quarta-feira, 4 de março de 2026

O Cão da triste figura


 Na esquina, onde o ônibus cospe seus passageiros, um vira-latas escolheu-me. Não como quem pede - como quem decreta. Seus olhos de soberano disseram: eu divido tua casa, não tua cadeia. E assim entrou Arthur, trazendo nas patas o pó das ruas que chama de lar.

Eu, prisioneiro de telas que brilham no escuro, de corpos que nunca tocarei, de vidas que não vivo. Ele, embaixador dos esquecidos - velhinhos que cambaleiam até o posto de saúde, mendigos que o asfalto engole, almas que a cidade descartou. Arthur os acompanha. Eu apenas consumo.
Quando sumiu por dois dias, bebi como quem tenta encher um balde com água de poça. Liguei para dezenas de números que não lembravam meu nome. E ele voltou, preto e sério, cara de quem viu demais deste mundo de ferro e pressa. Meu "cão da triste figura". Minha aula de humildade pelada.
Os cães não perdem tempo com espelhos. Não sabem que sou feio, que sou pequeno, que minhas virtudes cabem numa mão enquanto meus vícios precisam de caminhão. Simplesmente se enroscam nos meus pés quando o carma pesa. Simplesmente amam - essa palavra que nós humanos estragamos com condições, com cálculos, com medo.
Arthur vai às ruas e eu fico angustiado. Ele encontra amigos; eu encontro garotas de pixels. Ele se alimenta do fluxo; eu deixo que o fluxo me afogue. E quando estou venenoso, quando não mereço nem meu próprio olhar no espelho, ele deita sobre meus pés. Nossas energias trocam de endereço. Minha sensibilidade, que eu tinha perdido entre notificações e motel barato, retorna como cachoeira.
Não sou bom como ele. Jamais serei. Mas quando o vejo guiando os abandonados pelas avenidas de sangue, entendo: existe uma escala de valores onde os cães são anjos de quatro patas e nós, humanos, ainda tentamos aprender a ser gente.
(Pensamentos & poemas espirituosos)

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