AS FLORES NÃO FALAM


Pode ser uma perda de tempo perguntar se as flores falam por si, ou se sua beleza depende de nosso olhar para elas. Na música do Cartola, "As rosas não falam", uma estrofe diz: "Queixo-me às rosas, mas que bobagem/as rosas não falam/simplesmente as rosas exalam/o perfume que roubam de ti, ai...".
O que representam as flores em nossa vida? Imagino que o que vale é nossa relação com elas. O cuidado que temos com nosso jardim. Disse-me uma amiga: "Cuide do teu jardim. As borboletas sempre voltam para apreciar um jardim florido". Na hora interpretei seu comentário como uma obeservação a respeito de como me mostro aos outros. Nosso jardim é nosso retrato.
Uma piada que li no jornal Zero Hora de hoje ilustra isso:
"A família está reunida, olhando antigos álbuns de fotografias. Lá está  a foto de um jovem belo e elegante. A Mariazinha vira-se para a mãe e pergunta:
- Mamãe, quem é esse homem tão bonito?
- É o seu pai, Mariazinha.
Então a menina chega mais perto da mãe e fala bem baixinho:
- E quem é esse gordo, careca, feio e chato que mora aqui com a gente?"

O valor das flores se dá pela humanidade (nem sempre romântica?) que depositamos nelas.
Poderíamos afirmar que as flores retribuem o nosso carinho para com elas emprestando-nos sua beleza. Mas isso só vale se nós o notamos.
Independente dos motivos (muitas vezes "inconscientes") que temos para ir ao seu encontro. Podem ser esquisitos, estranhos, jogos de vaidade, simples negócios...
O mais importante, talvez, não seja atribuir um caráter divino à beleza das flores. Temos a tendência de colocar nas mãos de Deus o que não conseguimos explicar, por exemplo o mistério, o belo. Ou não é nada disso: quem sabe - ao captarmos a beleza de algo, seja uma música, um poema, um quadro, uma flor - estejamos conversando com Deus... Ou Deus está chamando nossa atenção, para que relaxemos, nos afastemos um pouco das nóias corriqueiras.
Se o  momento de nossa contemplação da beleza é divino, então esse é o momento em que conversamos com Deus.
Assim, a linguagem que Deus utiliza para conversar com a gente é a estética. No desabrochar de uma flor, na melodia de uma canção, no canto de um sabiá, Deus está nos chamando para fazer "arte".

A história abaixo, A penitência das flores, de Heloisa Seixas, mostra uma relação surpreendente do personagem com as flores. O pano de fundo é uma história trágica de amor (irrealizado, interrompido). O velhinho vende as flores para pagar seus pecados.


A PENITÊNCIA DAS FLORES - Heloisa Seixas

Ontem, voltei a vê-lo. Elegante, como sempre, discreto em seu terno escuro, o colarinho branco impecavelmente limpo contrastando com a pele morena, a gravata-borboleta cor de sangue. Na cabeça pequena, os cabelos muito brancos, cortados baixinho. Nas mãos, morenas também e um tanto calosas, a cesta de flores. Não trazia rosas de várias cores dessa vez, apenas vermelhas. Cada uma delas envolta num pedaço de papel laminado, tendo junto ao cabo um raminho verde que me pareceu avenca.
O velhinho que vende flores.
Há muito não o via. Mas sempre que o encontro, devo confessar, renova-se o impacto. E dessa vez mais ainda - porque ele estava diferente. Assim que entrou no restaurante, notei-o muito circunspecto, mais do que de hábito, e vi que trazia nos olhos escuros uma chispa de tristeza. Fiquei olhando-o, enquanto oferecia suas flores, na varanda do restaurante. Uma mesa ruidosa, onde oito pessoas pareciam celebrar alguma coisa, ocupou-se dele por uns instantes, as mulheres esticando os braços para tocar os botões, escolhendo os mais bonitos. Enquanto isso, o velhinho, que nessas horas costuma ser falante, estava mirando através do vidro da varanda, os olhos perdidos na noite.
Nesse instante, o garçom, meu conhecido - e que sabe do meu interesse por aquele vendedor de flores -, chegou a meu lado e disse:
- Está fazendo trinta anos hoje.
- É mesmo?
- É - respondeu o garçom, ele próprio um senhor, trabalhando naquele restaurante há mais de vinte anos.
- Como você sabe?
- Ele me disse, ontem. Às vezes conversa comigo. A senhora não notou como ele está estranho?
- É verdade - respondi, baixando a voz, porque o velhinho deixava a varanda e se aproximava de minha mesa. O garçom, discreto, se afastou.
Chegando junto a mim, o vendedor estendeu sua cesta, sem dizer palavra. Havia uma ponta de sorriso congelada em seu rosto, mas os olhos tinham um brilho insano. Ele me olhou como se me varasse. E compreendi que o garçom dissera a verdade. A história eu já conhecia. Só não sabia que, naquela data exatamente, fazia trinta anos que acontecera. Aquele velho, um homem bem-nascido, que tinha posses, um dia, por ciúmes, matara a mulher que amava. Fora preso, cumprira pena e, ao ao sair da prisão, tornara-se vendedor de flores. Assim, expiava seu pecado.
Tirei uma rosa da cesta e ergui, com uma mesura, como quem faz um brinde.
- Às flores - disse.
E ele sorriu. Em sua loucura, sabia, tanto quanto eu, que as flores eram sua penitência. E sua redenção.

do livro Contos mínimos, editora Bestseller.

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