O carnaval do símbolo - Celso Gutfreind



Não entendia o gosto de meu filho pelo WWE. E meu filho reclamava de minha indiferença. Lembro que ele dizia que essas lutas são de faz-de-conta, e de que sempre os personagens contam uma história. A partir de então, passei a assistir com ele e, no começo, me sentia um pouco sem graça... Agora eu leio este texto do Celso Gutfreind, poeta e psiquiatra, e percebo que o guri tinha razão, e de que tudo faz sentido...

No ano passado, o Ted Boy Marino morreu. Acusei o golpe. Ele foi meu ídolo nos anos 60. Deu-me o direito de ir dormir mais tarde. Eu sonhava acordado com inimigos imaginários. Ele foi o meu primeiro Dom Quixote. Nas lutas do telecatch, eu sorria quando o Ted vencia. E chorava se ele perdia, mas felizmente era raro. Desabei quando “quebraram” o seu braço. Pedi para engessarem o meu também. Eu o imitava dia e noite. Eu e toda a torcida do Flamengo, do Grêmio, do Inter.

Hoje seria como o UFC, com Anderson Silva. Mas não era. Tinha uma diferença. As lutas livres faziam um faz de conta, um “como se”. Até o menino de cinco anos sabia que não eram de verdade. Adultos e crianças, fingíamos juntos. O UFC não põe aspas para quebrar braços, machucar pernas, arrancar pedaços da orelha.

São anos de surra no símbolo. Na brincadeira. Na possibilidade de imaginar. A realidade vem sendo imposta direta demais. Há excesso de videogame e falta de convivência. Lutamos contra o desconhecido; ele pulsa com violência, dentro de nós. Seria mortal, caso não tivesse a festa de consertar. Mas o conserto depende de estar com o outro. Fingindo, brincando, fazendo de conta. Tocando. Da ilusão surge a criatividade. E fica, realmente, mais vivo.

O Mario Quintana falou disso, com poesia. Para ele, o ritmo é salvador. A pele entre o eu e o mundo, entre nós e as coisas. Feita com literatura, mas também com dança, música, cinema, esporte, trabalho. Com encontro. Somos, no fundo, salvos pelo teatro. Somos, no fundo, salvos pelo outro. Caso contrário, a solidão nocauteia com o soco da morte crua e verdadeira, que nos habita desde o nascimento.

O ritual das lutas sabia iludir até que nos sentíssemos prontos para lutar de fato, ou seja, metaforicamente. Crianças encontravam adultos capazes de organizar um espetáculo que representava a violência, mas não era a violência. O UFC cria pouca pele, não cava muito espaço.

Ainda não sei o que farei com a falta do Ted Boy Marino, mas aprendi a esperar. A descansar no símbolo e ficar triste à vontade sem que a realidade venha quebrar o braço, machucar a perna, danificar o cérebro. E, sobretudo, matar o coração.

Acho que vou contá-la, achar um ouvinte, estar junto até que a dor passe para eu poder ficar sozinho novamente. Atado à morte do Ted, há um fio comprido de mortos, do cão à irmã. Dos amigos de Porto Alegre a Santa Maria. Não posso deletá-los simplesmente. Sem ombro onde se apoiar, sem ter com quem falar, não haveria como sobreviver.

O faz de conta acompanhado ensinou a viver de verdade. A morrer, talvez. A prosseguir e, como se espantou o Quintana, vir à tona de todos os naufrágios. 


Zero Hora, 09/02/2013

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