quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

A última saideira


Sou mais um desses inocentes funcionalmente culpados,
parte da gloriosa turma dos fundos da sala, especialistas em gazear
aquilo que realmente prestava.
A gente nunca detonou bomba nenhuma, no máximo explodimos oportunidades, relacionamentos e algum neurônio.
Chegamos a brincar com ideias grandiosas de destruir o mundo
“em nome de Deus” ou de qualquer moda existencial do momento
- mas nem isso levamos tão a sério.
Nunca paramos para escolher um sonho grande,
mergulhamos em águas rasas, acreditando que dava pé
- e dava mesmo, o problema é que nunca passava da canela.
Os monstrinhos que nos cercavam, esses que a gente chamava de amigos,
referências, inspirações, também não sabiam muito bem
o que estavam fazendo.
E eu ria com eles, porque rir sempre saiu mais barato do que pensar.
Até que um dia descobri que os monstrinhos mais perigosos não estavam lá fora,
eram os inquilinos (definitivos) que moravam dentro de mim.
Os sacanas não pagam aluguel e ainda dão palpite.
Então, pra fechar essa conta meio mal resolvida com a vida,
eu fico com a minha última saideira: meu canto, meu papel,
minha caneta, minha cerveja gelada.
Tudo isso me acaricia, me provoca, me dá um certo tesão existencial barato,
como quem promete sentido em troca de gorjeta.
E eu acredito, porque acreditar também é humano.
Aí eu rumino, imagino, fantasio minha brilhante ascensão… e minha queda ainda mais espetacular.
Tudo isso pra chegar, com estilo, no mais elegante dos destinos:
o lugar nenhum. Mas chego sorrindo - porque, convenhamos,
sempre foi esse o roteiro.
(B. B. Palermo)

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