sexta-feira, 11 de setembro de 2026

Agulhadas no bumbum

 

Quem tem medo de agulha desde criança sabe: sossego é palavra de outro dicionário. Eu, por exemplo, tentei convencer a Malukinha - minha parceira de aventuras e trapalhadas - a experimentar acupuntura pra aliviar suas dores. Resultado? Ela acelerou o motor da vida, mergulhou num projeto novo e ignorou meu alerta de meio velho babão: “Querida, sucesso é ótimo, mas e o mar? O infinito? O que a gente veio fazer nesse mundo, afinal?”.
O corpo, claro, não é bobo. Grita, reclama, faz drama. Primeiro a sua coluna travou, depois a perna deu seu recado, e o quadril... esse sumiu em reforma. Andar virou uma etapa de um desafio olímpico, com direito a bastão improvisado - minha muleta emocional feita de um cabo de guarda-sol.
E eu? Culpa é minha, claro. Sou a velha criança mimada que só quer um afeto diário na medida certa.
Malukinha acusa: “Você reclama porque é carente"! Ah, mas não era pra ser assim. Eu queria as nossas paixões simples - as conversas, as caminhadas, a praia. Aquelas coisas que, secretamente, são o auge de um grande amor.
Mesmo com drama, birra e teimosia, insisto. Porque é nesse carinho meio bagunçado, com cheiro de agulha e muleta, que a gente se encontra. Malukinhos, nessa vida torta, até quando o amor vira uma injeção no bumbum.
E a velha criança que sou, toda dramática, termina sempre com a mesma frase:
- A parte não é o todo, meu bem. Agora vamos cuidar do nosso jardim... ou pelo menos tentar não furar o corpo todo antes do próximo café.

B. B. PALERMO

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