E agora, Palermo, quando o álbum fecha e a luz da sala fica mais amarela, e o silêncio entre nós dois pesa mais que o tempo todo que levamos para chegar até aqui?
E agora, Palermo, quando você descobre que o amor não é só aquela coisa de novela das seis, mas também é isso: dois sonhadores sentados no chão, cercados de fantasmas de cabelo comprido e glúteos que já não são mais os mesmos?
E agora, Palermo, quando você percebe que conhecer uma mulher é como tentar ler um livro em braille com luvas de boxe? Que cada página é uma surpresa, cada capítulo uma pequena morte do que você achava que sabia?
E agora, quando você entende que o universo feminino não é um apelo, Palermo, é um chamado de emergência, uma sirene ambulante, dizendo:
- Corra, desgraçado, corra para dentro de si mesmo antes que seja tarde demais!
E agora, Palermo, quando a saudade inexplicável bate à porta e você não sabe se é da criança que mora em você ou da mulher que está sentada do outro lado do sofá, folheando o mesmo álbum que você, fingindo não notar que você está quase chorando?
E agora, quando você descobre que o amor é isso: quase chorar por causa de uma foto de 1987 onde ela está usando uma blusa que você nunca vai conhecer, numa cidade que você nunca vai visitar, sorrindo para um futuro que, por acaso, era você?
E agora, Palermo, quando você finalmente entende que as bombas do amor não explodem? Elas ficam ali, no colo, fazendo tic-tac, e você aprende a viver com o barulho. Aprende a fazer café com o barulho. Aprende a dormir com o barulho. Até que um dia você percebe: o barulho era a música. Sempre foi. E ela estava ali, do seu lado, tentando ensinar você a dançar.
E agora, Palermo?
Agora você fecha o álbum, pega a mão dela - que já não é a mão da foto, mas é a mão que escolheu ficar - e propõe:
- Vamos fazer novas fotos, você e eu, com essas caras de agora, com esses corpos de agora, com esse amor que é agora.
E ela ri. E você ri. E o silêncio que antes pesava agora flutua, leve como poeira num raio de sol da tarde de domingo.
E agora, Palermo?
Agora você tem coragem. Agora você conhece a si mesmo. Agora você caminha na praia. Agora você conversa sobre tantas coisas. Agora você é feliz, seu desgraçado. Agora você é feliz.
(B. B. Palermo)