segunda-feira, 22 de junho de 2026

Não era só futebol



Por que não falar em nomes, já que tudo começa por aí? Vila Faguense. Juventus. E os nossos próprios nomes, dados pelos pais no batismo.
O tio Eduardo não escolheu o dele. Foi dado. Assim como o meu, o seu, o de cada um daquela gurizada que corria atrás das goleiras. Mas o que ele fez com o nome... isso sim foi escolha dele. Transformou "Eduardo" em sinônimo de capitão. De quem orienta. De quem bate pênalti e falta como ninguém - e batia porque treinava, porque tinha paciência para repetir, persistência para não desistir, autoconfiança para assumir a responsabilidade.
E não era só no futebol... Não era só futebol.
Lembro que quando o Alvino, meu irmão, quase criança ainda, aos catorze anos teve que vestir a camisa de goleiro do time principal, foi o tio Eduardo quem o lançou. Literalmente. O Antenor, meu outro irmão, tinha descoberto algo mais divertido para os domingos: tirava a capota do 29 do nosso pai - aquele velho carro que a gurizada apelidou de "frigideira", lembram? e saía com os amigos para festas, bailes, matinês.
E lá estava o Alvino assumindo o posto do irmão, tremendo diante dos marmanjos adversários. Mas não estava sozinho. Por perto havia um zagueiro e capitão, posicionando, orientando, dando confiança e segurança. Protegendo.
Sabe, às vezes penso: o tio Eduardo não precisava fazer aquilo. Não era obrigação dele cuidar de um guri assustado no gol. Ele podia ter sido daqueles que só joga o próprio jogo e deixa o resto se virar. Mas não. Ele era daqueles que, antes de pensar em si, posicionava os outros. E não com gritaria, não com humilhação. Com paciência. Com a mesma paciência que treinava as cobranças de falta.
E olha que ele tinha de sobra essa paciência... porque treinava muito, viu? Muito mesmo. Tanto que, se me permitem a confidência, havia dias que a gurizada já cansava de ficar buscando bola para ele. "De novo, tio?". "De novo, piazada. Quem não treina, não bate". E batia. E a gente buscava. E aprendia, sem saber que aquilo ali era escola, e não escola de futebol. Escola de vida.
Então hoje, quando tenho a oportunidade, como se diz por aí: "Quando tivermos uma oportunidade, que a agarremos com as duas mãos" - eu agarro. E lembro. Lembro do tio Eduardo não só porque era bom de bola. Lembro porque ele me ensinou, ensinou a todos nós, que antes de ser escalado para os titulares da vida, a gente começa de "marrecão". Buscando bola atrás das goleiras. Correndo. Aprendendo. Sendo lapidado por quem já sabe.
E que, quando finalmente entramos em campo, não é para esquecer de onde viemos. É para posicionar quem vem atrás. Para dar confiança. Para proteger.
Não era só futebol. Era o tio Eduardo nos ensinando, sem nunca ter dito em palavras bonitas que a vida é um treino de quarta-feira à tarde: depois da lida, depois da escola, quando o quique da bola no campo faz todo mundo debandar do serviço para ir para onde realmente importa. Para estar junto. Para jogar junto. Para rir junto porque, convenhamos, entre a gurizada, a "frigideira" de papai e os pênaltis do tio, risada não faltava.
E quando eu for batizar alguém, ou nomear alguma coisa, ou simplesmente contar essa história... vou dizer que conheci um Eduardo que transformou o próprio nome em verbo. Eduardar: posicionar com paciência, proteger com generosidade, e tocar a vida com a autoconfiança de quem treinou para isso.

segunda-feira, 15 de junho de 2026

Não adianta fugir


Ela usa minhas canetas para prender o cabelo.
Tenho medo que o exílio das canetas expulse minhas ideias e detone meu cérebro - seria o fim do poeta.
Se reclamo, a leoa dá de ombros e ruge:
- Eu tenho ciúme do tempo que não vivia com você! Cale a boca! Não fale das garotas que você levou pra cama como se estivesse narrando uma final de competição, e sempre subindo no pódio, se achando o gostoso!
Além das canetas, temos um mata-moscas de prontidão na cozinha, sobre o micro-ondas.
No dia que ela chegou com aquele negócio terrível, exclamei:
- Acertou, meu bem! Tu sabe que eu tenho o pulso firme!
Pensei: acho que ela quer mandar pro espaço qualquer serzinho que se intrometa em nossa relação.
Sabemos que a vida é experimental e que tudo se transforma, mas o que importa é o esforço para manter acesa a chama do amor.
Para isso, não economizamos nas lembranças de coisas vividas, músicas e livros que nos acompanham desde velhos tempos.
Lemos juntos vários livros, mas paramos nas primeiras 20, 30 páginas, atropelados pelos fatos cotidianos que rolam na praia do A. Texas.
Que os planos permaneçam inacabados não é um problema. O que vale é o prazer de vivermos isso juntos.
Um anjo me disse, num sonho:
- Não foge! Ela precisa de você!
Desconfio que a criaturinha gosta de troçar comigo. Com certeza, foi isso o que quis dizer:
- Não foge! Você não consegue viver sem ela! Quanto mais você foge, mais o amor gruda em você!
(B. B. Palermo)

terça-feira, 2 de junho de 2026

Original



Aniversário, dois dias reunindo amigos, churrasco, bebida, muitos planos com meu amor, debates sobre o que fazer para salvar a humanidade. Bora comemorar, afinal não é todo o dia que se envelhece na praia do A. Texas.
Dez da noite do segundo dia, não consigo disfarçar uma mistura de bocejo com o tédio sacana, que ri: "E aí, Palerminho, o que tu vai fazer agora que a festa acabou?".
Em silêncio, peço uma trégua. Meu cafofo está mais ansioso do que eu, esses dias todos me esperando, e sinto um pouco sua falta, do seu jeito meio bagunçado de ser.
Ingênuo, não percebi que meu amor andou me testando. Sim, como se eu estivesse fazendo um estágio. Até que ponto eu sobreviveria, durante dois dias, o tempo todo juntos. Será que ela suportaria meus humores geminianos maluquinhos?
Ela notou o meu bocejar e também a minha cara meio inchada pelo falta de sono. Foi solene:
- Faz tempo que tu não vai ao médico, né?
E abriu as cartas de tarô, que ganhou de uma tia:
- Amor, tu precisa tomar vitamina B12. É por isso que tu anda assim cansado!
Nessa hora me dei conta de que o cerco estava se fechando. E agora, o que faço? Ser ou não ser original?
Imaginei os comentários de alguns amigos, rindo cruéis : "Quem te viu e quem te vê!". "Isso não te pertence mais, Cadelão!". "Cadê o poeta que canta por aí sua doce busca pela originalidade?".
Não consigo resistir quando ela sussurra em meu ouvido:
- Amorzinho, tu está aqui porque é um pedido especial que eu fiz pro universo. Tu chegou atrasado na minha vida, e agora não tem mais volta!
Coisas acontecem, e só um Palermo enfeitiçado é que não percebe.
- De agora em diante eu vou te dar 100 pila por semana pra tu ir pro boteco beber, os cartões serão resgatados e guardados na minha bolsa, e vou reorganizar as tuas finanças.

(B. B. Palermo)


Não era só futebol

Por que não falar em nomes, já que tudo começa por aí? Vila Faguense. Juventus. E os nossos próprios nomes, dados pelos pais no batismo. O t...