Cheguei atrasado para a revolução. Meu coração bate em compasso de jazz desafinado, um bebop de tambores descompassados, enquanto o mundo dança uma valsa que nunca aprendi. Sou o beatnik que perdeu o bonde da Kerouac, o vagabundo espiritual que tropeça nos próprios cadarços de poeta.
Nos bares fumacentos de uma era que não me pertence, ouço os fantasmas de Ginsberg recitando howl em mesas vazias. Bebo meu uísque imaginário e finjo entender o código de quem vive sem amarras. Mas sou um turista no país da libertação - carrego no bolso um mapa do tesouro que aponta sempre para o mesmo lugar: ela.
Estranho até na paixão. Quando o amor me pega de jeito - bang! - sinto-me como um ateu diante de uma aparição mariana, cético e atordoado, contando estrelas no teto enquanto ela dorme. Meu coração, esse baterista bêbado, desfila em marcha lenta quando deveria correr. Chego sempre na estação depois que o trem partiu, acenando para passageiros que não existem mais.
Budista nas intenções, beat na alma, e completamente perdido na prática. Medito no caos, busco o nirvana entre lençóis amassados, encontro o sagrado no arquejo pós-amor quando ela sussurra "fica aí, não sai daí" e eu, molenga e feliz, me dissolvo em paz. É uma espécie de iluminação, só que com mais suor e menos incenso.
Mas que se dane o ritmo certo. Que se dane a dança perfeita. Sou um simpático desafinado, um retardatário de alma antiga, e se não sei dançar a valsa da minha própria vida, aprendo a rebolar desajeitado ao som do que ela ri. Porque no fim das contas - e o fim das contas é agora, é sempre agora -, ser estranho no amor é apenas outro jeito de ser original.
Ela me olha com aquele sorriso de quem conhece o meu truque: "Você é um poeta esquisito," diz, "mas é meu poeta esquisito." Dou de ombros, murchando e florescendo ao mesmo tempo. Fora de época, fora de ritmo, fora de moda - mas dentro dela, exatamente onde deveria estar.
(B. B. Palermo)