Teu nome


Já pensei de tudo
turbinei meus bytes
perdi minha fome
e ainda assim não consigo 
             lembrar teu nome.

A operação de minha memória 
não apagou nenhum dado
apenas o teu nome.

Daqui, dali, como um robô 
a bambolear perdido,
consulto meus arquivos
e nada de lembrar
esse teu nome bandido!

Já me sinto culpado
por apreciar detalhes do teu
                                   corpo
por me apegar ao teu sorriso
tua roupa quilometricamente justa
         e softwaremente sensual.

Já me sinto culpado
por ser digno de tua presença
mesmo que na tela do monitor
numa curtida em tua cara 
de fotoshop no facebook...

Já me sinto culpado
por querer me aventurar 
na conquista
sem ao menos saber 
como te chamar.

Quanto mais penso 
                em você
mais medo tenho
da ciber presença
de um vírus
que te deleta
do meu pendrive.

Barulhos - Ferreira Gular




Disse certa vez que dei o azar de nascer na época da caixa de som. Sim, porque, antigamente, até os meus 21 anos, quando vivia em São Luís do Maranhão, o barulho que eu mais ouvia era do vento na copa das mangueiras e dos coqueiros, um rumorejar constante que atravessava as manhãs e as tardes iluminadas de sol e que era o som do dia, como há o som das cachoeiras. O dia jorrando.
Pois bem, isso talvez explique minha intolerância com os barulhos de hoje, que excedem o nível de decibéis que meus ouvidos toleram. E, embora se fale da necessidade de reduzir a poluição sonora, o que observo é a intenção deliberada de aumentá-la.
Senão, vejamos: que tráfego nas ruas entupidas de veículos provoque barulho é inevitável, mas o mesmo não se pode dizer do rock a soar dentro do supermercado ou no restaurante do hotel às 7h. Essa música tornou-se uma praga que nos persegue por todos os lugares, porque se descobriu que todos nós adoramos música jovem e queremos ouvi-la em todos os momentos da vida e em todos os lugares.
Enquanto as autoridades dizem tomar medidas para evitar a poluição sonora, na prática, o que percebo é uma guerra ao silêncio. E, como o silêncio induz a pensar, tendo a concluir que essa barulheira deliberada é para fugir à reflexão. Trata-se de uma sociedade que prefere se atordoar a se conhecer. O que coincide com os interesses da publicidade comercial, que, como se sabe, quer nos levar a consumir a qualquer preço, ou seja, sem pensar nos juros que desabarão sobre nossa cabeça.
Mas, afora isso, há os evangélicos e, agora, certas igrejas católicas que travam com aqueles uma ruidosa disputa de público, cada qual berrando mais alto do que o outro. É verdade que os católicos pregam menos que os evangélicos, mas, em compensação, se acham no direito de invadir nossa privacidade, de nos impedir de ler, de ouvir a música que queremos ouvir ou de simplesmente ficar no silêncio de nosso recolhimento.
Os evangélicos vão para as praças com seus alto-falantes e ali ficam a gritar citações bíblicas e a nos ameaçar com o fogo do Inferno. No caso da Igreja Católica, citarei dois exemplos de abuso: o de uma igreja no Flamengo que transmite para a rua todas as missas e cantorias do dia a partir das 6h; o outro é uma igreja nas Laranjeiras, com um alto-falante poderosíssimo no alto da torre, que, à hora do Ângelus, irradia a "Ave-Maria" de Gonod numa altura tal que leva a vizinhança às raias do desespero.
Tanto num caso como noutro, moradores foram pedir ao pároco que reduzisse o volume dos alto-falantes e receberam a seguinte resposta: "Pessoas que fazem tal pedido só podem ser inimigas da religião". Claro, quem fala em nome de Deus tem sempre razão e tudo pode fazer para o bem pecador, ainda que este não concorde com a ajuda.
Mas há também quem atue em nome do bem comum e, por essa razão, se sinta também com o direito de nos atormentar. Cito um exemplo: haverá barulho mais insuportável que o das sirenes dos caminhões do Corpo de Bombeiros, dos carros da polícia e das ambulâncias? Não resta dúvida de que devemos todos dar passagem a eles, porque um minuto que percam pode significar a perda de muitas vidas humanas. Mas não precisam de sirenes tão desesperadoramente altas a produzir emissões acústicas que ameaçam perfurar nossos tímpanos. E tudo porque uma empresa inventou um tipo de sirenes mais poderoso do que aqueles antigos e muito mais caros. Certa ocasião, ia eu no meu carro quando, de repente, logo atrás de mim, soou um silvado atordoante, que quase me fez jogar o carro contra um outro ao meu lado. Era uma ambulância.
E quando você descobre que, sob seu quarto de dormir, existe uma boate? Isso aconteceu comigo faz muitos anos, ao me mudar de Ipanema para Copacabana. Só então entendi por que o apartamento estava tão barato.
Passado os primeiros instantes de perplexidade ("Estou ferrado! Como é que não procurei ver o que havia embaixo do apartamento?"), desci até a rua, entrei na boate e pedi para falar com o responsável. Expliquei-lhe que meu quarto de dormir ficava exatamente em cima de sua boate e que, com o som naquela altura, não podia dormir. Ele respondeu que, se abaixasse o som, os fregueses iriam embora. "Mas eu é que não posso ficar sem dormir", repliquei indignado.
- Então vá se queixar à polícia, respondeu-me ele.
No dia seguinte, ao comentar o ocorrido com a síndica do prédio, ouvi dela que o dono da boate, além do mais, era ingrato, uma vez que a chave de luz de sua casa de shows ficava em nosso edifício. Eu mal acreditei no que ouvira.
- Ah, é? Então o problema está resolvido, disse-lhe eu.
Naquela noite, quando a música da boate começou, eu fui até a caixa de luz e desliguei a chave da boate. Logo o sujeito apareceu à porta do edifício e pediu ao porteiro para deixá-lo entrar, pois o fusível de sua boate certamente queimara. Apresentei-me diante dele e disse que não se tratava disso: eu é que desligara a luz. O homem, agora conciliador, pediu-me que religasse a corrente, pois a boate estava cheia de fregueses.
- Vá se queixar à polícia, respondi eu, gloriosamente.
Acontece que o tal sujeito era da polícia.

(Tirada) de um banheiro de bar


Favor
não        luz
     desligar
acertar     se     não
            o vaso          em
pé                  sente

Esperança


Viver sem esperança
é como ter casa sem janela...
É por isso que eu arrasto asa 
pro lado dela...
(Da esperança, é claro!)

Sem medo de amadurecer - Martha Medeiros


Estará chegando em breve às livrarias a nova obra do filósofo argentino Sergio Sinay, cujo título é A Sociedade que Não Quer Crescer. Tema bastante atual e que merece atenção. Não há alarmismo em afirmar que viramos uma sociedade de adolescentes vitalícios, todos preocupados em manter a juventude até os 80 anos.

Uma coisa é praticar esportes e exercícios físicos, proteger a pele, se alimentar bem, manter cuidados para garantir a saúde, investir em lazer. Outra bem diferente é se comportar de forma irresponsável, não assumir autoridade, não dar um rumo à própria vida, viver encostado nos parentes. Há quem considere mais cômodo ser criança para sempre.

De fato, é. Temos por aí uma quantidade absurda de crianções e criançonas de 40 anos, de 50 anos, até mais. O que esperar de seus descendentes?

Não é fácil lidar com desejos, fazer escolhas, sustentar decisões. Nos momentos de aperto, gostaríamos de não precisar enfrentar coisa alguma e chamar um “adulto” para resolver as questões sérias em nosso lugar. Porém, não temos mais cinco anos.

Nem 15. Não há mais justificativa para desrespeitar as leis, dirigir de forma inconsequente, se embebedar, fugir aos compromissos. Essa rebeldia juvenil até possui um certo romantismo, é a porção James Dean de cada um. Só que o ator não viveu o suficiente para virar um homem, mas você, sim.

Amadurecer é respeitar os ciclos da vida e deixar a adolescência para trás a fim de assumir seu lugar no mundo. O que não significa virar um adulto chato e prepotente. É permitido divertir-se na maturidade. Muito, inclusive. Adultos curtem a vida mais do que a garotada justamente porque não estão mais testando limites, já viraram essa página. O que fragiliza a sociedade são pessoas que, uma vez crescidas em estatura, não cresceram emocionalmente.

Um adulto de verdade é aquele que não age em busca de uma recompensa – ele faz o que tem que fazer porque é o certo.

Pra chegar a esse encontro saudável com o dever moral, é preciso que ele tenha consciência de quem é, de tudo o que viveu, de como suas experiências o moldaram, e adote uma atitude firme diante de seus filhos, de seus pares, da sociedade toda. Se considerar que isso significa “envelhecer”, que pena: seguirá sendo um garoto mimado, uma garota bobinha, sem brio para herdar o bastão de seus pais e sem consistência para passar o bastão adiante.

Pessoas maduras também têm incertezas, vacilam, fraquejam. Porém sabem a hora de cortar o laço com suas carências infantis e de interagir com o mundo a fim de torná-lo melhor, mais digno.

São agentes de transformação, e não de estagnação. Quando se tornarem idosos, poderão olhar pra trás com a consciência de ter dado um sentido à sua vida, em vez de terem percorrido anos e anos inúteis, acreditando que poderiam ser jovens para sempre só pelo fato de andarem com a aba do boné virada pra trás.

Nós, os alienados - Cláudia Laitano




Eu deveria ter uns 11 ou 12 anos quando o acaso – sempre ele – me jogou para dentro do trem da história sem apito prévio. Eram os anos 70, e até as pedras da Praça da Alfândega sabiam que pessoas eram torturadas e mortas pela ditadura militar no Brasil. As pedras sabiam, mas eu ainda não.

Talvez essa breve era da inocência tivesse durado mais algum tempo se em uma viagem da escola eu não tivesse sentado ao lado de uma colega, com quem nunca havia conversado antes, que sabia tudo o que se podia saber aos 12 anos sobre ditadura, presos políticos, tortura. Tinha visto fotos, tinha ouvido conversas.

Enquanto Geisel propunha uma abertura “lenta, gradual e segura”, a descoberta daquilo que, afinal, eles estavam abrindo para mim foi súbita, inesperada e vertiginosa. Havia alguma condescendência naqueles tempos pré-internet em relação à capacidade de engajamento das meninas de 12 anos, mas segundo o vocabulário da época minha inaceitável ignorância política tinha nome: alienação.

No limite, todos somos alienados em relação a alguma coisa: política, ciência, cultura, economia, esportes, religião... A lista de assuntos sobre os quais escolhemos não saber nada é infinita. Segundo a cartilha marxista clássica, porém, alienado é o sujeito que não controla sua atividade essencial (o trabalho), pois a mercadoria que produz existe independentemente do seu poder e de seus interesses. Por extensão, alienadas são as pessoas indiferentes aos problemas políticos e sociais do lugar e da época em que vivem.

Em tempos de superabundância e descentralização da informação, o termo “alienado” ganhou um ar ligeiramente retrô. Ainda será possível ignorar um assunto de interesse público tão redondamente quanto eu ignorava a tortura?

É possível, mas em boa parte dos casos talvez se trate de uma “alienação eletiva”, ou seja, já não é tão fácil culpar os outros (“o sistema”, “a mídia”, “os interésses”...) pela nossa ignorância ou preguiça. Jovens e adultos, operários e seus patrões, a dona de casa e o jogador de futebol, todos escolhemos as causas nas quais não queremos nos engajar, os problemas que não queremos resolver, os pepinos que preferimos varrer para debaixo do tapete.

Na semana passada, quando o último capítulo de Avenida Brasil mobilizou a atenção e o coração de milhões de brasileiros, muitos sacaram da gaveta o velho xingamento de passeata para pespegar nos fãs de Carminha e Tufão. Devagar com o andor. Pode-se, obviamente, gostar ou não de novelas, mas o curioso (assustador seria o termo mais correto) nesses comentários é a dificuldade para compreender e aceitar a ancestral necessidade humana de contar e ouvir histórias – e de fugir da realidade de vez em quando também.

Não é a arte, mesmo uma arte popular ou o mero entretenimento, que aliena as pessoas do que elas deveriam saber/fazer/ser, mas as diferentes escolhas que realizamos todos os dias na vida real: em casa, no trabalho, no espaço público e agora nas redes sociais também. Assistindo novela ou um jogo de futebol, jogando videogame ou namorando, não somos alienados ou politizados. Somos apenas humanos.

Aliás, já ouviu falar dos índios guaranis-kaiowás?

Meu PC


Quando eu quero ele não quer
quando ele quer eu não quero
e assim navegamos
nesse lero-lero.

Bronca



Meu amor 
me deu uma bronca
de fazer estrago
o chocolate quente 
esfriou
e eu fiquei 
amargo!

Lançamento da Feira do Livro de Ijuí/R.S.



Ao pesquisarmos sobre o quanto o conteúdo dos livros (as suas histórias) dão sentido à nossa vida, somos levados a refletir até que ponto, dentre tantas coisas que desejamos ter, o livro é objeto de nossas aspirações.
Nesse mundo de demasiado consumo, objetos, como celular, redes sociais virtuais, tais como facebook, orkut, twitter, etc., por si só não possuem conteúdo. O conteúdo de fato vem das histórias (narrativas), que ganham vida através da nossa imaginação e da criatividade.
Os objetos por si só não nos tornam melhores, ou mais, ou menos sensíveis. Nossa base de emoções se dá, em boa medida, pelas nossas leituras. Elas é que nos dão suporte, ou nos ajudam a suportar (e enfrentar) essa cultura de individualismos, competição e consumismo.
Pretendemos que na infância, além do brincar, sejam despertadas a sensibilidade e a habilidade de ler, escrever e interpretar, ter opinião própria, autonomia para fazer escolhas e, sempre, ter um horizonte ético que dê o norte correto para o convívio social. Estudos mostram que, quanto mais cedo a criança começar  a ler, mais cedo aprenderá e desenvolverá a concentração. Além disso, sua desenvoltura, disciplina, cooperação e bons índices de aprendizagem têm relação direta com o número de livros por ela lidos.
Notamos, em elevado grau, a falta de imaginação, individual e coletiva. E o espaço da escola contribui, ou para manter isso, ou para se contrapor a esse quadro. Diante dessa realidade é que propomos ir às escolas (enquanto escritor e contador de histórias), com o objetivo de mostrar que ler e escrever não é privilégio de poucos, mas sim algo próximo de todos nós, e é nessa “prática” ou “exercício” que vamos emoldurando o “quadro” (retrato) de nossa história. A partir dessas vivências cotidianas é que vamos percebendo nosso papel na sociedade.
Não vamos nos contentar com muito pouco. Iludidos, buscamos a satisfação nas coisas, no dinheiro, e não percebemos que o valor maior (o TESOURO HUMANO) está na AUTORIA de nós mesmos, que em boa medida só é possível pelos livros e a leitura.
Queremos de público agradecer à administração municipal, à SMED e ao IMEAB pelo espaço a nós proporcionado, de poder dedicar 20 horas semanais para contar histórias e apresentar livros e autores aos nossos alunos. Desse exercício na escola é que fomos tomando consciência desse importante papel de formar leitores.
Uma ótima Feira do Livro Municipal 2012 a todos nós!

(Discurso do Patrono da Feira do Livro de Ijuí, (Américo Piovesan) no dia do lançamento da feira, no SESC).

Língua dos passarinhos



Antes tarde do que nunca, descobri:
para aprender a língua dos passarinhos
tem que fazer curso presencial!

Fantasia



A fantasia
se libertou 
da princesa
e veio até a 
janela
se exibir...

para mim!

O meu país - Zé Ramalho


 

 http://letras.mus.br/ze-ramalho/400344/

Tô vendo tudo, tô vendo tudo
Mas, bico calado, faz de conta que sou mudo


Um país que crianças elimina
Que não ouve o clamor dos esquecidos
Onde nunca os humildes são ouvidos
E uma elite sem Deus é quem domina
Que permite um estupro em cada esquina
E a certeza da dúvida infeliz
Onde quem tem razão baixa a cerviz
E massacram-se o negro e a mulher
Pode ser o país de quem quiser
Mas não é, com certeza, o meu país 


Um país onde as leis são descartáveis
Por ausência de códigos corretos
Com quarenta milhões de analfabetos
E maior multidão de miseráveis
Um país onde os homens confiáveis
Não têm voz, não têm vez, nem diretriz
Mas corruptos têm voz e vez e bis
E o respaldo de estímulo incomum
Pode ser o país de qualquer um
Mas não é com certeza o meu país 


Um país que perdeu a identidade
Sepultou o idioma português
Aprendeu a falar pornofonês
Aderindo à global vulgaridade
Um país que não tem capacidade
De saber o que pensa e o que diz
Que não pode esconder a cicatriz
De um povo de bem que vive mal
Pode ser o país do carnaval
Mas não é com certeza o meu país 


Um país que seus índios discrimina
E as ciências e as artes não respeita
Um país que ainda morre de maleita
Por atraso geral da medicina
Um país onde escola não ensina
E hospital não dispõe de raio-x
Onde a gente dos morros é feliz
Se tem água de chuva e luz do sol
Pode ser o país do futebol
Mas não é com certeza o meu país 


Tô vendo tudo, tô vendo tudo
Mas, bico calado, faz de conta que sou mudo 


Um país que é doente e não se cura
Quer ficar sempre no terceiro mundo
Que do poço fatal chegou ao fundo
Sem saber emergir da noite escura
Um país que engoliu a compostura
Atendendo a políticos sutis
Que dividem o Brasil em mil Brasis
Pra melhor assaltar de ponta a ponta
Pode ser o país do faz-de-conta
Mas não é com certeza o meu país 


Tô vendo tudo, tô vendo tudo
Mas, bico calado, faz de conta que sou mudo.

De uma música do Belchior


 
Aquela gatinha
vai ser o meu céu
mesmo se eu virar estrela
e despencar
can
     di
         da
             men
                    te...

Namoro de gato


 
Primavera 
úmida
sol queima
e derrete 
meu quarto

e eu ainda 
aguentando
namoro de gato!

Oficina de contação de histórias e declamação de poemas


 
No dia 10 de outubro o escritor, professor e contador de histórias Américo Piovesan esteve na escola Estadual de Ensino Fundamental São Pio X, Vila Salto, município de Bozano, participando da abertura da feira do livro da escola.
Os patronos da feira desse ano foram os Irmãos Grimm, sendo que todo o cenário do salão da escola foi criado a partir de sua obra.
O objetivo principal da feira do livro da escola é o de continuar despertando o gosto dos seus alunos pela leitura. Nesse sentido, a Livraria Nova Geração expôs centenas de livros na escola para que os alunos pudessem conhecê-los e adquirí-los.
Na abertura da feira do livro da escola, Américo Piovesan apresentou seus livros aos alunos, falando sobre como surgiu a temática de cada um. Falou também da escrita como atividade criativa, e que cada aluno pode escrever de maneira divertida e também critica. Ressaltou a importância de se observar e imaginar cenas e personagens, e também comportamentos e outras características das pessoas que cruzamos no cotidiano.
Em um segundo momento, o escritor contou algumas histórias e declamou poemas. Seu objetivo foi o de exercitar a sensibilização, para despertar nas crianças o gosto pelos livros e a leitura.


LERO-LERO - Cacaso


Sou brasileiro de estatura mediana 
Gosto muito de fulana mas sicrana é quem me quer
Porque no amor quem perde quase sempre ganha
Veja só que coisa estranha, saia dessa se puder
Não guardo mágoa, não blasfemo, não pondero
Não tolerolero lero devo nada pra ninguém
Sou descasado, minha vida eu levo a muque
Do batente pro batuque faço como me convém
Eu sou poeta e não nego a minha raça
Faço versos por pirraça e também por precisão
De pé quebrado, verso branco, rima rica
Negaceio, dou a dica, tenho a minha solução
Sou brasileiro, tatu-peba taturana
Bom de bola, ruim de grana, tabuada sei de cor
Quatro vez sete vinte e oito nove fora
Ou a onça me devora ou no fim vou rir melhor
Não entro em rifa, não adoço, não tempero
Não remarco, marco zero, se falei não volto atrás
Por onde passo deixo rastro, deixo fama
Desarrumo toda a trama, desacato Satanás
Sou brasileiro de estatura mediana
Gosto muito de fulana mas sicrana é quem me quer
Diz um ditado natural da minha terra
Bom cabrito é o que mais berra onde canta o sabiá
Desacredito no azar da minha sina
Tico-tico de rapina, ninguém leva o meu fubá

Gravado por Edu Lobo

Saldo - José Paulo Paes


a torneira seca
(mas pior: a falta
de sede)

a luz apagada
(mas pior: o gosto
do escuro)

a porta fechada
(mas pior: a chave
por dentro)

um bom poema leva anos - Paulo Leminski

Um bom poema leva anos cinco jogando bola, mais cinco estudando sânscrito, seis carregando pedra, nove namorando a vizinha, sete levando porrada, quatro andando sozinho, três mudando de cidade dez trocando de assunto, uma eternidade, eu e você, caminhando junto.

Cão farejador



Novo naquela rua
era cão
farejador
de frases
nas sarjetas e muros.
Faminto de novidades
fugiu do hospício
para não ser culpado
dos males do mundo.

Prova falsa - Stanislaw Ponte Preta





Quem teve a ideia foi o padrinho da caçula - ele me conta. Trouxe o cachorro de presente e logo a família inteira se apaixonou pelo bicho. Ele até que não é contra isso de se ter um animalzinho em casa, desde que seja obediente e com um mínimo de educação.

— Mas o cachorro era um chato — desabafou.

Desses cachorrinhos de raça, cheio de nhém-nhém-nhém, que comem comidinha especial, precisam de muitos cuidados, enfim, um chato de galocha. E, como se isto não bastasse, implicava com o dono da casa.

— Vivia de rabo abanando para todo mundo, mas, quando eu entrava em casa, vinha logo com aquele latido fininho e antipático de cachorro de francesa.

Ainda por cima era puxa-saco. Lembrava certos políticos da oposição, que espinafram o ministro, mas quando estão com o ministro ficam mais por baixo que tapete de porão. Quando cruzavam num corredor ou qualquer outra dependência da casa, o desgraçado rosnava ameaçador, mas quando a patroa estava perto abanava o rabinho, fingindo-se seu amigo.

— Quando eu reclamava, dizendo que o cachorro era um cínico, minha mulher brigava comigo, dizendo que nunca houve cachorro fingido e eu é que implicava com o "pobrezinho".

Num rápido balanço poderia assinalar: o cachorro comeu oito meias suas, roeu a manga de um paletó de casimira inglesa, rasgara diversos livros, não podia ver um pé de sapato que arrastava para locais incríveis. A vida lá em sua casa estava se tornando insuportável. Estava vendo a hora em que se desquitava por causa daquele bicho cretino. Tentou mandá-lo embora umas vinte vezes e era uma choradeira das crianças e uma espinafração da mulher.

— Você é um desalmado — disse ela, uma vez.

Venceu a guerra fria com o cachorro graças à má educação do adversário. O cãozinho começou a fazer pipi onde não devia. Várias vezes exemplado, prosseguiu no feio vício. Fez diversas vezes no tapete da sala. Fez duas na boneca da filha maior. Quatro ou cinco vezes fez nos brinquedos da caçula. E tudo culminou com o pipi que fez em cima do vestido novo de sua mulher.

— Aí mandaram o cachorro embora? — perguntei.

— Mandaram. Mas eu fiz questão de dá-lo de presente a um amigo que adora cachorros. Ele está levando um vidão em sua nova residência.

— Ué... mas você não o detestava? Como é que arranjou essa sopa pra ele?

— Problema da consciência — explicou: — O pipi não era dele.

E suspirou cheio de remorso.

Gatinha




Seu olhar me interroga
até abrir minha porta
meu coração acelera
e segue sua rota.

Dança


As bailarinas
do box do banheiro
dançam toda vez
que passo por lá.
Na dança de amores,
no toma-lá-dá-cá,
eu danço até ca(n)sar!

Vou à luta


Vou à luta
como um cavalo 
              crioulo
puro sangue
numa cavalgada 
                       infinita.

É que meu signo previu
nota 10 em meu humor
e capacidade impar
de influenciar as pessoas...

Seria  o paraíso
se você soubesse disso
e desse a mínima pra mim!

Desafinado



Eu cantava 
           em sol
me ouvia em lá
quando o amor 
         desafinou
eu sofri 
          em bemol
essas coisas 
              do amor
me dão 
          dó maior!

Sabiá

 
Sabiá
madrugador
chama clama
por amor

acordei
com seu cantar
acordei
pra me encontrar...

Sabiá
galanteador
como eu
procura
amor!

Clipe