Vai... Procura


Todos buscamos o amor, meu anjo.
Muito busquei. Sorri e também chorei.
Tão jovem, tens um longo caminho a percorrer.
Um dia, como eu, vais perceber: tudo o que nos mantém vivos é a busca...
Não desista dela, a busca. Do contrário, estarás +++++.


(B. B. Palermo)

filhote de passarinho


Essa coisa que nos anima, habita e se apossa, faz acreditar, ter fé e esperança, torna fracos, reféns de ratos, moscas e baratas, românticos e mansos, bárbaros viciados em tecnologia e bomba nuclear.
O ego te convence de que és joia preciosa, mas teu passeio público e virtual é bijuteria, coisa de menos importância, se comparado ao vômito depois da festa, naquele banheiro de dar dó.
Vives da sobra, e o dizes a todo mundo, numa voz amplificada pelas redes virtuais. 
Redes que sintetizam a prisão de cada um, múmia diante do espelho, pose, câmera e selfie, injetando o doce remédio da solidão.
Não desista. És cultuado, carregado nos braços e tornado oráculo. Apresento-vos novos deuses: psiquiatras. Antes do jogo começar diagnosticam teus males, como o gato que se diverte torturando o filhote de pássaro que caiu do ninho.
O doutor não tem tempo nem saco pra te ouvir. Ele só tem remédios.
Sim, meus caros. A boa notícia é que não precisamos aguardar a bomba da Coreia, ou a chegada daquele meteoro. Hoje. Aqui. Agora. Estamos mortos.


(B. B. Palermo)

Máquinas escravizam


Após uma semana de flagelos, reengatei a meditação, mentalizei “luz, ideias e insights”, juntei caneta e papel e me instalei num bar, atento aos murmúrios que vêm de algumas mesas. Chamou-me a atenção um casal batendo papo. A garota, forte, alegre, animada e cabelo roxo, tem o braço direito enfaixado e um moderno celular, que manuseia sem perder o controle das conversas que ela palestra pro cara.
Onde será o jantar dos amigos, ou dos colegas de trabalho, ou de familiares, e diz tantas coisas que eu me distrai desde o início. Eis que aparece um casal e duas crianças, e a garota fica ainda mais expansiva. Estão em dúvida sobre qual lugar seria bom para jantar, assistir pela TV o jogo de futebol e, o que é mais importante, que as crianças possam brincar à vontade. E, assim sem mais, a garota me introduz na roda de conversa.
- Por favor, você não conhece um lugar bem legal pra jantar, e onde as crianças possam brincar?
Como ela havia dito que as crianças eram anjinhos carregados de energia, confinados pela rotina semanal de apartamento, transporte escolar e escola, sugeri um pesque-pague com amplo espaço coberto, muita grama pras crianças correrem e um peixe frito delicioso.
Cada vez mais presto atenção nela. Bebe, fuma, manuseia o celular como se fosse controladora de voo, domina a conversa e, como as antigas tias, pede pras crianças se aproximarem pra tirar umas selfies. Vai até a mesa ao lado e grava no aparelho a canção sertaneja que três bêbados cantam, deixando-os orgulhosos, afinal serão vistos na internet. Alguns minutos depois, como a mãe que promete um mimo se as crianças tomarem banho, diz pros os caras:
- Se vocês cantarem uma boa, eu vou aí e gravo.
Meia hora depois as crianças estão sossegadas, comendo salgadinho e tomando refri.
- Ué... Acabou a bateria?!
Foi confortante prestar-lhe atenção nessa esquina alucinada, em meio a uma variedade de roncos e berros dos motores, o sobe e desce do conta giro, e pessoas indo e vindo e se confundindo com as máquinas, que automóvel e celular hoje escraviza a gente, e isso todo mundo sabe...

(B. B. Palermo)

Poema bárbaro


Bárbara circulando entre as mesas do bar.
Bárbara dizendo “oi!”
Bárbara refletida no meu copo de cerveja.
Bárbara derretendo meus neurônios.
Bárbara chupando meu sangue.
Bárbara embaralhando as ideias.
Eis minha vida no bar 
em suas emoções barbarizantes.

(B. B. Palermo)

No retrovisor

Quando vi a foto que ela postou, a do retrovisor do carro, viajando pra lá e pra cá, eu também viajei. Não consigo ficar indiferente, tudo o que ela posta no facebook me alucina. Sei que deveria dizer pra ela o que sinto, mas é como olhar pelo retrovisor do meu passado, aí fico louco de medo de não dar certo.
E se ela disser sim?
Não tem nada a ver com a infância e a doida da mamãe, sempre presente, cheia de conselhos e preocupações. É como se, todos os dias, ela viesse até meu quarto ver se o bebê não derrubou o cobertor. Ela precisa saber que não sou mais aquela criança que teve pneumonia, que esteve à beira da morte, e quando sobrevivi ela dizia pra todo mundo, com orgulho, Meu menininho venceu, vai ser o mais esperto e bonito e genial etecétera e tal...
Quando penso na garota e naqueles seus olhos estou fugindo de mamãe.
Será que estou?
A foto. É como se estivesse vislumbrando, pelo espelho do carro, o meu passado. Meu pau... (ôpa, não, não quis dizer palavrão... quis dizer meu pai) que não comparece nas lembranças, foi sempre criatura ausente. Mamãe, sempre ela, me vestindo pra ir à escola, preparando o lanche, amarrando meus cadarços que eu encho de nós. Dia desses mergulhei na garrafa e, de madrugada, fui pra internet, notei que ela estava online. Sabe, se bebo e vou pra internet é grande a probabilidade de fazer merda, embora no dia seguinte não lembre de nada.
Ela é que me enfeitiçou e o pior é que fica na ca... fica na dela (eu não quis dizer palavrão, isso não foi um ato falho...)... fica na sua, indiferente, só pra rir do poeta amador. Mas tô curtindo esse jogo pois tenho medo de me revelar... Já pensou ela dizer sim?
Tá louco, namorar com ela exigiria total transformação, levar uma vida regrada, imagina apresentá-la à doida da mamãe, aos meus amigos, enfim, pra todo mundo, o que seria estar acompanhado de uma ninfa lindíssima, me diz?
Sei, sei... Do jeito que tá, tá bom. Ah, eu que não sou louco de arriscar ser mais feliz.


(B. B. Palermo)

Clipe