teco, o poeta sonhador)

A garota de Ijuí



- Vai, Teco, brinca de esconde-esconde! Se você se escondeu no meu coração, vou te encontrar. Mas se você se ocultou em você mesmo, não vale a pena te procurar!

(Inspirado num pensamento de Gibran K. Gibran, do livro Areia e espuma).

Toma que o filho é teu


                                                         (escultura de Patricia Piccinini)

Na escrita poético-literária há muito em jogo, além de um simples ato de autoria. O autor sai de cena e permite que o leitor se aproprie, à sua maneira, da narrativa. Creio que foi isto que quis dizer Mario Quintana: "A gente pensa uma coisa, escreve uma outra coisa, e o leitor compreende uma terceira coisa totalmente diferente".

Nudez nas nuvens


ET - Cara, o que você acha dessa moda adolescente de mostrar o corpo nu na internet? Qual será a próxima moda? Se autoflagelar diante da webcam?
TECO - Não esquenta... A galera tem muita imaginação. Acredita que as fotos evaporam como água e viram nuvem...
ET - Entendinãoentendientendinãoentendi...

(TIRADAS do Teco, o poeta sonhador)

Comunicação


ET - Tchê, você não disse que os humanos se comunicam com facilidade?
TECO - Humm... Acho que alguns ruídos externos estão causando interferência...
ET - Sei... Sei...

Ufólogo diz que há 'grande chance' de círculos em lavoura serem de ETs


TECO - Caramba! Mata minha curiosidade, cara! Decifra a mensagem deles...
ET - Ah, humanos... Só vocês... Misturam alhos com bugalhos, simples com complexo, mistério com divino... Kkkkk... Vocês andam tão bobinhos!

O rato que tinha medo - Millôr Fernandes

Um Rato tinha medo de Gato. Nisso não era diferente dos outros ratos. Pavor, tremor, ânsia, vida incerta. Mas igual a todos outros de sua espécie, o nosso Rato teve, no entanto, um fato diferente em sua vida – encontrou-se com um Mágico(1). 

Conversa vai, conversa vem, ele explicou ao Mágico a sua sina e o seu pavor. O Mágico, então, transformou-o exatamente naquilo que ele mais temia e achava mais poderoso sobre a terra – um Gato. O Rato dai em diante, passou a perseguir os outros ratos, mas adquiriu imediatamente um medo horrível de cães. E nisso também, não sendo diferente de todos os outros gatos. 

A única diferença foi que tornou a se encontrar com o Mágico. Falou-lhe então do seu novo medo e foi transformado outra vez na coisa que mais temia – um Cão, que pôs-se logo a perseguir os gatos. Mas passou a temer animais maiores: como Leão, Tigre, Onça, Boi, Cavalo, tudo. O Mágico surgiu mais uma vez e resolveu transformá-lo então, num Leão, o mais poderoso dos animais(2). Mas o nosso ratinho, guindado assim a letra O da classe animal, passou, porém, a recear quando ouvia passos de Caçador. Então o Mágico chegou, transformou-o de novo num Rato e disse, alto e bom som: 

Moral: Meu filho, quem tem coração de rato, não adianta ser leão”. 

O destino (à maneira dos... coreanos) - Millôr Fernandes

Encontraram-se os dois chineses.
— Olá, Shen-Tau, por onde andou?
— Ah, passei seis meses no hospital, Shin-Fon.
— Eh, isso é mau!
— Nada. Isso é bom: casei com uma enfermeira bacaninha.
— Ah, isso é bom!
— Que o que — isso é mau. Ela tem um gênio dos diabos.
— É, isso é mau.
— Não, não, isso é bom: o avô dela deixou uma herança e eu não preciso trabalhar porque ele acha que só eu sei cuidar do gênio dela.
— Oh, oh, isso é que é bom!
— Oh, oh, isso é que é mau! Com o gênio dela, às vezes não me dá um níquel. E como eu não trabalho, não tenho o que comer.
— Xi, isso é mau!
— Engano, isso é bom. Eu estava ficando gordo e mole — vê só, agora, o corpinho com que eu estou.
— É mesmo — isso é bom!
— Que bom! Isso é mau. As pequenas não me deixam e acabei gostando de outra.
— Êpa, isso é mau mesmo.
— Mau nada, isso é bom. Essa outra mora num verdadeiro palácio e me trata como um príncipe.
— Então isso é bom!
— Bom? Isso é mau: o palácio pegou fogo e foi tudo embora.
— Acho que isso é realmente mau!
— Mau nada: isso é bom. O palácio pegou fogo porque minha mulher foi lá brigar com a outra, virou um lampião e as duas morreram num incêndio. Eu fiquei rico e só.
— Isso… é bom… ou é mau, Shen-Tau?
— Isso é muito bom. Shin-Fon.

Moral: Nada fracassa mais do que a vitória, e vice-versa.



FERNANDES, Millôr. Fábulas fabulosas. Rio de Janeiro: Nórdica, 1979. p. 61-2. 

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