terça-feira, 10 de março de 2026

O Poeta que escutava

 

Havia um homem chamado Zé que carregava nos ombros o peso silencioso das estrelas. Não era comum: enxergava o mundo com olhos de quem já visitou outros planetas e voltou para contar - não histórias, mas silêncios.

Os terráqueos o chamavam de poeta, embora ele raramente escrevesse versos. Sua poesia morava no espaço entre uma pergunta e uma resposta, na curva atenta do pescoço quando alguém falava.

Numa noite qualquer, encontrou uma mulher pequena - não de estatura, mas de ânimo. Ela carregava dentro de si um oceano negro, bebia para afogar baleias invisíveis.

Zé não pregou. Não aconselhou. Simplesmente sentou-se ao lado, ofereceu sua bebida e tornou-se ombro. Tornou-se ouvido.

E naquele ato humilde - escutar sem esperar sua vez de falar - aconteceu o milagre que não tem nome religioso: as tristezas da mulher começaram a sair. Primeiro em gotas, depois em rios, até que o oceano diminuiu.

Foi nesse momento que a visão me arrebatou. Imaginei: e se todos fizéssemos assim? Se ao invés de armas, déssemos atenção? Se ao invés de gritar, perguntássemos? Quantas guerras não seriam evitadas - nos lares, nas mesas de escritório, nas fronteiras - se apenas nos escutássemos? O diálogo como ponte, a escuta como terra fértil onde o outro pode plantar seu sofrimento sem medo de ser ceifado.

Sinto-me, confesso, pequeno diante dessa verdade. Meus ouvidos estão cansados de tanto barulho inútil. Mas sei que posso fazer algo. Posso ser, como o Zé, aquele que arranca uma dorzinha que seja da humanidade. E talvez, aos poucos, nos tornemos virgens novamente - não de corpo, mas de espírito. Inocentes como poetas que não semeiam versos, mas flores. Que não conquistam territórios, mas cuidam de jardins. E enquanto o mundo apodrece em seus gritos, nós, silenciosos, cultivaremos o que há de mais revolucionário: a ternura de quem sabe ouvir.

 

(Pensamentos & poemas espirituosos)


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