A doida fez poesia


Cada passo com o salto alto, com a bíblia na mão direita erguida, a doida foi  poeta e não sabia.
Às vezes não sei que faço. Às vezes você não sabe o que faz. Nem a velhinha, o aposentado, no caixa eletrônico necessitando ajuda para sacar o pouco dinheiro, às vezes não sabem o que fazem. Nem para onde devem ir. Às vezes saímos em busca da multidão e não queremos encontrar ninguém. Às vezes queremos um palco, olhares e ouvidos sintonizados, como aquela doida na sexta-feira de tarde.
A doida subiu no palanque da praça, diante do prédio da prefeitura e dos carros e pessoas que circulavam. Fez um discurso. Compreendi alguns fragmentos: “Chegará o dia...” “Lembrai-vos dele...”. Usava um vestido longo, coberto por uma capa colorida e calçava salto alto. Daí a pouco partiu em direção à avenida, a mão direita erguendo um livro, que parecia ser a bíblia. Agora cantava e sua voz fazia bem aos ouvidos.
Aguardava minha hora no dentista e a performance dessa mulher, de uns trinta e poucos anos, chamou-me a atenção. 
Será que isso tem algo a ver com a poesia? Considerei que sim, pois ambas fogem dos clichês cotidianos. A poesia não faz o que costumeiramente fazemos, que é enquadrar uma cena como essa, definindo-a como normal ou anormal. Talvez a poesia (e a literatura) sejam primas-irmãs da loucura.
Enquanto a mulher descia pela avenida cantando e com a mão direita segurando tal livro, diante de uma farmácia um senhor e uma vendedora comentavam:
- Coitada, saiu do prumo.
- É. Tá fora do ponto.
Ao chegar em casa, zonzo com a cena que presenciara, perguntei a alguns poetas sobre o que é a poesia. Para maiakówsky, a poesia “é uma viagem ao desconhecido”.  Bem, pensei, faz sentido. Enquanto a doida viaja com naturalidade pelo mundo dos mistérios, convicta da sua e da nossa redenção, a poesia se espanta ao ver isso e, com versos, pinta imagens de tal momento. Podemos dizer que a poesia sente-se em casa quando a realidade gera espanto, isto é, deixa de ser previsível.
Goethe diz que a poesia “fala do infalável”. Sendo assim, penso que tanto a doida quanto o poeta arriscam-se a mergulhar nas águas escuras e profundas do mar da linguagem e da realidade.
Para Fernando Pessoa, a poesia é “um fingimento, deveras”. Poxa, será que a doida não é doida coisa nenhuma?  Poderia estar fazendo uma performance teatral. Bom, de qualquer maneira tal fingimento produz maior espanto, assombro, do que a vida “normal”, mecanicamente planejada.
Se eu encarar tudo como sendo normal, creio que jamais serei poeta.

Para finalizar, diz Garcia Lorca que poesia é “lo impossible hecho possible”. Então é isso. Tanto a louca quanto o poeta vivem daquele acontecer (cotidiano) que sai do prumo ou do ponto. E se todos nós muitas vezes não sabemos o que fazemos, o mero espanto convida-nos a ser poetas.

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