"O amor é como o mercúrio na palma da mão. Conserve os dedos abertos e ele fica. Feche-os e ele se desprende" (Dorothy Parker).
Esperei que passasse a lua cheia, depois a minguante e, mesmo assim, decidi não cortar o cabelo.
Acho que foi por vaidade, ou capricho de moleque tardio.
Sobre a cabeça, uma pequena floresta de cabelos desajeitados, meio encaracolados.
Estratégia: ao sair do banho, não os penteio, apenas os arrumo com as mãos.
O problema são os fios esbranquiçados que se derramam do pescoço em direção às costas.
Meu bem deu um jeitinho.
Catou de uma caixa uma navalha que sua mãe usou durante décadas, botando abaixo o cabelo de filhas, netos e sobrinhos.
Depois que podou a parte detrás do pescoço, ela resolveu cortar uns pelos compridos que se exibiam pra lá de horríveis entre meu pescoço e peito, fios que escapavam do meu barbeador.
No finalzinho, próximo à jugular, ela enquadrou meus olhos, e inquiriu:
- Você me ama?
Senti a navalha fazendo cócegas, suei frio, tremi.
- Mu... mu...mui...to!
(B. B. Palermo)