segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Doutor Ranço


 

Tem dias que me dá na veneta, sinto o mundo todo errado,
fico louco pra consertá-lo mas não sei como.
Aí, sobra pro meu amor.
Reclamo que ela abraça mil tarefas e não me enxerga e se afasta,
e logo me transformo num poço de carência.
Uma “entidade” sacana buzina em meu ouvido:
- Volta a ser solteiro! Vida de casado é isso, Cadelão,
muito custo e pouco benefício!
O filho da mãe dá as caras também quando estamos numa roda de amigos,
reunião ou festa.
- Cadelão, como tu suporta essas conversas?
Tu podia fazer coisas mais interessantes nessa hora.
Corre pra casa! Abre uma cerveja, retome aquela leitura,
escreva algo que preste!
O jaguara me pega de jeito e não me resta senão correr pro bar,
e disso resulta uma ressaca das brabas.
Me vi pensando esses dias...
Sinto tédio quando uso como desculpa esse fato de receber a influência da “entidade”,
que se diverte em me “noiar”.
Esse papo dizendo que há alguma coisa (que não sou eu)
me põe pra baixo, com mais tédio ainda.
No fundo, sei que é o desejo de “dobrar” ou “domar” o meu amor,
submetê-la aos meus caprichos – o louco desejo do macho
que não quer se encantar e “obedecer” ao olhar e à voz de uma deusa alfa.
Fiquei chocado quando vi no dicionário o significado pra “ranço”:
sujeito desagradável, chato, antipático.
Discordo da visão da IA. Que se danem!
O amor de minha vida dá um tempo, espera a fervura baixar,
depois de desligar a panela de pressão.
Sábia, ela reflete:
- O rançoso pensou bastante, já posso chegar perto dele
e dar o bote: baixar a chinela no seu lombo!
E é assim que a querosene de nossa paixão muda as cores do dia:
- Já te disse, doutor Ranço, tu é meu, e não tem volta!
Beijos, abraços, uma tarde de chuva e de folga e
o fogo de nossa paixão triplica, amor e sexo
transpiram pelos ares, meu coraçãozinho
a 160 por hora.
(B. B. Palermo)

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Cachorrona


 

Quem me conhece, sabe que não sirvo de modelo.
Aos 20 e poucos anos disse pra uma garotinha, por quem me apaixonei,
que fora convidado pra ser modelo.
Viram em mim (hehehe) um olhar singular
e um porte atlético que indicava personalidade forte...
O papinho funcionou por umas 2 semanas,
depois a guria sacou que eu era só mais um,
propaganda enganosa.
Li “Dona flor e seus dois maridos”, do Jorge Amado,
no finalzinho da adolescência, e fiquei impressionado
com o personagem Vadinho, um boêmio e conquistador incorrigível.
Por essas e outras influências, corri atrás de muitas garotas,
e boa parte delas “de programa”, e muitas vezes sem tomar
as devidas precauções com relação às DSTs.
Mas surgem oportunidades pra se amadurecer
e cá estou, meio aos trancos, me esforçando pra amar
com mais plenitude e menos medo.
Vestir-se de mulher pra brincar neste carnaval?
Ora bolas...
Pensando bem, pra quem encarou teste de HIV,
depois de muitos anos se ca**ndo de medo -
por conta duma vida amorosa confusa que teve - isso é fichinha.
Ainda mais no carnaval do A. Texas, onde a alegria e a brincadeira
empurram pra longe qualquer preconceito.
E tem mais: não pude dizer não ao pedido do meu bem:
- Dessa vez tu não escapa... É o nosso primeiro carnaval
e eu amo esta praia desde a infância! Tu vai comigo
vestido de cachorrona!
(B. B. Palermo)

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Adorável

 

Flocos de aveia

e uma chuva de pedras

derretem meu cérebro,

litros de gasolina

psicótica

incendeiam

meu sexo.

Meu lar é governado

por gatos alienígenas

que galopam

montados em seus cavalos

no quintal.

Eu levo uma vida um tanto

adorável

basta ela vir toda lindinha

num entardecer chuvoso 

depois da academia.

Aí eu salto poças d’água

pelas ruas indefesas

como quem ganhou

na loteria.

 

Tudo seria perfeito

e motivo de euforia

se ela acordasse em minha cama

e me amasse como a primeira vez

antes do meio dia.

 

(B. B. Palermo)


quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Desapega, menino

 


Não tenho alegria nem tesão
ao pisotear as flores das árvores
cochilando na calçada.
Tenho boas emoções ao contemplar
a bola de fogo dum sol que projeta
cores no horizonte
no final do dia.
Não devo estar preparado para bater de frente
com a semana que avança e o exame médico,
os defeitos no cafofo e os ouvidos zumbizando
enquanto se alternam as alegrias e
a falta de tempo e a ansiedade
do meu amorzinho.
Sem tesão para ouvir rock,
blues ou até música clássica ou para meditar.
Eis-me aqui.
O dia está quente e desisti de colocar máscaras
e de me maquiar.
Estacionei tempo demais nesse lugar.
Hora de desapegar e juntar umas coisas e seguir.
Rodeado de amigos, porém solitário,
sinto que não me preparei para isso.
Se houver um grande amor, que me decifre os sinais.
Antes de qualquer milagre, parece que é hora de virar a página.
E tudo se repete, e não é uma questão de idade ou experiência.
E é assim que estou me convencendo a jogar na fogueira
toneladas de versos bem intencionados.
Mas, no final das contas, Palermo,
o aconselhável é você se conter
e enfrentar o medo.
Esteja à vontade... e, se puder,
desapega, menino.

(B. B. Palermo)

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Sapo com H

 

Príncipes e princesas
acasalam,
bebem,
brigam,
gozam,
engravidam,
divorciam.

Eu ainda me sinto um sapo,
boiando em dilemas,
e às vezes me escondo por dias
num retiro improvisado:
celular desligado,
antenas plugadas no silêncio,
na penumbra, no mistério.

Não tenho medo
dos vossos olhares espertos.
Tenho a coragem que juram
que não tenho.

Príncipes e princesas
sonham,
desejam,
gritam pro mundo
seus amores felizes
e escondem os amores
contrariados.

Sapo, sei bem:
os amores mais doloridos
são os que empurram
o universo.

 

(B. B. Palermo)

Metade lobo, metade homem

Hoje me dei conta de que seu travesseiro repousa junto ao meu, no lado esquerdo da minha cama - e pensei no Lobo da Estepe, aquele Harry Hal...