quinta-feira, 21 de maio de 2026

 

O ateu que frequenta centro espírita 


O ateu que frequenta centro espírita é uma contradição ambulante - e eu me incluo nesse grupo. Além de não acreditar em nada, atribuo meus deslizes etílicos a entidades astutas. É conversa inútil, cerveja que evapora e uma névoa que embaralha as ideias. No dia seguinte, a ressaca me sufoca. Alguns chamam isso de espírito obsessor. Eu chamo de falta de vergonha.

Amoreco percebe e tem um radar emocional de dar inveja à NASA. Me deixa sofrer, só  observando, na pose de “eu avisei”. Amo quando ela repete verdades óbvias que eu esqueço - culpa, claro, da tal entidade invisível.

Simpatizo com mundos paralelos. Sou ateu, mas fã da frase “en brujas no creo… pero que las hay, las hay”. Sou ateu e frequentador de centro espírita.

Nosso romance pega fogo quando ela diz:

- Senhor ranço… Te aquieta, senão a chinela vai cantar!

Depois me agarra, me derruba e me sufoca com acessórios que fariam espíritos cochicharem no além. Logo corta o barato:

- Sossega, rancinho. Amor não é só sexo. Vai ler teu livro.

Ah, a meia-idade… A gente quer quantidade antes que o corpo entre em recesso. 

Dormir junto, então, é uma ciência exata que eu nunca aprendi. Minhas patinhas congelam no outono, enquanto ela dorme com um lençol, fervendo como caldeira. De conchinha, viro sauna humana. 

E há os meus sonhos. Quando exagero na comilança, passo a noite jogando futebol. Ontem, sonhei que jogava contra adolescentes que me driblavam brincando. A cada humilhação, revidava com carrinho - e na cama isso virou chute e voadora. Amoreco acordou achando que eu estava tendo um treco ou um ataque de sinceridade.

Quando viu o lençol encharcado, achou que eu tinha virado o Santo Sudário.

Posso ser cético e ateu convicto. Mas quando a vida apronta, quando o amor perde a paciência… aí eu me pego sentado, humilde, tomando passes num centro espírita.

Ateu sim. Mas frequentador fiel. Porque, no fim das contas, ninguém é tão ateu assim quando precisa de ajuda para compreender o invisível - ainda mais se for o invisível que mora dentro da gente.

(B. B. Palermo)

terça-feira, 19 de maio de 2026

Prainha sossegada

 

O poeta corta a grama e o capim do seu pátio com facão. É que a erva está muito alta. Disse que prefere o mato à grama bem aparada porque os pássaros vêm comer as sementes. Essa é uma explicação tão bonita que a vizinhança, depois de ouvi-la, ficou ainda mais irritada.
A comunidade está indignada, apontando dedo com propriedade. Algo está fora do lugar. Caprichosa, exige pátios limpinhos, grama aparada. Ou seja: a grama tem que estar em forma de grama, não de capim. O capim é o capim da desordem. O capim é o cabelo despenteado da natureza. E ninguém quer natureza despenteada na porta de casa, exceto o poeta, que é obviamente comunista.
A coletividade tem olhos pra tudo, ora bolas! Não bastam as câmeras de segurança observando do alto dos postes, em cada esquina. Tem câmera, tem vizinho, tem cachorro que late pra tudo. É o Big Brother versão condomínio fechado, só que sem prêmio no final.
Flagraram um jovem casal mandando ver dentro de um carro, na sombra de uma árvore, uma e meia da tarde, numa rua sossegada. Sempre leio os comentários junto às postagens que rolam nas redes sociais. Não leio pra me informar. Leio pra me alimentar. É o meu fast food intelectual.
"A praia é responsável por tais fatos porque não dispõe de motéis com preços acessíveis pra essa juventude que anda com o sexo flamejante". O sexo flamejante. Parece nome de banda de rock dos anos 80. Ou de doença venérea descrita por um médico do século XIX.
"Criticar a juventude é pura inveja de quem, faz tempo, não sabe como é legal uma boa trepada". Este comentário, confesso, me tocou. Faz tempo que não sei como é legal uma boa trepada. Faz tempo que não sei como é uma trepada ruim. Faz tempo que não sei nem como é uma trepada mediana. Estou fora do mercado. Sou o desempregado do sexo.
Foram tantos os comentários, enfáticos, cortantes, alucinados. A internet é o lugar onde todo mundo é juiz, padre e comentarista de futebol ao mesmo tempo. E ninguém precisou fazer concurso pra isso.
Os cães de minha rua adoram circular no meio das pessoas, olhares esbanjando alegria e prazer, ainda mais quando ganham sobras de comida nuns pubs. Não sonham com terrenos, casas, lotes, chácaras, nem correm até as dunas pra baterem uma ou se masturbarem diante de crianças e senhoras, como o fazem alguns pervertidos - sim, de vez em quando eles aparecem por aqui. Os cães são mais civilizados que parte da espécie humana. Os cães, pelo menos, pedem licença antes de cheirar você.
O certo é que a comunidade está em polvorosa e exige soluções urgentes das autoridades. A comunidade adora exigir soluções urgentes. É o hobby favorito dela, depois de criar os problemas.
Dia desses, numa caminhada de uns onze quilômetros na praia, eu e minha musa decidimos investigar e "caçar" esses tarados que todo ano botam as manguinhas de fora. Pra viabilizar nosso plano, levantamos ferro todos os dias na academia. Levantar ferro, aos nossos anos, é um ato de fé. É acreditar que o corpo ainda responde aos comandos, mesmo quando o espelho sugere o contrário.
Disse a ela que no início deste século eu era bom de briga e me especializei em dar voadoras, atingindo a altura do peito de meus detratores. Meu amor, musa e escudeira, olhou-me de lado, num misto de riso e dúvida, e não se conteve:
- Desista da ideia, amoreco. Tu já não tem idade pra isso.
E acrescentou, com aquele sorriso que me derrota há trinta anos:
- Além do mais, tu nunca soube dar voadora. Tu dava cambalhota e caía de bunda. Eu lembro. Eu era a plateia.
Fiquei em silêncio. A voadora era, de fato, uma cambalhota. A altura do peito era a altura do meu próprio peito, quando eu caía sobre ele. O detentor da voadora era, na verdade, a gravidade. E eu, seu humilde discípulo.
Resolvemos, então, abandonar a caça aos tarados e ir tomar um chope. A academia já tinha sido suficiente punição pro corpo. E a praia, afinal, continua sossegada - não porque os pervertidos sumiram, mas porque a gente aprendeu a não olhar pra duna errada na hora errada.
O poeta, aliás, continua com o capim alto. E os pássaros continuam vindo. A comunidade continua indignada. E eu continuo casado com a única pessoa do mundo que viu minha voadora e não fugiu. O que prova que o amor, diferente da grama, não precisa de aparador. Só de testemunha.
(B. B. Palermo)

sexta-feira, 15 de maio de 2026

Norte

 

Ela me convenceu de que nosso encontro e a história que estamos construindo não é mero acaso ou coincidência.
Buscamos algo novo, e aí nos movimentamos, porque não estamos satisfeitos. É o desejo gritando por um mundo melhor, por uma vida mais digna e também para sermos reconhecidos. Carregamos no peito uma sementinha do querer, que aguarda um estímulo. Meu amor carrega isso nos olhos: sementinhas à espera de um chamado para brotarem.
Ela busca um norte não apenas para para si, mas também deseja me mostrar possíveis nortes. Nervoso, eu vacilo e dou gargalhadas.
Foi o que senti hoje. Duas semanas dividindo o mesmo leito e ela propôs virarmos a cama. Agora quer que nossos pés apontem para o amanhecer, e nossa cabeça para o entardecer.
É incrível: ela quer ver os nossos pés contemplando o pôr do sol.
Minha bússola deu uma travada... de norte a sul.
Seu querer me fascina e surpreende.
(B. B. Palermo)

sábado, 2 de maio de 2026

Metade lobo, metade homem

Hoje me dei conta de que seu travesseiro repousa junto ao meu, no lado esquerdo da minha cama - e pensei no Lobo da Estepe, aquele Harry Haller que vive entre dois mundos, metade homem, metade lobo, nunca inteiro em lugar nenhum.
Sobre a cômoda, anéis e brincos fazendo festa, pijamas e calcinhas desfilando a dois palmos do meu faro. Meus eus paranoicos se confundem: sou o lobo que uiva sozinho, ou sou o homem que divide a toca?
Quando ela sai do box do banheiro e pede que lhe alcance a toalha, meus pensamentos bagunçam. Os olhos falam e desejam, as mãos e a boca vêm logo atrás, e eu a ajudo a se secar com uma familiaridade que me assusta. Como Hesse dizia, sou metade lobo, metade homem - e o lobo quer fugir pro mato, mas o homem quer ficar, quer tocar, quer ser tocado. Sempre fui meio bicho do mato, metade selvagem, outra parte solitário.
Uns eus noiados conversam comigo, quando caminho sozinho pela praia. Não estou piradinho da cabeça, nem bêbado. Sou só um lobo que aprendeu a andar com dois pés e tô cagando pras opiniões de plateia que não paga ingresso. A comunidade dos bem-comportados nunca entendeu o lobo; só sabe domesticar, só sabe julgar.
Mais do que as coisas que ela vai deixando pelo cafofo, estou fissurado em interpretar o que diz o seu corpo. O corpo fala - e eu, metade lobo, metade homem, aprendo essa nova língua. Os gestos, a expressão facial, as mordidas nos lábios. A marquinha na sola do pé, tatuagem de dias de estresse, de passos largos pra dar novo rumo à vida. O lobo sofre porque quer ser lobo e homem ao mesmo tempo, mas ela me ensina que talvez haja um terceiro caminho.
Ela me escolheu pra desbravar, pra desvendar, quando disse:
- Palermo, você vai segurar a minha mão, e eu a tua, não hesite, você não sabe a força que tem.
E eu, lobo de estepe que nunca soube de amor sem solidão, segurei. Porque talvez, como diz Hermann Hesse, a vida seja sempre quase insuportável - mas esse "quase" deixa uma fresta. E nessa fresta, ela entrou. Não me domesticou; me fez inteiro. Metade lobo, metade homem, apenas dela.
Pela primeira vez, o uivo na praia soa menos solidão e mais canção a dois.
(B. B. Palermo)

Não adianta fugir

Ela usa minhas canetas para prender o cabelo. Tenho medo que o exílio das canetas expulse minhas ideias e detone meu cérebro - seria o fim ...