Vinte e quatro horas


Passa da meia noite
e você continua com sede
então olha para o céu
mistura lua e estrelas.
Solitário 
vê o firmamento
e não desconfia
que é privilegiado.
Saída de escape
da morte
disposta a salvar-te
por punhados de reais
a loja de bebidas funciona
das vinte e quatro às vinte e quatro.
Antes que decida
entre cerveja e vinho
no caminho
o cão acorrentado
esbraveja num beco
joga-se na grade.
Quer libertar-te.
Carros rebaixados
vidros escuros
pancadas de funk. 
O rostinho da lua minguante
despede-se na reta final 
do horizonte.
À tarde você passou pela mesma rua e viu, lado a lado, uma igreja e um bailão da terceira idade, bombando. Numa casa humilde um casal de velhinhos. Olhar fendido no horizonte a senhora, picada pelo AVC, move com fragilidade uma bola de basquetebol. O que lhe resta nessa altura da vida é a fisioterapia. Você viu o sujeito bombado músculos braços peitos salientes pernas finas fazendo força para equilibrar vaidades e desejos numa face preocupada e triste.
Meia noite e a rua está deserta.
Descansemos, irmãos.
Amanhã haverá muito trabalho
e nenhum tempo pra sentir.

(Diário de B. B. Palermo)


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