sexta-feira, 24 de abril de 2026

Sexo não é tudo

 

Acordei com a boca seca de uísque barato,
e ela disse que os outros eram cópias
eu, o original.
Logo pensei na minha performance
na cama, no sofá, na pia da cozinha
- essa porra de ego masculino
que a gente carrega como uma dívida
que nunca pediu.
Mas ela disse:
- Sexo não é tudo, amoreco,
é só um complemento!
E eu ali
com a calcinha dela no bolso
e a ideia fixa de que precisava
estar sempre de p* duro
como se o mundo fosse acabar
se ele despencasse.
Ela me olhou
com aqueles olhos que já viram
tanta m* de homem
tanta performance vazia
tanto ator pornô de terceira categoria
tentando provar alguma coisa.
E eu percebi
tarde demais, como sempre,
que ser original
não era sobre quantas vezes
eu conseguia gozar
ou fazê-la gozar.
Era sobre estar ali
de pau mole e alma exposta
sem a armadura do desejo
sem a necessidade de performar
como um idiota no palco
de um teatro que ninguém assiste.
Sexo não é tudo,
é apenas o que sobra
quando você não tem coragem
de amar de verdade.
E eu,
que nunca tive coragem de nada,
fiquei ali
com a calcinha dela no bolso
e a voz dela na cabeça
como uma sentença
que eu não sabia
se era absolvição
ou condenação.
(B. B. Palermo)

quarta-feira, 22 de abril de 2026

Você é um poeta esquisito

 

Cheguei atrasado para a revolução. Meu coração bate em compasso de jazz desafinado, um bebop de tambores descompassados, enquanto o mundo dança uma valsa que nunca aprendi. Sou o beatnik que perdeu o bonde da Kerouac, o vagabundo espiritual que tropeça nos próprios cadarços de poeta.
Nos bares fumacentos de uma era que não me pertence, ouço os fantasmas de Ginsberg recitando howl em mesas vazias. Bebo meu uísque imaginário e finjo entender o código de quem vive sem amarras. Mas sou um turista no país da libertação - carrego no bolso um mapa do tesouro que aponta sempre para o mesmo lugar: ela.
Estranho até na paixão. Quando o amor me pega de jeito - bang! - sinto-me como um ateu diante de uma aparição mariana, cético e atordoado, contando estrelas no teto enquanto ela dorme. Meu coração, esse baterista bêbado, desfila em marcha lenta quando deveria correr. Chego sempre na estação depois que o trem partiu, acenando para passageiros que não existem mais.
Budista nas intenções, beat na alma, e completamente perdido na prática. Medito no caos, busco o nirvana entre lençóis amassados, encontro o sagrado no arquejo pós-amor quando ela sussurra "fica aí, não sai daí" e eu, molenga e feliz, me dissolvo em paz. É uma espécie de iluminação, só que com mais suor e menos incenso.
Mas que se dane o ritmo certo. Que se dane a dança perfeita. Sou um simpático desafinado, um retardatário de alma antiga, e se não sei dançar a valsa da minha própria vida, aprendo a rebolar desajeitado ao som do que ela ri. Porque no fim das contas - e o fim das contas é agora, é sempre agora -, ser estranho no amor é apenas outro jeito de ser original.
Ela me olha com aquele sorriso de quem conhece o meu truque: "Você é um poeta esquisito," diz, "mas é meu poeta esquisito." Dou de ombros, murchando e florescendo ao mesmo tempo. Fora de época, fora de ritmo, fora de moda - mas dentro dela, exatamente onde deveria estar.
(B. B. Palermo)

segunda-feira, 20 de abril de 2026

Retiro espiritual


Na cama, ao seu lado, meus sentidos farejavam sexo como cães famintos - olhos, boca, nariz, dedos, lábios - todos prontos para o bote, prontos para o mergulho profundo de um homem que esperou tempo demais. Mas ela, com aquele jeito de quem transforma fogo em água benta, converteu nosso lençol num retiro espiritual. Respirei fundo. Tentei seguir o professor de ioga do YouTube, meu corpo colado ao tecido suado, grudado da cabeça aos pés.
Mil budas ririam da minha luxúria descompassada.
- Inspira. Expira. Relaxa pernas, joelhos, ventre...
Nada. As mãos desciam sozinhas, rebeldes, por suas costas, peitos, curvas, e minha boca mordia, sugava, arrancava lascas de seus lábios até que ela gemesse:
- Neguinho, vai devagar, tu tá me machucando!
Eu, pobre diabo com ideia fixa, desejava apenas que meu Júnior desabrochasse como Flor de Lótus, renascesse das cinzas do desejo contido.
O professor insistia:
- Deixe os pensamentos passarem... sinta o aqui e agora.
Impossível. Minha mente viajava por sex shops virtuais, catava afrodisíacos naturais, planejava a grande ascensão.
Quase desliguei o som. Quase.
Foi quando ela se virou, colou a testa na minha e sussurrou, meio sorrindo, meio suspirando:
- Amorzinho, tu sabe que o Kama Sutra também é meditação, né?
E assim, entre o om e o oh!, encontramos o nosso nirvana particular. Nem tão espiritual, nem tão profano, mas profundamente, ridiculamente nosso.
(B. B. Palermo)

sexta-feira, 17 de abril de 2026

E agora, Palermo?

 


E agora, Palermo, quando o álbum fecha e a luz da sala fica mais amarela, e o silêncio entre nós dois pesa mais que o tempo todo que levamos para chegar até aqui?
E agora, Palermo, quando você descobre que o amor não é só aquela coisa de novela das seis, mas também é isso: dois sonhadores sentados no chão, cercados de fantasmas de cabelo comprido e glúteos que já não são mais os mesmos?
E agora, Palermo, quando você percebe que conhecer uma mulher é como tentar ler um livro em braille com luvas de boxe? Que cada página é uma surpresa, cada capítulo uma pequena morte do que você achava que sabia?
E agora, quando você entende que o universo feminino não é um apelo, Palermo, é um chamado de emergência, uma sirene ambulante, dizendo:
- Corra, desgraçado, corra para dentro de si mesmo antes que seja tarde demais!
E agora, Palermo, quando a saudade inexplicável bate à porta e você não sabe se é da criança que mora em você ou da mulher que está sentada do outro lado do sofá, folheando o mesmo álbum que você, fingindo não notar que você está quase chorando?
E agora, quando você descobre que o amor é isso: quase chorar por causa de uma foto de 1987 onde ela está usando uma blusa que você nunca vai conhecer, numa cidade que você nunca vai visitar, sorrindo para um futuro que, por acaso, era você?
E agora, Palermo, quando você finalmente entende que as bombas do amor não explodem? Elas ficam ali, no colo, fazendo tic-tac, e você aprende a viver com o barulho. Aprende a fazer café com o barulho. Aprende a dormir com o barulho. Até que um dia você percebe: o barulho era a música. Sempre foi. E ela estava ali, do seu lado, tentando ensinar você a dançar.
E agora, Palermo?
Agora você fecha o álbum, pega a mão dela - que já não é a mão da foto, mas é a mão que escolheu ficar - e propõe:
- Vamos fazer novas fotos, você e eu, com essas caras de agora, com esses corpos de agora, com esse amor que é agora.
E ela ri. E você ri. E o silêncio que antes pesava agora flutua, leve como poeira num raio de sol da tarde de domingo.
E agora, Palermo?
Agora você tem coragem. Agora você conhece a si mesmo. Agora você caminha na praia. Agora você conversa sobre tantas coisas. Agora você é feliz, seu desgraçado. Agora você é feliz.
(B. B. Palermo)

quarta-feira, 15 de abril de 2026

Respirando sem ajuda do aparelho

 

Oito dias sem usar o celular.
No começo, houve alguma ansiedade, e a pressa para avisar aos mais próximos de que estava "ilhado". Um dia depois percebi que posso respirar sem ajuda de aparelhos.
Esqueci duns grupos de Whats que participava - talvez algum conhecido tenha partido pra outra, e eu fiquei sem saber... mas sei que, por dentro ou não, tragédia e mistério sempre há de pintar por aí.
Sem o celular a me vigiar e eu a vigiá-lo, observei com mais cuidado as coisas ao redor. O sol continua nascendo e se pondo, o verão deu lugar pro outono e, dizem, o inverno vem aí. Vi as pessoas desfilando com seus aparelhinhos. Tudo muito óbvio? Acho que sim. Parece que o mundo real se afastou, ficou em segundo plano.
Sem as tantas ocupações e noias que a tela me proporcionava, me voltei para as vésperas do aniversário do meu amor, torcendo para que ela continue me surpreendendo, e eu a ela. E que me inclua nos seus planos, e vamos que vamos, juntos, fazendo e pagando contas, sempre nas boas e nas ruins.
No sétimo dia, o celular ressuscitou. Trezentas e quarenta e sete notificações. Mensagens de preocupação, memes, cobranças de trabalho, promoção de pizza. E uma mensagem dela, enviada no primeiro dia:
- Amor, estou indo pra casa da minha mãe, não sei quando volto. Preciso pensar.
Li de novo. E de novo. Procurei mensagens seguintes - nenhuma.
Liguei. Caixa postal.
Fui até a janela. O sol se punha bonito, indiferente. O outono dançava nas folhas. E eu ali, de repente, respirando com muita ajuda de um aparelho que não era o celular... O peito apertado, o silêncio da casa ecoando como uma pergunta que eu tinha esquecido de fazer enquanto admirava o mundo lá fora.
Afinal, o mundo real não tinha ido pra lugar nenhum. Eu é que tinha aprendido a olhar pra tudo, menos pra ela, sentada ali, do outro lado da mesa, esperando que eu notasse que ela também existia.
(B. B. Palermo)

  O ateu que frequenta centro espírita  O ateu que frequenta centro espírita é uma contradição ambulante - e eu me incluo nesse grupo. Além ...