Do poeta para o advogado


"No meio do caminho tinha uma pedra."

Diz a notícia: 
"Uma briga entre vizinhos por causa do uso de um espaço público acabou com um veículo cimentado sobre a calçada em Belo Horizonte (MG). O inusitado caso vem chamando a atenção de curiosos que passam pelo local" (Zero Hora, 13/12/2013).
O que me chamou a atenção é que numa das partes envolvidas na discórdia está um advogado com o sobrenome Drummond.  
Fiquei a matutar: o que o grande poeta Drummond diria para o advogado Drummond?
Enquanto o Drummond advogado assina sua obra pública com um carro cimentado na calçada, em boa medida por causa da intolerância e falta de diálogo, o Drummond poeta assinou e cimentou em nosso imaginário versos do tipo: "Eta vida besta, meu Deus", e "no meio do caminho tinha uma pedra". 
Estas são expressões fortes de nossas aflições cotidianas. O poeta Drummond se relacionava com versos... que expressam seu amor, tristeza e melancolia diante do mundo e das pessoas.
Temos que avisar o Drummond advogado que o que permanece (quando morremos) não são as rusgas, o ódio, mas sim nossa obra.
Como reagiria o Drummond poeta, se estivesse vivo, ante o desfecho do caso do Drummond advogado, de ter um carro cimentado na calçada?  
Drummond poeta tinha certa dificuldade para entender o mundo. Sentia-se meio na contramão. Porém, com sua hipersensibilidade, transformava tudo em poesia, sem ter arrogância e sempre preocupado com o próximo. Em ter uma vida reta, justa... Esse grande homem, se estivesse vivo, diria para o Drummond advogado que o melhor a fazer é amar os outros. Diria também que, em vez de brigar, devia encarar a vida com humor, rindo um pouco de si e dos outros.
Diria que o mais importante são os pequenos prazeres, tais como ouvir música, sentir o cheiro das frutas... sentir-se vivo, interligado aos elementos da natureza - a chuva, o vento, o sol. Diria um Drummond sensível a um  Drummond casmurro: "Relaxe, a vida é curta, não vale a pena se ater apenas aos negócios..."

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