Doutor, cansei do ano do barulho


Na avenida do barulho preciso ter nervos de aço. Os carros não deslizam nem desfilam. São bolas de fogo, Doutor. Artéria principal, se estás a pé ou de bicicleta não és ninguém. Vais te esgueirar pelas calçadas e evitar que uma máquina te fuzile com seu para-choque. Se és neguinho de vila ou chinelão, se não tens carro ou potente som, aconselho-te a cruzar bem longe da avenida do barulho. É pegar ou largar. Se os engarrafamentos se esparramam pra direção oeste, vou pro norte ou sul. Posso escolher: afastar-me das freadas, buzinadas, cantadas de pneus, som alto e monóxido de carbono. Fugir dessa bagunça e voltar a brincar, como andar de bicicleta pela primeira vez.
Então me pergunto, Doutor, o que posso esperar pro Ano Novo? Ano que vem vai ser pra valer. Vou com tudo. Vai nascer um novo homem. 2018 vai ser um ano de ouro (aliás, Doutor, eu quis dizer 2017). Estou desmontando ideias fixas e pavimentando uma original ciclovia, em vez das avenidas pra chegar lá. Dormir cedo, reduzir pela metade o consumo de combustível (eu quis dizer álcool, Doutor). Escrever mais e melhor. Aguçar mais e mais os sentidos ao sair por aí. A escolha dos amigos vai ser pela qualidade, não pela quantidade. Quanto mais emancipado estiver do racismo, sexismo e homofobia, mais chances tem de ser meu amigo. E que tenha sensibilidade para tentar ouvir e compreender uma mulher.
Quero resolver pormenores da minha vida, Doutor. Não vou deixar pedra sobre pedra. Mesmo que não consiga evitar que amores escorram como água entre os dedos. Se não redobrar os esforços, eu sei, ano que vem muito vai ser do mesmo, o que espero das garotas e elas de nosotros, as decepções quase sempre se equivalem.
Já estou recebendo felicitações de feliz Ano Novo de algumas leitoras. Uma delas, de uma região distante do país, disse que adora minhas histórias. Com seu português bem peculiar ela me desejou tudo de melhor, e finalizou: “Boa sorte suseso”. Responda, Doutor, de zero a cem, quais são as minhas chances de futuramente ser um escritor número um?


(Diário de B. B. Palermo) 

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