quarta-feira, 29 de julho de 2026

A dona do hospício

 


Malukinha trancou-me a sete chaves no quarto mais protegido da casa. Não que eu seja perigoso - sou apenas noiado, o que, no fundo, é quase a mesma coisa, só que com menos coragem.
Fiquei tenso. Será que guardei uma cópia da chave do portão? Aposto que ela trocou o miolo.
Desmiolados que somos, adoramos ver o hospício pegar fogo. Dos corredores vêm música alta e ruídos suspeitos. Ela dança nuinha ao lado da cama, livre como quem nasceu sem roupa e decidiu que nunca precisou.
- Cadê a taça de vinho, meu bem?
- Eu te bebi, meu amor.
Fantasia e vida real se misturam como gim e tônica numa tarde de domingo.
- Amoreco, amanhã marcamos terapia de casal.
Nos dias de fogo baixo, servimos filosofia no cardápio. Cansei de saber que teoria é uma coisa e prática é outra. Seria bom se as duas se encontrassem de vez em quando pra um café. Na teoria, sou fã de Heráclito: "Não nos banhamos duas vezes no mesmo rio". Na prática, não mudo nada. Sou o Palermo de sempre - a mesma água no mesmo rio, com as mesmas meias.
Ela me acerta uma sapatada que é quase carinho:
- Agora que tá ficando velho, devia se preocupar. Pare de fugir de um grande amor!
Malukinha é mais prática do que eu. Tem as chaves do meu coração. Ou do meu hospício. Desabafa, sacudindo o molho todo:
- Já avisei. Acabou essa história de você cantar na mesma nota, seu mi-mi-lá-lá!

B. B. PALERMO

A dona do hospício

  Malukinha trancou-me a sete chaves no quarto mais protegido da casa. Não que eu seja perigoso - sou apenas noiado, o que, no fundo, é quas...