Por que não falar em nomes, já que tudo começa por aí? Vila Faguense. Juventus. E os nossos próprios nomes, dados pelos pais no batismo.
O tio Eduardo não escolheu o dele. Foi dado. Assim como o meu, o seu, o de cada um daquela gurizada que corria atrás das goleiras. Mas o que ele fez com o nome... isso sim foi escolha dele. Transformou "Eduardo" em sinônimo de capitão. De quem orienta. De quem bate pênalti e falta como ninguém - e batia porque treinava, porque tinha paciência para repetir, persistência para não desistir, autoconfiança para assumir a responsabilidade.
E não era só no futebol... Não era só futebol.
Lembro que quando o Alvino, meu irmão, quase criança ainda, aos catorze anos teve que vestir a camisa de goleiro do time principal, foi o tio Eduardo quem o lançou. Literalmente. O Antenor, meu outro irmão, tinha descoberto algo mais divertido para os domingos: tirava a capota do 29 do nosso pai - aquele velho carro que a gurizada apelidou de "frigideira", lembram? e saía com os amigos para festas, bailes, matinês.
E lá estava o Alvino assumindo o posto do irmão, tremendo diante dos marmanjos adversários. Mas não estava sozinho. Por perto havia um zagueiro e capitão, posicionando, orientando, dando confiança e segurança. Protegendo.
Sabe, às vezes penso: o tio Eduardo não precisava fazer aquilo. Não era obrigação dele cuidar de um guri assustado no gol. Ele podia ter sido daqueles que só joga o próprio jogo e deixa o resto se virar. Mas não. Ele era daqueles que, antes de pensar em si, posicionava os outros. E não com gritaria, não com humilhação. Com paciência. Com a mesma paciência que treinava as cobranças de falta.
E olha que ele tinha de sobra essa paciência... porque treinava muito, viu? Muito mesmo. Tanto que, se me permitem a confidência, havia dias que a gurizada já cansava de ficar buscando bola para ele. "De novo, tio?". "De novo, piazada. Quem não treina, não bate". E batia. E a gente buscava. E aprendia, sem saber que aquilo ali era escola, e não escola de futebol. Escola de vida.
Então hoje, quando tenho a oportunidade, como se diz por aí: "Quando tivermos uma oportunidade, que a agarremos com as duas mãos" - eu agarro. E lembro. Lembro do tio Eduardo não só porque era bom de bola. Lembro porque ele me ensinou, ensinou a todos nós, que antes de ser escalado para os titulares da vida, a gente começa de "marrecão". Buscando bola atrás das goleiras. Correndo. Aprendendo. Sendo lapidado por quem já sabe.
E que, quando finalmente entramos em campo, não é para esquecer de onde viemos. É para posicionar quem vem atrás. Para dar confiança. Para proteger.
Não era só futebol. Era o tio Eduardo nos ensinando, sem nunca ter dito em palavras bonitas que a vida é um treino de quarta-feira à tarde: depois da lida, depois da escola, quando o quique da bola no campo faz todo mundo debandar do serviço para ir para onde realmente importa. Para estar junto. Para jogar junto. Para rir junto porque, convenhamos, entre a gurizada, a "frigideira" de papai e os pênaltis do tio, risada não faltava.
E quando eu for batizar alguém, ou nomear alguma coisa, ou simplesmente contar essa história... vou dizer que conheci um Eduardo que transformou o próprio nome em verbo. Eduardar: posicionar com paciência, proteger com generosidade, e tocar a vida com a autoconfiança de quem treinou para isso.