O manual dizia: não engorde, não emagreça, não inveje e nem seja invejado. Ele engoliu o manual de uma vez e foi viver.
Cruzou pelas frestas, acendeu a lanterna e seguiu na direção do abismo - devagar, porque abismo nenhum foge. Subiu na bicicleta sem saber pedalar: quem espera aprender, não anda. No começo tropeçava, depois tropeçava com estilo.
Não se comportava como um doente sincero. Preferia fingir que estava tudo bem, e estava, na maior parte do tempo. Mastigava devagar, boi ruminando, olhando o próprio prato: é ali, entre as porcarias, que a gente se conhece de verdade.
Se a noite demorava, baixava a cortina e encarava a própria noite. Um dia fez um parto, virou a noite. Coragem, irmão, disse ao espelho. O espelho calou.
Sonhava em arrastar a montanha até os pés. A montanha, avisaram, pesa mais. Ele respondeu que tinha tempo. Tinha, de fato. Era só isso que tinha.
Ganhar na loteria tem a mesma chance de um meteorito cair na cabeça. Sonhe, jogue. Quem sabe as duas coisas não se realizam de uma só vez?
Relembre das paixões de adolescente: a ânsia do primeiro beijo, a espera do primeiro abraço, as loucuras arrebatadoras. Corra atrás disso outra vez. Faça algo que dê vontade de ajoelhar - e rezar, mesmo quem não reza.
E, já sexagenário, descobriu as vantagens: a baba involuntária quando a garçonete pergunta "satisfeito, meu amor?". O café vem quentinho, a conta vem mansa, e o gran finale: a piscadela da despedida.
Muita coisa boa acontece quando a gente deixa a dúvida de lado. Se quiser voar alto, vá, sem se perguntar para onde.
No fim, respirou fundo, falou tudo sozinho, em alto e bom som, e saiu devagar, parecendo um deus que acabou de inventar o mundo.
Como se nada tivesse acontecido. Como se tudo ainda fosse acontecer.
B. B. PALERMO
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