quarta-feira, 15 de abril de 2026

Respirando sem ajuda do aparelho

 

Oito dias sem usar o celular.
No começo, houve alguma ansiedade, e a pressa para avisar aos mais próximos de que estava "ilhado". Um dia depois percebi que posso respirar sem ajuda de aparelhos.
Esqueci duns grupos de Whats que participava - talvez algum conhecido tenha partido pra outra, e eu fiquei sem saber... mas sei que, por dentro ou não, tragédia e mistério sempre há de pintar por aí.
Sem o celular a me vigiar e eu a vigiá-lo, observei com mais cuidado as coisas ao redor. O sol continua nascendo e se pondo, o verão deu lugar pro outono e, dizem, o inverno vem aí. Vi as pessoas desfilando com seus aparelhinhos. Tudo muito óbvio? Acho que sim. Parece que o mundo real se afastou, ficou em segundo plano.
Sem as tantas ocupações e noias que a tela me proporcionava, me voltei para as vésperas do aniversário do meu amor, torcendo para que ela continue me surpreendendo, e eu a ela. E que me inclua nos seus planos, e vamos que vamos, juntos, fazendo e pagando contas, sempre nas boas e nas ruins.
No sétimo dia, o celular ressuscitou. Trezentas e quarenta e sete notificações. Mensagens de preocupação, memes, cobranças de trabalho, promoção de pizza. E uma mensagem dela, enviada no primeiro dia:
- Amor, estou indo pra casa da minha mãe, não sei quando volto. Preciso pensar.
Li de novo. E de novo. Procurei mensagens seguintes - nenhuma.
Liguei. Caixa postal.
Fui até a janela. O sol se punha bonito, indiferente. O outono dançava nas folhas. E eu ali, de repente, respirando com muita ajuda de um aparelho que não era o celular... O peito apertado, o silêncio da casa ecoando como uma pergunta que eu tinha esquecido de fazer enquanto admirava o mundo lá fora.
Afinal, o mundo real não tinha ido pra lugar nenhum. Eu é que tinha aprendido a olhar pra tudo, menos pra ela, sentada ali, do outro lado da mesa, esperando que eu notasse que ela também existia.
(B. B. Palermo)

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  Oito dias sem usar o celular. No começo, houve alguma ansiedade, e a pressa para avisar aos mais próximos de que estava "ilhado"...