Você é novato nessas coisas de pensar alto, mas não tá cego, não. Consegue voar por cima daquela névoa onde a galera só dorme num berço "feliz".
Parece que você é um dos poucos que não entra em desespero nem sai correndo atrás da salvação, naquele fim do túnel.
Não me pergunte onde fica o bem ou o mal, Deus ou o diabo - a gente fala demais e entende de menos.
Talvez, sem coragem ou esperança, o jeito seja fechar os olhos, jogar um paraquedas meio furado nas costas e pular com a multidão.
No desespero, a turma bebe, relaxa, tenta esquecer as merdas que fez. E o ego complica tudo, mas esquece. Entra na fila, vai com o rebanho. Todos adoram frases feitas: “Viver é perigoso”, “Basta estar vivo”.
Lá de cima, noto como todo mundo se ajeita melhor no grupo.
Do nada, surge uma voz. Um gato que só você ouve:
- Bicho, só você pode voar além do abismo. Tira a venda dos olhos. Você pode sair do bar com só uma cerveja, ou nem ir, mesmo que a Lô esteja esperando.
Impossível negociar com ela... Mas como o Romeu, o gato, sabe disso? Sua voz aparece de todo jeito, às vezes calma, às vezes gritando. Será sonho?
Ele me fala:
- Tô aqui rastreando as bobagens de vocês, humanos.
Confuso, tento entender. Meio cético, meio encantado, percebo que é só mais um jeito de olhar as coisas.
Quero conversar, mas a multidão finge que não escuta. Então, bora cuidar do meu canto, no bar, com cerveja, poesia e risadas. Pra hoje, isso me basta.
B. B. PALERMO
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