Havia um
homem chamado Zé que carregava nos ombros o peso silencioso das estrelas. Não
era comum: enxergava o mundo com olhos de quem já visitou outros planetas e
voltou para contar - não histórias, mas silêncios.
Os
terráqueos o chamavam de poeta, embora ele raramente escrevesse versos. Sua
poesia morava no espaço entre uma pergunta e uma resposta, na curva atenta do
pescoço quando alguém falava.
Numa
noite qualquer, encontrou uma mulher pequena - não de estatura, mas de ânimo.
Ela carregava dentro de si um oceano negro, bebia para afogar baleias
invisíveis.
Zé não
pregou. Não aconselhou. Simplesmente sentou-se ao lado, ofereceu sua bebida e
tornou-se ombro. Tornou-se ouvido.
E naquele
ato humilde - escutar sem esperar sua vez de falar - aconteceu o milagre que
não tem nome religioso: as tristezas da mulher começaram a sair. Primeiro em
gotas, depois em rios, até que o oceano diminuiu.
Foi nesse
momento que a visão me arrebatou. Imaginei: e se todos fizéssemos assim? Se ao
invés de armas, déssemos atenção? Se ao invés de gritar, perguntássemos? Quantas
guerras não seriam evitadas - nos lares, nas mesas de escritório, nas
fronteiras - se apenas nos escutássemos? O diálogo como ponte, a escuta como
terra fértil onde o outro pode plantar seu sofrimento sem medo de ser ceifado.
Sinto-me,
confesso, pequeno diante dessa verdade. Meus ouvidos estão cansados de tanto
barulho inútil. Mas sei que posso fazer algo. Posso ser, como o Zé, aquele que
arranca uma dorzinha que seja da humanidade. E talvez, aos poucos, nos tornemos
virgens novamente - não de corpo, mas de espírito. Inocentes como poetas que
não semeiam versos, mas flores. Que não conquistam territórios, mas cuidam de
jardins. E enquanto o mundo apodrece em seus gritos, nós, silenciosos,
cultivaremos o que há de mais revolucionário: a ternura de quem sabe ouvir.
(Pensamentos & poemas espirituosos)