Doutor, sonhei com a enfermeira

(Foto de Sarolta Bán)

Sonhei que ela era minha mãe. Acho que foi por ela ter visto a bagunça de minha casa, a desgraça de vida que levo. Seu olhar parecia zeloso. De quem pretende chamar a atenção para fins superiores na vida, ou para missões mais nobres. Sua presença irradiava sentimentos que vão além da presença física, do uso da sensualidade, da conquista através de uma roupa de grife, de tatuagens, de joias, de maquiagem.
Doutor, no sonho estávamos numa confeitaria e eu devorava doces e doces. Então, com o jeitinho que toda mãe tem, ela disse: “Meu filho, você está comendo doce demais. Cuidado com o diabetes”. Acordei empapado de suor. O sono saiu pela janela e eu fui aos poucos decifrando a mensagem daquele sonho. Como nosso inconsciente é genial, Doutor, e diz tantas coisas que até parecem indecifráveis. Mas logo saquei a coisa. A enfermeira, minha mãe no sonho, usava um artifício para não me deixar triste. Na verdade eu vinha comendo era pouco, e quase nenhum doce. Eu exagerava mesmo era na bebida. Acho que minha vida andou torta, Doutor. Bebia em casa, nos bares, sozinho ou com amigos, alegre ou triste, sempre inventava motivos para beber. O que a enfermeira disse no sonho, foi: “Meu filho, você anda bebendo muito. Cuidado com a cirrose”.
Mas eu sei, Doutor, que vou é morrer de fome. De fome de amor.


(Diário de B. B. Palermo)

Pré-verdade - Paulo Gleich


No último dia 16, o dicionário de língua inglesa Oxford divulgou a palavra do ano 2016 : "post-truth" ou, em português, "pós-verdade". Sua definição, segundo os editores, é "relativo a ou que denota circunstâncias nas quais fatos objetivos são menos influenciadores na formação da opinião pública do que apelos à emoção ou à crença pessoal".
A escolha da palavra se deveu ao incremento de seu uso durante o ano, especialmente após as votações que definiram a saída do Reino Unido da União Europeia (o Brexit) e a eleição de Donald Trump para a presidência dos Estados Unidos.
Ao explicar sua etimologia, os editores destacam que o "pós" não se refere a um evento temporal – como em pós-guerra –, mas indica um contexto em que aquilo a que se refere tornou-se algo irrelevante, fora de uso. Com isso, pós-verdade indica um contexto em que a verdade passa a ser pouco importante, em detrimento de crenças ou afetos. 
A escolha da palavra reflete algo que viemos acompanhando há algum tempo, em escalada, nas redes sociais. Nos últimos anos, questões sociais e políticas vêm tomando conta dessa arena virtual, em alguns casos ampliando os debates e reflexões – mas, em maior escala, empobrecendo essa discussão, com sua miríade de memes, frases de efeito e imagens e notícias falsas. Mesmo dentro da minha "bolha" (como vem sendo descrito o conteúdo ao qual temos acesso pelas redes sociais, dando a impressão de que são representativos da totalidade da população), esses conteúdos aparecem com bastante frequência – a ponto de, em algum momento, eu ter parado de alertar quem os divulga de que se trata de fatos inverídicos. Alertas para checar a veracidade dos conteúdos compartilhados têm se provado inócuos, dando vitória à difusão de verdades, semiverdades e mentiras como se fosse tudo a mesma coisa. Parece, de fato, que a pós-verdade venceu; fatos importam menos que convicções.
Em termos psíquicos, a pós-verdade é uma pré-verdade: uma forma primitiva do psiquismo de se relacionar com a realidade. Freud a descreveu nos bebês: inicialmente, suas sensações e percepções são dispersas, não há diferença entre dentro e fora, sujeito e outro. A primeira diferença é sensorial: o que é percebido como bom é atribuído a si próprio, o que é ruim ao fora, ao outro. Com base nesse mecanismo vai se construindo a noção de realidade, considerando-se "verdadeiro" apenas o que é bom, que condiz consigo mesmo. Posteriormente, essas fronteiras vão se dissolvendo: é possível reconhecer que o mal também nos habita, e que a realidade externa é mais complexa e independente de nossos desejos e ações. O componente afetivo, porém, sempre está presente em alguma medida na construção da verdade.
Na dita era da pós-verdade, porém, o peso maior recai sobre esse aspecto emocional, a ponto de ser, cada vez mais, o único que conta: se me parece bom, se está de acordo com minhas crenças, então é verdadeiro. A diferença disso em relação a uma verdade propriamente subjetiva é a desimplicação: não há necessidade de sustentar as consequências em relação ao que se afirma. Que políticos – de todos os lados do espectro ideológico – o façam já é grave; que chancelemos essa prática como normal através de nossos atos, porém, é nos lançarmos em uma aventura perigosa, com consequências cuja gravidade talvez nem possamos estimar.

Zero Hora, 26 e 27 de novembro de 2016

Doutor, inventei uma ciência para salvar casamentos


Recebi a visita da enfermeira uma semana depois dela ter me livrado do espinho de cacto e do horrível câncer no dedo médio da mão esquerda. Aquela garota, Doutor, minha heroína no posto de saúde do bairro, agora que me narrava um pouco a rotina de sua vida afetiva, o casamento falido, a presença do marido sem graça, a aparência cansada por repetir e repetir o pão diário, aquela garota que pareceu forte, protetora, revelou-se imensamente frágil.
Quando ela chegou, lá pelas nove da manhã, eu acordara fazia pouco. Como estava quente, usava bermuda e camisa regata surradas, as unhas dos dedos dos pés mal aparadas, os chinelos havaianas com as tiras caindo aos pedaços. Ofereci-lhe uma bebida e ela disse “Água”. Preparei meu café da manhã. Vodca barata e suco de laranja que sobrara na geladeira. Sobre a pia jaziam latinhas de cerveja vazias, panos de prato molhados cheirando a cerveja azeda, a lixeira transbordando com porcarias de dois dias e, deitado sobre o tapete, meio encabulado com a visita da enfermeira, meu fiel cão, o Arthur, que me fitava de lado com olhar de reprovação por tamanho relaxamento. Mas é incrível, Doutor, mesmo afogado na bagunça consigo me inspirar. Em três dias escrevi três histórias e uns cinco poemas, e recebera uma graninha pela publicação de um conto numa revista, com o título “Arthur, o cão da triste figura”. No geral Arthur exibe um olhar de tristeza apreensiva, e eu me perguntava se ele também compreende ou reprova meu estilo de vida.
Pedi licença à garota e fui ao banheiro passar água fria no rosto. De perfil diante do espelho, notei minha promissora barriga. Do outro lado do espelho o Cara! comentou “Têmo mal, hem?!”. A garota observou detalhadamente o cenário do meu lar doce lar e perguntou se eu não temia a solidão. Não respondi, Doutor, porque intui qual era a dela. Veio até minha casa não motivada pela preocupação com meu bem-estar, mas porque apostou que sou um sujeito compreensivo e por isso ouviria seus desabafos a respeito da vida que levava, descontando o tempo no trabalho e o amor que dedicava aos pacientes. Gosto de ficar sozinho, preciso criar um clima para escrever, murmurei, solene. Faço meditação, ouço música clássica, jazz e blues instrumentais, pois possibilitam fugir da loucura do mundo e conhecer meu eu interior. Doutor, inventei umas histórias, de que aprecio o budismo, quando estiver com noventa anos vou me mudar para um templo budista, viver contemplativamente, algumas décadas de vida que poderei ganhar de bônus. A garota direcionou o olhar para meu copo com vodca mais suco de laranja e me pareceu balbuciar “Sim, sim”. Quando disse que tudo isso é ótimo para relaxar, respirar e fazer amor, seu olhar se iluminou. Ah, e fui além. Com a filosofia oriental que permite conhecer a si mesmo alcanço orgasmos divinos, totalmente indescritíveis para o comum dos mortais.
Doutor, foi o suficiente para ela abrir seu coração. Desandou a falar. Pareceu-me incrivelmente verdadeira. O sexo represado no casamento, as brigas e birras sem pé nem cabeça, o dia após dia de monólogos frios, sem um toque, um beijo, sem atenção, sem olhos nos olhos. O marido jogava futebol com os amigos três vezes por semana e depois do jogo se banqueteavam com churrascos, retornava para o lar embriagado e tarde da noite. Foi então, Doutor, que lembrei de umas músicas no youtube que descobrira dias atrás. Músicas testadas “cientificamente”, para relaxar, para turbinar a inteligência, para a memória, para a criatividade, para a concentração. Músicas com ondas binaurais. Pensei: se essas músicas “servem” pra tudo isso, por que não serviriam para otimizar as trepadas dos humanos? Desenvolvi pra garota uma longa história de descoberta e testes pessoais, de que essas músicas me despertaram o mais doido tesão, transas selvagens e intermináveis orgasmos divinos. Anotei o site num pedaço de papel e passei pra ela.
A garota ouvia a tudo com uns olhões arregalados. Eu pensava: Isso, pequena, você precisa de um plus no teu casamento, inove, inunde os ouvidos do teu marido brocha com ondas musicais alpha, beta, theta e delta. Minha aula teórica estava por um fio, poderia descambar para uma aula prática, para demonstrar os tais “orgasmos divinos e transas intermináveis”. Doutor, seu olhar azulado e atento me excitava, no meio das pernas o mastro (eu não quis dizer maestro, Doutor) acordava rapidamente. Olhei para baixo e pensei Você gosta de boa música e de uma loirinha, hem seu safadinho?! Aguentei firme, concentrei na aula teórica – os conteúdos musicais necessários para a saúde do casamento. Nem sequer me atrevi em roubar-lhe um beijo. Fui além. Disse-lhe que pretendia patentear minhas descobertas, pois deram certo com dezenas de garotas que fiquei.
Dias depois da aula sobre as músicas que despertam desejos sexuais mais loucos descobri que minha ciência fazia sucesso. A garota mandou uma mensagem me agradecendo a ajuda, estava encantada com as performances na cama. Seu marido, além de não ter tido ejaculação precoce, levou-a a alcançar dois orgasmos ma-ra-vi-lho-sos. O marido ainda jogava futebol mas não mais exagerou na bebida e nos churrascos. Viu só, Doutor, como há histórias cheias de imaginação que vêm para o bem? O fato de as trepadas com o marido darem certo a partir da história que inventei naquela “aula teórica” sobre turbinar o casamento com ondas musicais tais e tais, esse fato não me absolve do pecado de ter mentido, hem Doutor?

(Diário de B. B. Palermo)


Doutor, arranjei um espinho bonitinho




Dias atrás fui pego pra Cristo. Andava cismado com algumas fofocas. Uns enormes espinhos verbais. Doíam, pois foram cravados bem fundo em minha alma. Para aliviar o estresse, Doutor, saí em busca de adubo para plantar alguns temperos e hortaliças em vasos. A alguns quarteirões havia um bosque e, imaginei, haveria terra fértil o suficiente para organizar uma mini horta orgânica. Devia desconfiar que as coisas não dariam certo, pois meus pés não tocavam o chão e a cabeça viajava ou se embalava na rede das nuvens. Em outras palavras: havia bebido algumas. Distraído, juntava folhas e terra nesse bosque, e sem usar luvas. Senti a fisgada. Um espinho de cacto chegou até o osso do dedo médio da mão. A Dona que aluga a casa onde moro havia comentado que espinho de cacto não serve pra nada, além de nos ferir num momento de distração. Maldito vacilo. Maldita dor. Corro pra arranjar uma agulha, Doutor. Vou até a casa da Dona e peço agulha emprestada. A cada vez que dobro o dedo uivo de dor.  Como sou canhoto e o dedo ferido foi o esquerdo, peço pra ela arrancar o espinho. Enquanto fazia força, a Dona profetizava: “Espinho de cacto é perigoso, ele caminha. Se não arrancar pode virar câncer!”. Suei frio. Imaginei na quimioterapia, perdendo os cabelos, sem ânimo e força nem pra me masturbar. Logo redobrei meus esforços pra não dar mostras de fraqueza, porque “homem não chora”, “homem que é homem não desmaia por qualquer coisa”.
Decidi fugir das habilidades verbais e manuais da Senhora. Pensei no pronto socorro, mas tinha receio de ser ridicularizado na sala de espera. “Um homem desse tamanho tirando o lugar dos mais necessitados da saúde pública por causa de um espinhozinho!”. Tomei duas doses de uísque e deitei no sofá por alguns minutos, e o dedo latejando latejando, eu sentia o câncer vindo vindo e o dedo apodrecendo... Bati o martelo: irei ao posto de saúde do bairro mais próximo. As enfermeiras e auxiliares têm os instrumentos adequados para extrair o espinho, vai ser questão de minuto, chega de me martirizar. Hum... E com a vantagem de receber alguma atenção, um curativo e alguns conselhos no final.
Quem me atende é uma enfermeira bonitinha, Doutor. Desinfeta o ferimento, enquanto dispõe sobre a mesa de várias pinças de diversos tamanhos.  E pede a uma auxiliar para que traga uma lanterninha para ver melhor o espinho. Duvidei que aquelas mãos delicadas fossem bem-sucedidas. Mas bastou ela colocar as luvas com habilidade cirúrgica para que minhas dúvidas se dissipassem. Repetia para meu eu interior: Respire fundo, não demonstre dor, não desmaie, por favor, não faça fiasco! A operação foi demorada. Na sequencia a enfermeira usava agulha, limpava, usava pinça, desinfetava. Mal conseguia disfarçar alguns gemidos. Muito macho, não pedi para que usassem anestésico. Enquanto isso ela pedia para que eu respirasse fundo e devagar. Depois de alguns minutos de insucesso, Doutor, ela partiu para o plano B: tentar arrancar o espinho usando uma seringa (claro, sem agulha). Se fez valer de uma pequena. Agora era assim: agulha, limpeza, pinça, limpeza, seringa, limpeza... Então Heureca! A enfermeira busca uma seringa enorme. Suo frio. Perco a noção do tempo. Baixo a guarda e peço um copo d’água. Desconfio que as duas garotas estão rindo de minha cara. Na próxima sequencia tudo se resolveu. Numa investida impaciente e agressiva com agulha, a garota deu um grito: “Ele saiu, eu vi!” “Juro que eu vi!”. Diz a outra: “O espinho ricocheteou no meu braço e depois cravou no teto!” Radiante, a enfermeira, a bonitinha, comenta: “Fiz alguém sofrer. Ganhei o meu dia”. Sem saber o que dizer, mas aliviado, murmuro: “Toda essa operação me pareceu um parto”.
Me diz, Doutor, que lições tirar disso? O que dói mais: as palavras mal ditas (isso, eu quis dizer MALDITAS) ou os espinhos que espreitam? Depois de ter sido salvo de um câncer no dedo, as garotas fizeram meu cadastro para dispor do programa Saúde da família. Uma semana depois recebo a visita da enfermeira, a bonitinha. Mas isso fica pra outra história.


(Diário de B. B. Palermo)

Velho, mas vivíssimo e enamorado por uma menina


A casa renascia de suas cinzas e eu navegava no amor de Delgadina com uma intensidade e uma felicidade que jamais conheci em minha vida anterior. Graças a ela enfrentei pela primeira vez meu ser natural enquanto transcorriam meus noventa anos. Descobri que minha obsessão por cada coisa em seu lugar, cada assunto em seu tempo, cada palavra em seu estilo, não era o prêmio merecido de uma mente em ordem, mas, pelo contrário, todo um sistema de simulação inventado por mim para ocultar  a desordem da minha natureza. Descobri que não sou disciplinado por virtude, e sim como reação contra  a minha negligência; que pareço generoso para encobrir minha mesquinhez, que me faço passar por prudente quando na verdade sou desconfiado e sempre penso o pior, que sou conciliador para não sucumbir às minhas cóleras reprimidas, que só sou pontual para que ninguém saiba como pouco me importa o tempo alheio. Descobri, enfim, que o amor não é um estado de alma e sim um signo do zodíaco.
Virei outro. Tratei de reler os clássicos que me mandaram ler na adolescência, e não aguentei. Mergulhei nas letras românticas que tanto repudiei quando minha mãe quis me forçar a ler e gostar, e através delas tomei consciência de que a força invencível que impulsionou o mundo não foram os amores felizes e sim os contrariados. 

Gabriel García Márquez. Memórias de minhas putas tristes. Ed. Record.

Clipe