BEM ANTES DO SUS, PRECISO CUIDAR DO MEU CORAÇÃO


A partir de agora, o Instituto do coração do Hospital de Caridade de Ijuí (HCI) atenderá pelo Sistema Único de Saúde. Serão prestados serviços de Alta Complexidade em Cirurgia Cardiovascular... (...) A estimativa é de que cerca de 1,5 milhão de pessoas sejam beneficiadas com o atendimento. (Zero-hora, 31/12/2009).

Devo continuar judiando meu coraçãozinho para depois, em desespero, depositá-lo ao "deus-dará" nas mãos do SUS?

Tantas vezes o fiz trabalhar dobrado, porque comi e bebi demais.

Tantas vezes o fiz bater acelerado e descompassado, porque tive ódio, inveja, fraqueza e medo. E aí, em vez de dar-lhe folga, devorei copos e pratos cheios de coisas desnecessárias, fazendo-o trabalhar como um escravo.

Nos momentos de correr e caminhar, oportunidade para enrijecer os músculos de meu coração, deixei-me apanhar pela preguiça, e não tive tempo para ouvir a voz da razão e, muito mais, do meu coração.

Não é por acaso que coração simboliza sentimento, emoção. Se alguém te disser, meio rindo, no momento em que você estiver e-xa-ge-ra-da-men-te agressivo, "pra que tanto ódio nesse coraçãozinho!", você tem que responder: "Não meu amigo, não é meu coração que odeia, mas sim minha razão, que é a fonte e depósito de meus pensamentos. Meu coração só quer amar!".

O SUS promete cuidar de meu coração com assistência de alta complexidade, mas eu quero me antecipar a isso, e conhecer a complexidade de meus vasos, os quais permitem o sangue circular pelo meu corpo.

Certo dia fiquei espantado quando li que meus vasos sanguineos, se forem emendados uns nos outros, tem o comprimento tal a ponto de dar duas voltas em nosso planeta. E o meu caro coraçãozinho é quem bombeia sangue para toda essa extensão de mim.

Cuidar do meu coração nada mais é do que cuidar de mim. Porque, se ele parar de bater, o na-da sobre mim se abaterá.

SEM TESÃO NÃO HÁ SOLUÇÃO



Até parece que eu sei

o que ele sentiu

quando a viu.

Foi algo do tipo:


Seu cheiro me atrai e enlouquece

e quanto mais me aproximar

mais vou querer e tentar

e tentar e querer...


Até quando esse jogo vai durar, não sei.

O tempo do tesão tem sua própria duração.

SOSSEGO


Caramba, nem nas férias temos sossego.
Responder e-mails, cortar a grama, limpar o quintal porque os vizinhos, a toda hora, nos lembram disso com suas indiretas: " -Olha que pode aparecer cobra venenosa!".
Encontrar um lugar decente para os recortes de textos de jornais, livros e cds espalhados pelos cantos.
O pior é que nem nas férias nos livramos dos lapsos. "- Cadê o bilhetinho que continha número do telefone celular e e-mail daquele contato que poderá mudar nosso destino?"
E as compras do mercado, essas ficarão comprometidas, se não levarmos um bilhetinho no bolso, nem que seja para comprar meia dúzia de coisas. Se não anotamos o que vamos comprar, carregamos pra casa um monte de supérfluos. E, o que é pior, vamos entupindo os armários com sacos plásticos, e entupindo nossa consciência com sentimento de culpa.

Mas não tem nada, não. Um dia ainda aprendo a meditar, pra deixar a mente orbitar no seu devido lugar!

AVISO IMPORTANTE - Luis Fernando Verissimo



O uso excessivo do telefone celular

frita o seu cérebro como uma fornalha.

Não é verdade mas espalha, espalha.


(Da série "Poesia numa Hora Dessas?")

UM VIOLINISTA NO TELHADO



A tradição, com suas regras e princípios, garante o conjunto de crenças que vão nortear as decisões de cada indivíduo. A tradição vai amortecer nossas quedas e tropeços, e vai auxiliar na hora de justificarmos nossas misérias.

Por outro lado somos, ao mesmo tempo, rebeldes e frágeis, e podemos sucumbir (uns mais, outros menos) à contracorrente que vem da rebeldia - aquela força tentadora em direção à mudança.

No filme Um violinista no telhado, seu personagem principal é um pai, de cinco filhas, que está no meio desse fogo cruzado entre o velho e o novo. E ele vive o dilema de maneira intensa. Embora rude, sabe que os livros, a cultura, o conhecimento adquirido pelos mais velhos, têm grande valor.

E por isso, a todo momento, questiona a Deus, grande representante da tradição judaica, o porquê da condição de pobreza, dele e de sua família. É analfabeto, porém não deseja que suas filhas também o sejam. Sua esposa é simples, batalhadora, enfim, é uma síntese das "boas" atitudes que estão em comum acordo com os apelos de sua cultura.

Mas ele deseja que a esposa conquiste uma melhor condição do que aquela. O mesmo vale para suas filhas. Vale ressaltar que as filhas não se deixam limitar pelas rédeas dessa tradição (machista). Ainda mais quando chega à aldeia um jovem rapaz com mais estudo do que os que ali moram. Ele mostra para elas (desempenhando o papel de, até certo modo, preceptor) uma outra visão de mundo, a da luta de classes, da exploração e alienação social.

Enfim, o pai, que elegemos como sendo o personagem principal, encontra-se numa situação semelhante à do violinista no telhado: suas atitudes e condição, o lugar onde está, tudo isso é perigoso, pois a toda hora pode escorregar e se machucar. Mas iso só ocorre porque está vivo. Vivo e ativo.

O nascimento, que é uma afirmação sui gêneris do novo, representa esse lugar de risco, mas de abertura para novas possibilidades, que podem resultar em ruptura com aquilo que é nocivo para nós e para com os que convivem conosco.

Que nesse natal, o nascimento não seja apenas o daquele menino que todos conhecemos pelo nome de Jesus. Que o natal sirva também para o nosso nascimento.
O amor derreteu-se
como um sorvete
no calor do verão
e ajudou a moça a despir
pernas cochas e ombros.

Sua foto no jornal era o close de um lar

com marido, filhos e um amor sereno,

como disseram nossos pais.

Queria decifrar o que acontece
no meu trabalho
sem usar o lugar-comum.
Mas tudo está
aloprado.

CARAVELA - Gabriel Bicalho



O

azul

anzol do

teu olhar

me puxa

como

um

peixe

FINAL DE FESTA



Minha via-crúcis me fez suportar as lojas lotadas do centro, atrás do visual ideal para despertar seu olhar. Mas as vendedoras tinham a alma cansada e concentrada nas comisões do final de temporada.

Meus planos não eram os de ser o Papai Noel da festa. Precisava de uma performance genuína. Afinal, todos dizem para que sejamos improvisadores, e que façamos sempre diferente.

Precisava despertar sua atenção, como os fogos de artifício na praia de Copacabana, na virada de ano.

Minha inspiração andava meio desnorteada, por causa da cobrança maluca de alcançar um final feliz.

Todos estão cansados de saber que chegamos no final dessa festa que é o 2009 meio carentes de olhares e aplausos. E aqueles em que mais apostavámos que nos olhassem e aplaudissem, foram os mais indiferentes.

Os outros gravitam em órbitas diferentes, e a grana para pagar analista anda meio curta. Se os outros só falam de si mesmos, resta-nos o comércio. As roupas, jóias e calçados tornam-se o par ideal.

Não prometemos fidelidade, até que a morte nos separe. Já tínhamos assinado um pré-contrato com a moda. E a moda anda igual camaleão.

Eu não era diferente de todo mundo. Um amigo meu comprara a mesma camisa, e a estava usando justamente nesse dia.

Quem dera você não tivesse aparecido nessa festa. De mãos dadas com outro, você estancou a hemorragia de meus sonhos.

PALMAS NO FINAL

Acabou o filme e as crianças aplaudem, não sei se eufóricas, decepcionadas ou indiferentes.
Aplaudem o filme, o teatro, a história, por educação, alegria ou pela força do hábito.
No final desse ano vou aplaudir, com euforia, o que fiz (não, não vai ser pelo dinheiro, que esse foi tão pouco...). Foram novos ensaios, novos amigos(as), e descobertas que colhi por inventar outras formas de agir.
E você, leitor e/ou leitora, vais dedicar-te muitas palmas no final deste mês?

LEMBRANÇAS DE NATAL



A imagem de Natal que guardo comigo não é a de uma torre, com dezenas de metros de altura, e milhares de lâmpadas coloridas e piscantes, num lugar movimentado e vistoso de um grande centro urbano.

Minha lembrança latente é a de uma estrela, imensa e misteriosa, que indicou aos Reis Magos o lugar de nascimento daquele menino simples, filho de pais pobres, e que veio nos mostrar outros (novos) caminhos: o da simplicidade, humildade, altruismo, liberdade e amor.

Pequenas observações sobre a vida em outros planetas - Ricardo Silvestrin



PLANETA DESERTO


Do planeta deserto,

ninguém chega perto.

Não adianta bater palmas

e dizer "oh de casa!",

não vem cachorro latindo,

vizinho espiando,

criança sorrindo.


O carteiro não leva carta,

o circo não leva alegria.

A noite é igual ao dia.


No planeta deserto,

não existe errado

nem certo.

CACASO - do livro LERO-LERO (1967-1985)



RITO


Cadê o queijo que estava aqui?

O gato comeu.

Gato filho da puta.


LÓGICA MENOR (DE IDADE)


Nem todo guerreiro guerreia

nem todo Pacífico é de paz

nem todo Constante é constante


mas a Gracinha é gracinha


MINORIDADE


Sou criança mas não sou

bobo


CONSOLO NA PRAIA


A beleza passa mas a inteligência

permanece


CARTEIRA PROFISSIONAL


Não sou amado no amor: sou

amador


O LUGAR DA TRANSGRESSÃO


Encontrei um sapo cochilando dentro de

minha botina. Nunca me meti em botina

de sapo. Que liberdades são essas?


ROTINA


Uma comissão de urubus inspeciona

o pasto desde ontem. Foi cascavel novamente.


SÃO FRANCISCO


O velhinho saiu da janela pra não ser

fotografado.

Coisa de criança.


MODA DE VIOLA


Os olhos daquela ingrata às vezes

me castigam às vezes me consolam.

Mas sua boca nunca me beija.


LÁ EM CASA É ASSIM


Meu amor diz que me ama

mas jamais me dá um beijo


pra continuar rejeitado assim

prefiro viajar para a Europa.


SERESTA AO LUAR


Desde que declarei meu amor nunca

mais me olhou de frente.

DO LIVRO "CLASSIFICADOS POÉTICOS" - Roseana Murray



Menina apaixonada oferece

um coração cheio de vento

onde quem quiser pode soprar

três sementes de sonho.

O coração da menina

ilumina as noites escuras

como se fosse um farol.

É um coração como todos os outros:

às vezes diz sim

às vezes diz não

às vezes diz sim

às vezes diz não

e tem sempre uma enorme

fome de sol.

SEM ASSUNTO



Não sei se foi furacão tornado que passou por Ijuí.

Só sei que me entornei, qual árvore torturada no liquidificador.

E foi assim que esse (tão) pouco pude escrever.


Seus olhos

consoantes

a vogais

sublinhavam

tônicas

trêmulas


a boca DJ

cuspia

canções

tetraplégicas


nem tosse

nem rinite

alérgica

era overdose

da adrenalina

biotônica.

LUA ATRÁS DO TELHADO



Estava na ante-sala

e seus passos

pediam socorro

às lajotas.



Usava short

peircing no nariz

e tinha olhar assustado

pra estremecer

gengivas e lábios.



Recordo o episódio

emocionado ao avistar a lua cheia

sair detrás do telhado de um prédio.



Não quero pensar

sou todo sentir

- sem rancor nem ódio -

e enxergar a moça e a lua

turbinando de vida

o tédio.

Clipe