Há um buraco no peito que nunca enche.
As coisas vêm de todas as portas - com disfarce, sem disfarce,
rastejando pelas frestas, prometendo matar o tédio,
a solidão, os medos que te devoram desde criança.
Todas iguais: remédios, mulheres, bebida, deus, trabalho, poesia.
Sobem as escadas, invadem teus armários,
dormem na tua cama com o cheiro de mentira no cabelo.
Você acredita, sempre acredita.
Aquele otimismo idiota que te fode desde que nasceu.
No dia seguinte o copo está seco, sempre seco.
E você ali, procurando água
num poço de merda.
Eis que vem o amor.
O grande amor.
Aquele que vai salvar tudo.
Mentira.
O amor só abre mais espaço pro vazio.
Faz a solidão crescer em metros cúbicos.
E a fome que ele desperta?
Aquela fome que ninguém vê?
Basta facilitar, e ele vai te levar
pro álcool,
pro tiro na cabeça,
pro vício de se curvar pra qualquer um
que diga que te ama.
Eu sei.
Bukowski também sabia:
há um buraco no peito que não enche
nunca.
E a gente continua jogando coisas dentro,
esperando que uma delas finalmente
cale a boca do nada.
(B. B. Palermo)