Inquieto e solitário, sinto-me como as roupas expostas nos cestões das lojas quase vazias. Olhos azuis avermelhados pedem atenção enquanto criaturas passam. Tudo momentâneo, outras imagens e cenas me ocupam: comi a magrela (ou será que fui comido por ela?) que tem uma loja de lingeries e perfumes importados ali, na outra esquina. Alguns anos atrás eu era um carinha disputado pelas garotas. Xotas havia até demais. Eu esnobava. Hoje a empresária finge, ou nem sabe que ainda estou vivo.
Tudo é parte do processo.
Tomara que a decadência não me tenha como alvo, ela e sua pressa.
Logo que cheguei no bar e sugava a primeira long neck tentando esquecer a garota da loja de perfumes e a última ressaca, estacionou diante destes olhos uma madame com seu cachorrinho no colo, com cara de guaxinim, um Spitz Alemão anão. O pet latiu, madame xingou e... suas vozes eram iguais. Tudo se encaixava.
Velhos resmungam no espaço vazio do bar. Deve ser algo parecido ao que repetem pros médicos nos consultórios e pras enfermeiras e cuidadoras e caixas de supermercado e atendentes de farmácias. longevidade é o que se vê. Caixas e caixas de remédio + qualidade de vida, ainda mais nos bairros de classe média e alta da cidade. Preciso espiar o que rola nas periferias.
Não sei por que alguns velhos me deixam ansioso.
Sei que exagero quando avisto todo tipo de velhos: os mansos, os agressivos, os saudosistas, os desmemoriados. Contam as horas para que chegue a noite e finalmente dormir. Amanhã tudo se repete. Tédio. Às vezes, parecem autômatos. Se chegar vivo a uma certa idade, vou dar um jeito pra que alguém me faça uma eutanásia, sem culpas a esse camarada, é claro.
Aqui no bar, observo a tia que brinca com o bebê de um casal de jovens, seus amigos.
- Quem vai fazer um aninho? Quem? Quem? Parabéns a você!...
Ninguém liga pra ela, deve ter pisado fundo num copo. Ainda é jovem, mas a necessidade de repetir aqueles papos que todos estão por aqui a tornam uma tia chata.
Sei que sou preconceituoso.
Lembranças aleatórias.
Minha última foda consumou-se rápida, rápida, não durou mais de três minutos e decepcionou as estatísticas, passou longe de trezentas estocadas e o meu coração saiu pela boca. Era como uma canção adolescente que não suporto ouvir agora. Melosa demais, entorpecedora de rebanhos, como diria Nietzsche. Pena vocês não terem vivido na época dele. O jaguara saiu-se bem demais.
Merda. Já me desgarrei do rebanho? Talvez. Sou agora uma ovelha bebum e mal-humorada.
Outro cara que admiro é o Beethoven. Viver depois dele, desfrutar da Quinta Sinfonia em Dó Menor, é estar no lucro. Sua criação é potente, como uma pimenta que encontrei dia desses no supermercado. Chama-se Naga Morich, a pimenta.
Pra finalizar, estou relendo anotações que fiz por aí, nos bares. Leio e, pra maioria delas, faço um X com caneta tinta vermelha e escrevo HORRÍVEL! Foi o jeito que criei pra ter mais disciplina e reacender o amor próprio.
(B. B. Palermo)
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