UM ANTRO DE ASSASSINOS - Leo Cunha


Quatro anos de idade, olhos inquietos, fita azul no cabelo, a menina espia toda a sala para garantir que ninguém está escutando. Depois fala quase sussurrando:
- Hoje você não me ponha os pés fora dessa casa, ouviu bem?
E balança o travesseiro de penas, que, fazendo as vezes de bebê, responde:
- Por quê, mamãe?
- Por que não! Pronto e acabou! - a garota ralha com o travesseiro.
- Mas eu queria brincar lá na rua...
A menina sacode o travesseiro no ar:
- Não discuta comigo! Quer ficar sem sobremesa?
O bebê não quer.
- Sorte sua, filhinho. Hoje tem... tem... hoje tem cocada.
Lambe os beiços pensando na cocada, quando, de repente, escuta um barulho do lado de fora. Acha que alguém vai entrar pela porta, finge que o bebê é um travesseiro e deita  a cabeça, com muito cuidado.
Não era ninguém. A menina se empina de novo e desamarrota o bebê.
- Se você prometer que não vai falar pra ninguém, eu te conto um segredo...
O bebê promete.
- Sabe por que eu não deixo você sair? É que essa cidade aqui é muito perigosa. Eu vi na televisão um moço falando que essa cidade é um antro de assassinos... Imagina, filhinho, um antro!
O bebê sacode de medo.
- Pois é... - a menina sussurra. - Até eu, que sou velha, que sou sua mãe, até eu fico com medo de sair pra rua. Mas o que é que a gente pode fazer, né? O papai tem que trabalhar aqui.
Olha de novo ao redor e abraça apertado o filhinho.
- Mas não fica com medo, não. Se a gente ficar em casa, bem comportada, não vai ter problema nenhum. O papai não ia trazer a gente pra essa cidade se fosse tão perigoso assim. Vai ver o moço da TV exagerou um pouco.
O sono vai batendo, o bebê vai virando travesseiro de novo, a menina já está quase dormindo.
- Sabe, filho, eu só queria mesmo era saber uma coisa: o que será que quer dizer "um antro"?...


Do livro Tela plana, editora Planeta.

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