Às vezes me pergunto sobre a escolha do meu nome por meus pais. De onde tiraram a ideia de chamar uma criança de Américo?
Sou o oitavo de dez irmãos, e todos os nossos nomes começam com a letra A. Dez crianças. Dez nomes com A. Não é família, é enciclopédia. Antenor, Albenês, Angélica, Adelar, Alvino, Alda, Armando, Américo, Alvina e Aldir. Parece lista de santo ou cardápio de restaurante que só serve coisa com A: abóbora, alcachofra, amendoim. Mamãe, quando gritava "Aí vem o A!", saíam dez gringuinhos pelo portão.
Pesquiso no Google a origem do nome de meu irmão Alvino. Lá está: nobre, amigo.
Meu irmão estabeleceu ao longo da existência um grande leque de amizades, seja pelo trabalho, pela vida comunitária ou pelo futebol. Alvino era daqueles que conhecia o nome do cachorro do vizinho, do vizinho, e do pai do vizinho. Eu, por outro lado, mal lembro o nome do meu cabeleireiro.
Quanto ao atributo "nobre", eu associo aqui o termo "cuidar, proteger". Todos sabemos que nas famílias numerosas como as nossas, que nascemos e crescemos na Vila Faguense, era uma necessidade os irmãos mais velhos protegerem os pequenos. Havia uma cadeia de proteção. O mais velho protegia o do meio, o do meio protegia o pequeno, e o pequeno - no meu caso, eu - protegia a melancia. Não por escolha. Por acidente.
O dia em que a melancia quase me matou
E no caso do Alvino, vale para o seu cuidado com os bichos, o pomar, a lavoura, o jardim e o açude, mas, principalmente, as pessoas ao seu redor. Depois que mudei para Ijuí para trabalhar e estudar, nos passeios em Frederico e na comunidade ele e sua família sempre me acolheram. Chegava lá e já tinha janta, cama, e - se houvesse algum perigo iminente - um irmão de olho.
O Alvino recordava, como se fosse um acontecimento banal:
- Um dia, quando tu tinha uns 2 ou 3 anos, eu te salvei de um afogamento, Américo. Lembra da fonte perto de casa, em meio às bananeiras, que tinha aquela água cristalina e fresquinha no verão? A gente deixava as melancias na fonte pra refrescarem e tu, um piá sapeca, agarrou uma melancia, ela afundou e tu foi junto. Não sei como eu percebi e te puxei pelo dedão do pé!
Uns 2 ou 3 anos. Ou seja: eu era um ser humano com a estabilidade motora de um pêssego maduro. E a primeira grande decisão da minha vida foi: "Vou abraçar essa melancia". Não deu certo. A melancia me traiu. Afundou e me levou junto, como fazem todos os grandes amores da nossa vida. Se não fosse o Alvino, hoje vocês não estariam lendo este texto. Estariam lendo uma placa de bronze na fonte: "Aqui tentou viver o Américo. Perdeu para uma fruta".
Todos nós, desde bebês, tivemos e damos alguns sustos. O meteoro da morte, em algum momento, passou raspando pela gente. Que bom que havia por perto um protetor com seu olhar atento. E foi graças a isso que estou aqui remoendo e trazendo para vocês essas lembranças.
Mão de onça, coração de manteiga
Poderia escrever um textão falando do Alvino como goleiro, que aos 14 anos de idade já se postava debaixo das goleiras do time do Juventus. Marcante foi o apelido que recebeu, ao jogar no time do Ipiranga, desde os 19 anos: Mão de onça. Ele diz que o apelido foi inspirado num goleiro nordestino famoso, que era assim chamado. O certo é que o Alvino, quando saía de soco em algum cruzamento para a área, com aquelas suas mãos enormes e potentes pra afastar a bola, botava atacantes e zagueiros pra correr. Pobre de quem levasse direto ao lado do ouvido!
Imaginem: um jovem de 19 anos com mãos de onça. Não era goleiro, era defesa civil. Cruzamento na área? Não havia. Havia evacuação. A bola vinha, Alvino saía, e quem estivesse no caminho aprendia a voar antes da NASA. Dizem que até hoje existe um zagueiro em Frederico que, quando ouve barulho de vento, se abaixa instintivamente.
E foi o futebol que lhe rendeu um emprego na Corsan, ao qual se dedicou até sua aposentadoria. Trabalhava na adutora da barragem no Rio Pardo, desde 1982. Turnos da noite, a solidão no meio daquela mata o inspiraram (ou foi também o medo de passar a noite sozinho naquele breu, ouvindo o ronco potente dos motores que empurravam água pra cidade?). Ele construiu um pequeno jardim e um santuário e trouxe para junto a companhia e proteção de Nossa Senhora de Lurdes, ao lado de grandes rochas.
Quem protege também é protegido
O Alvino, que protegia e cuidava de muitos ao seu redor, tinha e tem uma fé enorme, sempre soube que quem protege também é protegido.
E eu penso: talvez seja por isso que ele me puxou pelo dedão do pé naquela fonte. Não foi só força física. Foi fé em ação. Ele acreditava, mesmo sem saber, que aquele guri bobo que mergulhou atrás de uma melancia um dia escreveria sobre ele. E aqui estou eu, cumprindo a profecia, devolvendo o favor da melhor forma que sei: contando.
Afinal, salvadores também precisam ser salvos - do esquecimento.
(Américo Piovesan)
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