Na fila do banco


Observo as testas franzidas, olhares tristes e apreensivos, na fila do banco. Mesmo que resultem angustiadas, as pessoas precisam se ocupar. Ter dívidas, negócios complicados, sonhos adiados.
Se tiverem muito tempo para o ócio, para ler e pensar, definharão no tédio, perguntarão pelo sentido da vida. Talvez, então, acenda a luz da desconfiança, de que não há um sentido. Se assim for, é bem provável que disparem as estatísticas de suicídios.
Mantenha o povo ocupado. Noventa por cento com muito trabalho e pouco salário.
Desperte na massa o desejo de alimentar alguns sonhos. Apresente a ela astrólogos, padres e pastores, pensadores de autoajuda. De acordo com o sábio mercado, neste mundo tudo pode ser vendido. Como num afago ou aperto de mão, parecendo fazer um favor, ofereça ao rebanho fartos pacotes, programas e produtos.
A publicidade deve bater nas mesmas teclas: “Não desista dos sonhos!” a cada ano adiados, do prêmio na loteria, do troféu do clube de futebol favorito, de um Ano Novo feliz. De que, com sangue, suor e lágrimas cada um vai chegar lá.

Quando presto atenção nas testas franzidas e nas carinhas tristes na fila do banco, tenho vontade de chorar. Ou, talvez, isto seja sinal de que preciso identificar meu rebanho e me ocupar.


(Tiradas do Teco, o poeta sonhador)

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