Passei duas vezes pela mesma rua e vi, numa varanda esquecida, um velhinho com um mata-moscas. Não o vi mover o braço. Apenas segurava o objeto, como quem espera que o tempo passe. "A boca escancarada cheia de dentes", mosqueando.
Eu, que sempre fugi do recreio escolar para ler na biblioteca, entendi: ele não caçava moscas. Esperava.
Mas aqui em casa o zumbido é outro. Meu amor prepara meu café - e as moscas chegam, atraídas pelo açúcar. Ela vai pra cima delas com seu mata-moscas. É cômico e lindo: a determinação com que defende uma xícara de café, como quem protege um tesouro.
Eu observo, rindo por dentro. E vejo: ela não está matando moscas. Está me ensinando.
Raul Seixas dizia que a mosca "perturba o sono" e que não adianta dedetizar - você mata uma, vem outra. Mas aqui, na cozinha, a lição é diferente. Cada vez que ela erra o golpe e a mosca escapa, eu aprendo: insistir no erro também é ternura. A raiva de quem quer proteger um café quente é a mesma de quem quer proteger uma manhã inteira.
As moscas voltam. Sempre. E meu amor volta também, com seu mata-moscas e sua paciência de quem sabe que matar uma não resolve, mas continua tentando.
Eu, que sou bagunceiro por natureza, aprendo que há amor na repetição. Na paciência de café após café.
"Água mole em pedra dura", cantava Raul. Aqui, a água é o zumbido. A pedra é a teimosia. E o amor - esse meu amor que vai para cima das moscas com uma raiva tão doce - é o que insiste, zumbindo no peito.
Talvez eu seja a mosca que ela nunca pega. Aquela que pousa na sopa e descobre que ser perseguido, às vezes, é ser amado. Que o mata-moscas erguido contra mim é também um convite: "Fique, mas não se acostume".
O velhinho da varanda me ensinou a esperar. Meu amor me ensina a não me acomodar, a não ficar sentado com a boca aberta esperando a vida passar.
Porque, no fim, somos todos moscas. E o amor - esse zumbido que não se extermina - é o que nos mantém zumbindo, café após café, contra o esquecimento.
E não adianta vir me dedetizar. Você mata uma metáfora - e vem outra em meu lugar.
(B. B. Palermo)
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