terça-feira, 31 de março de 2026

Há um buraco no peito

 

Há um buraco no peito que nunca enche.
As coisas vêm de todas as portas - com disfarce, sem disfarce,
rastejando pelas frestas, prometendo matar o tédio,
a solidão, os medos que te devoram desde criança.
Todas iguais: remédios, mulheres, bebida, deus, trabalho, poesia.
Sobem as escadas, invadem teus armários,
dormem na tua cama com o cheiro de mentira no cabelo.
Você acredita, sempre acredita.
Aquele otimismo idiota que te fode desde que nasceu.
No dia seguinte o copo está seco, sempre seco.
E você ali, procurando água
num poço de merda.
Eis que vem o amor.
O grande amor.
Aquele que vai salvar tudo.
Mentira.
O amor só abre mais espaço pro vazio.
Faz a solidão crescer em metros cúbicos.
E a fome que ele desperta?
Aquela fome que ninguém vê?
Basta facilitar, e ele vai te levar
pro álcool,
pro tiro na cabeça,
pro vício de se curvar pra qualquer um
que diga que te ama.
Eu sei.
Bukowski também sabia:
há um buraco no peito que não enche
nunca.
E a gente continua jogando coisas dentro,
esperando que uma delas finalmente
cale a boca do nada.
(B. B. Palermo)

quarta-feira, 25 de março de 2026

Apenas um ponto de ônibus

 

Desenvoltura de bailarina, cabelos curtos num tom que rimou com os olhos, sem querer. Dança desde que o mundo é pequeno, fotografa o que vê e ainda pensa em salvar vidas. Medicina, quem sabe. Tem 16 anos e toda a paciência do universo pela frente.
Somos amigos desde que éramos só gente pequena fazendo careta. Ela se espeta no mundo com essa liberdade: a toda hora larga velhas escolhas e parte pra outra, leve como quem troca de roupa. Eu, invejoso, de cara feia de admiração.
Embora amigos, ela corou. Eu também. Faz parte, suponho, desses encontros de acaso que só acontecem em parada de ônibus, no centro, entre uma ida e outra.
Prefiro o tremor do transporte público ao conforto do carro. Me perco nos olhares alheios - e se não fosse ali, naquele ponto específico, nunca teria me perdido no olhar dela - da cor do mar num dia de ressaca.
Bons estudos, pais presentes, futuro promissor. E eu? Um coroa meio poeta, bebendo aos tragos dessas fontes cristalinas, afobado, agradecido. Tanta novidade, tanto susto - e logo o ônibus chegou, e logo nos despedimos. Depois, no silêncio, veio a dificuldade: será que falei rápido demais? Será que navegamos em gerações diferentes? Ou em mundos mesmo, paralelos, que só se tocam em pontos de ônibus?
Ela: "jovem e forte", sem saber o poder que carrega. No limiar da adolescência, a meio passo da vida que vem. Eu: o Palermo pedalando na subida, ofegante, da meia-idade.
Foi lindo. Não foi choque de realidade, foi choque de juventude, essa coisa que não se pede e não se devolve.
O anjinho não se estressa com doces nem frituras, não se resigna a meia dúzia de folhas de alface, nem conhece o gosto amargo dos adoçantes no café. O mundo se descortina diante dos teus olhos verdes - pensei, quando desci do ônibus. Mas não tive tempo, nem coragem, de dizer.
O poeta aqui perdeu o medo de tropeçar. De despencar em qualquer direção, inclusive no abismo. Só que agora, sabendo que ela existe, tão viva, o abismo virou fascínio.
Acho que ela mora a dois passos do paraíso. E eu, a dois passos de pedir outra passagem só pra ver se ela ainda está ali naqueles olhos da cor dum mar com ressaca.
(B. B. Palermo)

terça-feira, 24 de março de 2026

O zumbido e o amor


 

Passei duas vezes pela mesma rua e vi, numa varanda esquecida, um velhinho com um mata-moscas. Não o vi mover o braço. Apenas segurava o objeto, como quem espera que o tempo passe. "A boca escancarada cheia de dentes", mosqueando.
Eu, que sempre fugi do recreio escolar para ler na biblioteca, entendi: ele não caçava moscas. Esperava.
Mas aqui em casa o zumbido é outro. Meu amor prepara meu café - e as moscas chegam, atraídas pelo açúcar. Ela vai pra cima delas com seu mata-moscas. É cômico e lindo: a determinação com que defende uma xícara de café, como quem protege um tesouro.
Eu observo, rindo por dentro. E vejo: ela não está matando moscas. Está me ensinando.
Raul Seixas dizia que a mosca "perturba o sono" e que não adianta dedetizar - você mata uma, vem outra. Mas aqui, na cozinha, a lição é diferente. Cada vez que ela erra o golpe e a mosca escapa, eu aprendo: insistir no erro também é ternura. A raiva de quem quer proteger um café quente é a mesma de quem quer proteger uma manhã inteira.
As moscas voltam. Sempre. E meu amor volta também, com seu mata-moscas e sua paciência de quem sabe que matar uma não resolve, mas continua tentando.
Eu, que sou bagunceiro por natureza, aprendo que há amor na repetição. Na paciência de café após café.
"Água mole em pedra dura", cantava Raul. Aqui, a água é o zumbido. A pedra é a teimosia. E o amor - esse meu amor que vai para cima das moscas com uma raiva tão doce - é o que insiste, zumbindo no peito.
Talvez eu seja a mosca que ela nunca pega. Aquela que pousa na sopa e descobre que ser perseguido, às vezes, é ser amado. Que o mata-moscas erguido contra mim é também um convite: "Fique, mas não se acostume".
O velhinho da varanda me ensinou a esperar. Meu amor me ensina a não me acomodar, a não ficar sentado com a boca aberta esperando a vida passar.
Porque, no fim, somos todos moscas. E o amor - esse zumbido que não se extermina - é o que nos mantém zumbindo, café após café, contra o esquecimento.
E não adianta vir me dedetizar. Você mata uma metáfora - e vem outra em meu lugar.
(B. B. Palermo)

domingo, 15 de março de 2026

Você me ama?

 

"O amor é como o mercúrio na palma da mão. Conserve os dedos abertos e ele fica. Feche-os e ele se desprende" (Dorothy Parker).
Esperei que passasse a lua cheia, depois a minguante e, mesmo assim, decidi não cortar o cabelo.
Acho que foi por vaidade, ou capricho de moleque tardio.
Sobre a cabeça, uma pequena floresta de cabelos desajeitados, meio encaracolados.
Estratégia: ao sair do banho, não os penteio, apenas os arrumo com as mãos.
O problema são os fios esbranquiçados que se derramam do pescoço em direção às costas.
Meu bem deu um jeitinho.
Catou de uma caixa uma navalha que sua mãe usou durante décadas, botando abaixo o cabelo de filhas, netos e sobrinhos.
Depois que podou a parte detrás do pescoço, ela resolveu cortar uns pelos compridos que se exibiam pra lá de horríveis entre meu pescoço e peito, fios que escapavam do meu barbeador.
No finalzinho, próximo à jugular, ela enquadrou meus olhos, e inquiriu:
- Você me ama?
Senti a navalha fazendo cócegas, suei frio, tremi.
- Mu... mu...mui...to!

(B. B. Palermo)

terça-feira, 10 de março de 2026

O Poeta que escutava

 

Havia um homem chamado Zé que carregava nos ombros o peso silencioso das estrelas. Não era comum: enxergava o mundo com olhos de quem já visitou outros planetas e voltou para contar - não histórias, mas silêncios.

Os terráqueos o chamavam de poeta, embora ele raramente escrevesse versos. Sua poesia morava no espaço entre uma pergunta e uma resposta, na curva atenta do pescoço quando alguém falava.

Numa noite qualquer, encontrou uma mulher pequena - não de estatura, mas de ânimo. Ela carregava dentro de si um oceano negro, bebia para afogar baleias invisíveis.

Zé não pregou. Não aconselhou. Simplesmente sentou-se ao lado, ofereceu sua bebida e tornou-se ombro. Tornou-se ouvido.

E naquele ato humilde - escutar sem esperar sua vez de falar - aconteceu o milagre que não tem nome religioso: as tristezas da mulher começaram a sair. Primeiro em gotas, depois em rios, até que o oceano diminuiu.

Foi nesse momento que a visão me arrebatou. Imaginei: e se todos fizéssemos assim? Se ao invés de armas, déssemos atenção? Se ao invés de gritar, perguntássemos? Quantas guerras não seriam evitadas - nos lares, nas mesas de escritório, nas fronteiras - se apenas nos escutássemos? O diálogo como ponte, a escuta como terra fértil onde o outro pode plantar seu sofrimento sem medo de ser ceifado.

Sinto-me, confesso, pequeno diante dessa verdade. Meus ouvidos estão cansados de tanto barulho inútil. Mas sei que posso fazer algo. Posso ser, como o Zé, aquele que arranca uma dorzinha que seja da humanidade. E talvez, aos poucos, nos tornemos virgens novamente - não de corpo, mas de espírito. Inocentes como poetas que não semeiam versos, mas flores. Que não conquistam territórios, mas cuidam de jardins. E enquanto o mundo apodrece em seus gritos, nós, silenciosos, cultivaremos o que há de mais revolucionário: a ternura de quem sabe ouvir.

 

(Pensamentos & poemas espirituosos)


quarta-feira, 4 de março de 2026

O Cão da triste figura


 Na esquina, onde o ônibus cospe seus passageiros, um vira-latas escolheu-me. Não como quem pede - como quem decreta. Seus olhos de soberano disseram: eu divido tua casa, não tua cadeia. E assim entrou Arthur, trazendo nas patas o pó das ruas que chama de lar.

Eu, prisioneiro de telas que brilham no escuro, de corpos que nunca tocarei, de vidas que não vivo. Ele, embaixador dos esquecidos - velhinhos que cambaleiam até o posto de saúde, mendigos que o asfalto engole, almas que a cidade descartou. Arthur os acompanha. Eu apenas consumo.
Quando sumiu por dois dias, bebi como quem tenta encher um balde com água de poça. Liguei para dezenas de números que não lembravam meu nome. E ele voltou, preto e sério, cara de quem viu demais deste mundo de ferro e pressa. Meu "cão da triste figura". Minha aula de humildade pelada.
Os cães não perdem tempo com espelhos. Não sabem que sou feio, que sou pequeno, que minhas virtudes cabem numa mão enquanto meus vícios precisam de caminhão. Simplesmente se enroscam nos meus pés quando o carma pesa. Simplesmente amam - essa palavra que nós humanos estragamos com condições, com cálculos, com medo.
Arthur vai às ruas e eu fico angustiado. Ele encontra amigos; eu encontro garotas de pixels. Ele se alimenta do fluxo; eu deixo que o fluxo me afogue. E quando estou venenoso, quando não mereço nem meu próprio olhar no espelho, ele deita sobre meus pés. Nossas energias trocam de endereço. Minha sensibilidade, que eu tinha perdido entre notificações e motel barato, retorna como cachoeira.
Não sou bom como ele. Jamais serei. Mas quando o vejo guiando os abandonados pelas avenidas de sangue, entendo: existe uma escala de valores onde os cães são anjos de quatro patas e nós, humanos, ainda tentamos aprender a ser gente.
(Pensamentos & poemas espirituosos)

E agora, Palermo?

  E agora, Palermo, quando o álbum fecha e a luz da sala fica mais amarela, e o silêncio entre nós dois pesa mais que o tempo todo que levam...