segunda-feira, 20 de abril de 2026

Retiro espiritual


Na cama, ao seu lado, meus sentidos farejavam sexo como cães famintos - olhos, boca, nariz, dedos, lábios - todos prontos para o bote, prontos para o mergulho profundo de um homem que esperou tempo demais. Mas ela, com aquele jeito de quem transforma fogo em água benta, converteu nosso lençol num retiro espiritual. Respirei fundo. Tentei seguir o professor de ioga do YouTube, meu corpo colado ao tecido suado, grudado da cabeça aos pés.
Mil budas ririam da minha luxúria descompassada.
- Inspira. Expira. Relaxa pernas, joelhos, ventre...
Nada. As mãos desciam sozinhas, rebeldes, por suas costas, peitos, curvas, e minha boca mordia, sugava, arrancava lascas de seus lábios até que ela gemesse:
- Neguinho, vai devagar, tu tá me machucando!
Eu, pobre diabo com ideia fixa, desejava apenas que meu Júnior desabrochasse como Flor de Lótus, renascesse das cinzas do desejo contido.
O professor insistia:
- Deixe os pensamentos passarem... sinta o aqui e agora.
Impossível. Minha mente viajava por sex shops virtuais, catava afrodisíacos naturais, planejava a grande ascensão.
Quase desliguei o som. Quase.
Foi quando ela se virou, colou a testa na minha e sussurrou, meio sorrindo, meio suspirando:
- Amorzinho, tu sabe que o Kama Sutra também é meditação, né?
E assim, entre o om e o oh!, encontramos o nosso nirvana particular. Nem tão espiritual, nem tão profano, mas profundamente, ridiculamente nosso.
(B. B. Palermo)

Retiro espiritual

Na cama, ao seu lado, meus sentidos farejavam sexo como cães famintos - olhos, boca, nariz, dedos, lábios - todos prontos para o bote, pront...