Minha imaginação


Dou rédeas à imaginação e ela, no seu tropel delirante, traça planos pouco honestos. Doida para obter vantagens, corrompe e atropela os outros, quer ganhar dinheiro, estátus, granjear respeito.
Promete que, se ganhar sozinha a bolada da mega-sena, vai doar metade às instituições de caridade. Mas basta me distrair, e ela foge com todo o dinheiro, abandona e ri dos amigos e familiares. Nenhum remorço, ao contrário, a imaginação deleita-se de prazer por levar vantagem.
Acordo e meu sentimento de culpa recupera o fôlego, tenta manter o controle da realidade. Tenho tarefas a cumprir, pai, trabalhador, vizinho, amigo. Educação, boas maneiras, otimismo, bom humor...
Não é por acaso, minha formatação deu-se com o passar de vários séculos, para que eu pudesse me sustentar nos trilhos.
Deveres, obrigações. A razão se desdobra para se convencer de que haverá recompensa no final.
A imaginação é cúmplice dos sete pecados capitais. Se depender dela, os pecados serão muitos mais! Proliferarão, mesmo que corrompam de vez todo mundo.
Se ela me traz deleite no início  e no meio do caminho, me abandona no final. Sofro na hora da colheita. Tento convencer a mim mesmo de que a imaginação precisa de rédea curta. Devo inventar prazeres que a substituam. Prazeres que não são bem prazeres. Não exatamente como eu queria. São meros quebra-galhos.
Tapo o sol com a peneira, deixo a vida me levar, um dia de cada vez.
Mas eu sei. O tempo me ensinou. Algo no meu ser o comprova. Basta um descuido, e a imaginação corrompe a tudo e todos.
Mas, paradoxalmente, sem ela tudo se torna tão chato e previsível!

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