Era uma vez um sapo...



Ela me disse que as histórias que conto se parecem comigo. Ora - pensei – mas que garota pretensiosa!
Na tentativa de arrumar minha defesa e surpreender no contra-ataque, em vez de me olhar no espelho fui chafurdar seus defeitos. Droga, não encontrei nenhum! Algo errado acontece comigo...
Eu só queria rir um pouco, neste final de inverno cinzento, úmido e frio, com a tristeza passeando à vontade, pela vida e pelas folhas dos jornais.
Sim, eu sei que ela me enxerga um velho sonhador (não significa exatamente o mesmo que “sonhador velho”). E sei que e a história que contei pra ela fala, realmente, de um sapo sonhador!
Para não ser chato, decidi pular esse assunto, por isso não recitei o poema do Mário Quintana, que fala assim dos sonhos:

Se as coisas são inatingíveis... ora! 
Não é motivo para não querê-las...

Que tristes os caminhos se não fora
A mágica presença das estrelas!

Mas ela – com seu olhar de inicio de primavera e ironia cortante como o vento sul de agosto – tem razão, ao me colocar dentro das histórias que conto, com a roupa dos personagens.
Bem, vai a seguir as história que eu contei pra ela.


Dois sapos – o sapo sapo


Era uma vez um sapo que pensava que era um príncipe transformado no bicho verde e enrugado que agora era. Ele lembrava de ter morado num castelo, vestido roupas de seda e brincado de cavalgar um pônei branco de pelúcia.
Mas, para conseguir um beijo de uma princesa, ele precisava de uma pepita de ouro. Ele cansou de procurar a pepita salvadora e não achou. Então ele pintou uma pedra com tinta dourada e cantou a música de chamar princesas beijoqueiras. Apareceu uma que nunca tinha beijado um sapo antes, e, por isso, não sabia direito como era uma pepita de ouro. Ela acreditou que a pedra pintada fosse mesmo de ouro e foi logo pegando e beijando o sapo.
Acontece que o sapo não era príncipe encantado coisa nenhuma e continuou sendo o bicho verde e enrugado que sempre foi. A princesa jogou a pedra pintada para o sapo e foi embora correndo, envergonhada, pensando que o beijo dela não tinha funcionado.
A pedra bateu na cabeça do sapo e ele se lembrou de que as memórias do castelo, roupas de seda e pônei de pelúcia eram de um sonho lindo que uma noite ele tinha sonhado.
Envergonhado, também, e triste, o sapo pulou para dentro da lagoa onde morava, resolvido a se matar afogado. Mas lembrou que sabia nadar bem até demais, ganhando a nota máxima de sua turma na escola, e por mais que tentasse não conseguia se afogar. E então já ia pular para uma estrada que havia lá perto, para ser atropelado por uma carroça, quando viu uma sapa que tomava sol sobre uma grande flor cor-de-rosa.
Seu coração bateu depressa, sua lingua se esticou para fora da boca. A sapa piscou para ele, dengosa. E lá se foi o sapo, nadando nas águas da lagoa,  já se esquecendo dos pôneis de seda, castelos de pelúcia e roupas de pedras pintadas com tinta dourada!

(Flávio de Souza. Príncipes e princesas, sapos e lagartos. São Paulo, FTD, 1996.

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